Por que vivem eles numa mini-casa

Por dentro de uma das mini-casas de Mark Burton
Por dentro de uma das mini-casas de Mark Burton

2007 estava a ser um ano em grande. Hari e Karl tinham casado há pouco tempo e, além de estarem a remodelar a casa de dois quartos, na Florida, porque a família tinha crescido, tinham também embarcado na aventura de abrir um restaurante. Acreditavam que, um dia, este velho sonho lhes garantiria "a independência económica", que tanto desejavam. Mas a crise imobiliária pregou-lhes uma rasteira e, em poucos meses, perderam a casa e o restaurante.

Para conseguirem sobreviver, pediram ajuda financeira a amigos e familiares e, na tentativa de recuperar a habitação, Karl gastou toda a herança que uma avó da Letónia lhe deixara em testamento. Mas sem sucesso.Foi durante uma sucessão de trabalhos temporários e precários, que Karl descobriu o livro “Mortgage Free” (Livre de hipotecas, em português), de Rob Roy.

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O livro, que dá exemplos e sugestões de como possuir uma casa e um terreno sem contrair empréstimos bancários, foi o pontapé de saída. Compraram um terreno em dinheiro e, com a ajuda do site tinyhouseblog.com, começaram a construir a mini casa de 15 metros quadrados, onde hoje vivem com os dois filhos, Archer de 9 anos e Ella de 11.

Demoraram 10 meses a erguê-la e utilizaram, sobretudo, materiais recicláveis, como a madeira, o vidro, a chapa de zinco e o alumínio. Gastaram, no total, pouco mais de 8 mil euros. Sem hipoteca para pagar e com contas da água, luz e eletricidade bem mais reduzidas, em pouco tempo começaram a ver resultados. “Como a casa é tão pequena e fácil de aquecer, hoje gastamos em eletricidade um quarto daquilo que gastávamos na Florida. Por mês, poupamos cerca de 1000 dólares (cerca de 730 euros), além do meu salário, que vai todo para o banco”, diz-nos Hari. Com o dinheiro que pouparam, estão agora a construir uma casa maior, mesmo ao lado.

Também Chris e Malissa, que vivem numa mini casa de 13 metros quadrados, em Washington, optaram por este estilo de vida. “Estamos a começar a nossa vida e não queríamos ficar presos a uma hipoteca durante 30 anos. Muitas pessoas perguntam-nos por que não vivemos antes numa rulote. Nós explicamos que queremos viver numa casa, não num veículo recreativo”, contam ao site padtinyhouses.com. Como têm poucas despesas, os empréstimos bancários que fizeram para poderem estudar já estão pagos.

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Esther e Kenny são outro exemplo. Dizem que o que perderam em espaço, por trocar uma casa convencional por uma mini casa de 13 metros quadrados, ganharam em tempo livre (nos EUA, as habitações têm em média cerca de 200 metros quadrados). “Em vez de estarmos sempre preocupados com dinheiro, começámos a pensar no que poderíamos fazer para reduzir as nossas necessidades. Hoje, como precisamos de menos, trabalhamos quando queremos e vamos de férias quando nos apetece”.

Dee Williams, uma das pioneiras deste movimento que se está a espalhar um pouco por todo o mundo e já chegou a Portugal, vive há dez anos na sua mini casa de sete metros quadrados e é o exemplo máximo desta filosofia de vida: trabalha apenas três dias por semana. Como optou por não ter água canalizada, nem eletricidade (em contrapartida tem vários painéis solares), as suas contas são quase inexistentes. Por mês, paga apenas oito dólares (pouco mais de cinco euros) por um fogão e um aquecedor a gás propano. Quando quer tomar banho, fá-lo em casa de amigos e vizinhos, em troca de favores.

Charles Finn é mais radical. No Verão toma banho em rios ou lagos e apaixonou-se por estas mini casas (a sua tem oito metros quadrados) depois de ter vivido no Japão. Estas habitações em ponto pequeno fazem-lhe lembrar as teahouses, ou casas de chá, onde os Samurais eram obrigados a baixar a cabeça para entrar, significando, assim, que deixavam as armas e a violência lá fora. “A maior alegria de viver numa mini casa é a sensação de liberdade que advém de viver com pouco. É difícil de explicar, mas existe”, conta ao Dinheiro Vivo.

