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Quinta do Arneiro. O bio vai ter um (lógico) restaurante

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Oito anos depois, a Quinta do Arneiro vai ter mercearia, academia e até um restaurante para os visitantes poderem provar in loco a produção da quinta.

Na cabeça de Luísa Almeida, 54 anos, parecia tudo idealizado há anos. A parede verde de azulejos brilhantes, o forno em tijolo burro, a cozinha aberta para os visitantes, o espaço da entrada onde é possível, sempre que há sol, colocar mesas alinhadas para receber quem queira vir à quinta. Difícil, difícil não foi chegar às vésperas da inauguração do restaurante da Quinta do Arneiro, com abertura marcada para junho. Complicado mesmo foi esperar por 2016.

Luísa Almeida fundou o projeto da Quinta do Arneiro em 2007 e, dois anos depois, saíram da horta os primeiros produtos biológicos certificados. A quinta, só com hectares de pomar, tinha sido comprada pelo pai da dona nos anos 60. “Dou muito valor às pessoas que começaram nos anos 80, 10 ou 15 anos antes de nós, porque nos abriram o caminho. Tivemos imensa sorte, começámos em 2009 e é verdade que, em três anos, as coisas mudaram absurdamente. Lembro-me dos primeiros dois, três anos – até 2011 -, as pessoas olhavam para nós quase com ar de gozo. De repente parece que mudou tudo e que o biológico tornou-se uma moda. É sempre bom que as modas sejam modas saudáveis porque também acho que quem começa a consumir depois não volta atrás”, explica.

Luísa foi viver para a quinta, na freguesia da Azueira, em Mafra, no início dos anos 2000 mas, foi apenas com uma mudança de rumo que decidiu mudar de vida: largou a livraria que geria há 14 anos e começou a recapacitar o pomar e a pensar nas hortas do Arneiro. Para trás ficaram o curso inacabado de Direito (estudou até ao quarto ano), a livraria em Torres Vedras e a vida na cidade.

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“Eu tinha que decidir entre a livraria e a quinta e, com certeza, a quinta ia sempre prevalecer. A quinta já existia, tinha sido comprada pelo meu pai em 1967, era toda de pomares – 30 hectares ‘primorosamente bem cuidados’ – de pêra Rocha. Comecei por transformar um hectare em 2007 e, em 2009, saiu daqui o primeiro produto biológico certificado”. Aos poucos, Luísa foi aumentando a área de biológicos – que hoje corresponde a cerca de 11 hectares -, o que faz com que a quinta produza uma grande variedade de hortícolas sobretudo legumes, morangos e ovos bio.

“A quinta já existia, tinha sido comprada pelo meu pai em 1967, era toda de pomares – 30 hectares ‘primorosamente bem cuidados’ – de pêra Rocha.”, explica Luísa Almeida.

Em 2011, a Quinta do Arneiro passou a ter um total de 2500 metros quadrados de estufas, iniciou a reconversão do pomar, remodelou um armazém para o embalamento dos produtos e licenciou a cozinha para transformar os excedentes da horta. Em 2013, a área de estufas duplicou e foram criados mais seis dos atuais 21 postos de trabalho. Para escoar a produção, os produtos são depois vendidos em feiras biológicas e entregues em cabazes, ao domicílio, na zona da Grande Lisboa. A quinta entrega, em média, 1500 cabazes por mês e, em 2015, faturou 750 mil euros. “Estamos a fazer um projeto para ovos, já temos alguns mas queremos fazer mais ovos. E gostava muito de ter um pomar misto, de fruta variada”.

(Gustavo Bom / Global Imagens)

(Gustavo Bom / Global Imagens)

Só que a ideia do restaurante há muito que estava nos planos de Luísa. “Eu queria começar pelo fim, pelo restaurante. Mas tínhamos que começar primeiro pelo campo, a produzir melhor para depois poder ter o restaurante. Aguentei estes anos todos, o que para mim não é nada fácil. Aguentei, aguentei, até ao dia que eu acho que foi mesmo a altura certa porque já temos outra visibilidade, que vai dar-nos mais capacidade de ter um restaurante rentável. Ainda há muita gente que pergunta ‘como é que vai fazer aqui um restaurante?’ mas eu acredito mesmo que vai ter sucesso”, diz.

“Desde a primeira hora que eu queria muito um espaço onde as pessoas pudessem experimentar tudo o que produzimos e ver como os nossos produtos se podem transformar depois da colheita.

Talvez por isso a fundadora diga que o projeto do restaurante, com lugar para cerca de 40 pessoas, é o “culminar de tudo”. “Desde a primeira hora que eu queria muito um espaço onde as pessoas pudessem experimentar tudo o que produzimos e ver como os nossos produtos se podem transformar depois da colheita. Acho que temos sempre muita dificuldade em saber como comer legumes porque é sempre a mesma coisa, e não é. Há maneiras infinitas de fazê-los e é aí que queremos que as pessoas que venham cá percebam como se pode comer legumes de uma maneira divertida e saborosa”, explica, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Com uma cozinha aberta, que vai permitir ao cozinheiro conversar com os visitantes, o espaço do rés do chão e parte do primeiro andar vai ser um restaurante onde qualquer pessoa pode ir. Depois, o piso térreo tem ainda um espaço reservado a uma pequena mercearia onde os visitantes podem comprar os produtos biológicos da quinta. E, numa parte mais escondida do primeiro andar, a Quinta do Arneiro vai instalar a academia, para cursos que podem incluir temas como sustentabilidade, alimentação, agricultura e outros “direcionados para aquilo que nos preocupa”.

(Gustavo Bom / Global Imagens)

(Gustavo Bom / Global Imagens)

“Vai ser um restaurante muito diferente, um bocado a minha casa ou a casa de qualquer um de nós, onde vamos almoçar. Não vai haver ementa, as pessoas chegam e comem o que houver no dia. Vamos usar produtos da nossa horta. Vai haver carne 100% biológica mas não é preciso que haja sempre carne. A nossa base vão ser sempre os vegetais, as ervas e as flores e os cheiros e os sabores. A pessoa chega, come, passeia, pode ir ver a horta, levar para casa os produtos da quinta”.

“Não vai haver ementa, as pessoas chegam e comem o que houver no dia. Vamos usar produtos da nossa horta.”

O projeto da Quinta do Arneiro, cofinanciado pelo Proder a 40%, implicou um investimento de cerca de 300 mil euros. Mas a verdadeira dificuldade de Luísa nunca foi recolher o dinheiro necessário para levar a cabo os projetos com que sonhava. “Viajo muito, a minha cabeça viaja imenso, muito mais do que o corpo.” As primeiras pesquisas foram feitas na internet, às quais se seguiram contactos com projetos semelhantes, viagens e inspirações.

“A maior viagem foi e é mesmo na minha cabeça, veio de uma vez só. A realidade foi indo conforme foi possível. A realidade é mais difícil, a cabeça voa”, conta. Por isso, voltamos ao princípio. Difícil, difícil foi “esperar pelos momentos certos”. “Acho que há qualquer coisa aí que deixa que o dinheiro apareça quando está na altura certa, não sei explicar. Mas é custoso, não tem sido nada fácil. Não tinha capitais próprios para fazer arrancar isto como eu gostaria, foi muito esforçado. Mas compensa todos os dias pensar que estamos a conseguir”.

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