automóveis

No futuro que Elon Musk prevê, as pessoas não terão um carro

Elon Musk, CEO da Tesla. Fotografia: REUTERS/Bobby Yip
Elon Musk, CEO da Tesla. Fotografia: REUTERS/Bobby Yip

A Tesla está a concentrar-se em veículos autónomos, algo que ameaça mudar todo o modelo de negócio da indústria automóvel.

Na semana passada, Elon Musk lançou o segundo Master Plan da Tesla. O primeiro, elaborado em 2006, definia a estratégia automóvel da empresa e tem sido seguido à letra. Este segundo distancia a Tesla do mercado automóvel tradicional, com ideias para reconfigurar as nossas cidades, sistemas energéticos e o nosso impacto sobre o ambiente.

Recapitulemos brevemente a história da empresa. A estratégia inicial da Tesla começou como uma start-up: construir um produto mínimo viável para testar o mercado. Construíram o Tesla Roadster, que era essencialmente um Lotus elétrico, e venderam-no bem.

Depois passaram para o mercado de luxo onde aplicaram muita pressão competitiva com o Model S. Recentemente, anunciaram a parte final do seu plano: um veículo para o mercado de massas que custa cerca de 30 mil dólares e que registou pré-encomendas suficientes para vários anos.

Tesla é uma das marcas que estão a desenvolver carros autónomos. Fotografia: EPA/JOHN G. MABANGLO

Tesla é uma das marcas que estão a desenvolver carros autónomos. Fotografia: EPA/JOHN G. MABANGLO

Ao longo do percurso, tem havido muitas discussões sobre se a Tesla era disruptiva. A sua estratégia de entrar no mercado a partir da sua parte mais exclusiva não se ajusta ao manual de inovação típica pela parte da procura. Pelo contrário, parecia que a inovação da Tesla era redesenhar o carro de maneira que este misturasse software e hardware.

Leia também: A vida de Elon Musk. O visionário que quer morar em Marte.

Enquanto os fabricantes tradicionais de carros, ao longo de décadas, agregaram software às suas linhas de produto existentes, os carros da Tesla foram desenhados a partir de uma lousa limpa. A sua arquitetura — ou seja, a forma como o carro é montado — era fundamentalmente nova. Até agora, está longe de ser claro se os fabricantes tradicionais podem replicar essa nova arquitetura sem desmantelarem as suas organizações — algo muito difícil para a maioria das empresas estabelecidas.

A Tesla está a concentrar-se na energia limpa. A empresa planeia usar os seus carros como meio de converter os lares à energia solar.

Mas, mesmo antes de termos tido uma oportunidade de o descobrir, o novo plano da Tesla envolve uma alteração substancial. A Tesla está a concentrar-se na energia limpa. A empresa planeia usar os seus carros como meio de converter os lares à energia solar. E está a concentrar-se em veículos autónomos, algo que ameaça mudar todo o modelo de negócio da indústria automóvel.

Um dos factos desconfortáveis acerca dos carros elétricos é que, embora sejam “limpos” no sentido de não emitirem poluição de escape, ainda têm uma pegada de carbono, pois a eletricidade tem de vir de algum lado. Como a maior parte da eletricidade não é gerada a partir de fontes renováveis, na prática a maior parte dos veículos elétricos ainda recorrem tecnicamente aos combustíveis fósseis.

O plano de Musk para tornar a Tesla verdadeiramente limpa implica conciliar a venda de veículos com a instalação de painéis em casas. Musk e a sua família já são proprietários da principal empresa na última categoria — a SolarCity — e Musk pretende fundir as empresas. Claramente, acredita que é possível mais inovação se os dois negócios forem combinados.

Como será o futuro integrado dos carros elétricos e da energia solar? Poderá haver complementaridades entre os dois, mas a sobreposição é incerta. (A energia solar pode fazer mais do que carregar carros; e nem todo o carregamento de carros ocorrerá em casa através da energia solar.)

Ter uma empresa integrada deixa Musk livre para afinar a abordagem de cada uma sem ter de pedir permissão a dois conselhos de administração. Por outras palavras, a sua abordagem à energia limpa exige uma agilização das linhas organizacionais.

O interesse de Musk em ajustar ambas as abordagens faz sentido dada a sua perspetiva de que o modelo de negócio da indústria automóvel está condenado. Ele vê os carros a tornarem-se autónomos, ameaçando a necessidade de possuir um.

Elon Musk, empresário. Fotografia: REUTERS/Mario Anzuoni

Elon Musk, empresário. Fotografia: REUTERS/Mario Anzuoni

Até agora, a Tesla tem operado no modelo de negócio convencional, vendendo às pessoas carros que elas possuem e controlam. Mas, no futuro que Musk prevê, os carros são algo a que as pessoas podem aceder, em vez de os possuir. É difícil saber quem é que vai acabar por ser o proprietário dos carros, mas poderão não ser os indivíduos que os conduzem.

Acrescentando a isso a probabilidade de uma transformação semelhante no trânsito de massas (a Tesla está a planear um autocarro autónomo) e no transporte de mercadorias (também há planos para um semi-camião autónomo), percebe-se que a Tesla precisa de manter as suas opções em aberto.

A razão habitual para não procurar uma abordagem integrada e combinar dois negócios mais ou menos relacionados é o facto de pretendermos concentrar-nos naquilo em que cada um deles é bom, sem distrações. Mas quando a arquitetura de toda uma indústria está em fluxo, esse foco torna-se um problema pois deixa as companhias cegas relativamente a questões que afetem ambos.

As empresas que têm prosperado em face de alterações intensas de arquitetura são aquelas que mantiveram todas as partes fechadas e sob controlo, em vez de as espalharem. O novo Master Plan da Tesla baseia-se nessa experiência. Pode apostar-se que Musk tem a história empresarial do seu lado.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Fotografia: Gonçalo Villaverde/Global Imagens

Lisboa já ultrapassou Barcelona no Alojamento Local

Mario Draghi, presidente do BCE. Fotografia: EPA/STEPHANIE LECOCQ

Sem a ajuda do BCE, juros da dívida portuguesa eram o dobro

Fotografia: Reuters

Norte e Centro com 65,5% das novas habitações

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
No futuro que Elon Musk prevê, as pessoas não terão um carro