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Segundo dados do departamento do Comércio dos EUA, o preço dos imóveis aumentou 56% desde 1990. Com preços tentadores, são cada vez mais os que se mudam para estas mini casas, que podem custar até 23 mil dólares (quase 17 mil euros). Já uma casa tradicional custa uma média de 272 mil dólares (200 mil euros), à qual ainda é necessário acrescentar os juros.

Um estudo feito pelo thetinylife.com, com base nos censos do país, apurou que 78% dos moradores de mini casas eram os donos das mesmas, contra 65% dos moradores de uma casa normal. Também 68% dos donos de mini casas não tinham hipotecas, quando comparados com os 29,3% dos donos de casas tradicionais. Outro dado que sobressai prende-se com as poupanças dos americanos. Também aqui os moradores de mini casas levam a melhor, pois têm mais poupanças no banco.

Contudo, o processo de downsizing, ou seja, de viver com menos, não é tão simples quanto parece e, adianta quem o fez, nem toda a gente tem perfil para esta forma de vida. “Passámos cerca de dois anos a prepararmo-nos para viver numa mini casa. Fizemos imensas vendas de garagem e doámos grande parte do que tínhamos. Mas, não foi só isso, também tivemos de nos adaptar física e emocionalmente. Aprendemos a exprimir-nos e a conviver num espaço mais reduzido. No início, por exemplo, andávamos sempre aos encontrões”, conta Hari.

Ter uma banheira é das coisas que mais falta faz a esta professora primária. “Também sinto muita falta do nosso antigo sofá, mas como era muito grande, tivemos de o vender”. Por questões de espaço, Hari e Karl optaram por um polibã e por um banco corrido com armazenamento. Dee, por sua vez, mantém uma lista com os 300 itens que possui, como lembrança de que não precisa de mais para ser feliz. Nela estão incluídas apenas três t-shirts, três pares de calças, três panos da cozinha e dois pares de sapatos. E sempre que compra alguma coisa nova, livra-se de uma mais velha.

Quem vive com menos tem de aprender a tirar partido do espaço que tem e, por vezes, isso pode ser um exercício diário. “Todos os dias fazemos uma purga cá em casa. Tudo tem de estar no sítio antes de irmos para a cama. Se alguma coisa não tiver um lugar, então terá de ir embora”, explica Hari, acrescentando que a biblioteca local é uma extensão da sua mini sala de estar. “É gratuita, podemos levar os livros para casa e depois devolvê-los. Isso faz com que não haja acumulação”.

Mas há uma preocupação comum a todos os moradores destas mini casas: a pegada ecológica. “O facto de não ter um frigorífico, por opção, obriga-me a comer os restos de uma refeição anterior rapidamente e a comprar exatamente aquilo que preciso para viver, evitando acumulação, despesas desnecessárias e desperdícios”, explica-nos Charles, que cozinha num forno a lenha e a faz a iluminação da sua mini casa com candeeiros a petróleo.

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Tanto Charles como Dee tornaram a construção de mini casas a sua profissão e o movimento está a ganhar tanta expressão que já chegou à Europa. No Reino Unido, por exemplo, este tipo de habitação está a ser muito procurado por jovens entre os 20 e os 30 anos, que, sem esperanças de conseguirem um empréstimo do banco, optam por uma alternativa.

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Mark Burton começou a construí-las quando ficou desempregado e, em 18 meses, já vendeu seis. No seu site tinyhouseuk.co.uk, as mini casas podem ir dos 12 mil aos 22 mil euros e vêm equipadas com cozinha, casa de banho, sala de estar e um quarto duplo no “sótão”. Consoante a necessidade dos clientes, também podem ser construídas sobre rodas. “As pessoas riem-se quando as veem a ser rebocadas, mas, depois, quando as visitam por dentro, ficam com a boca aberta de espanto e dizem muitas vezes ‘uau'”.

*em Inglaterra

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