Dinheiro Vivo TV

Rendido a Portugal, Paddy Cosgrave quer cimeira até 2020

A carregar player...

Num passeio com o Dinheiro Vivo pelo Parque das Nações, o CEO da Web Summit mostrou-se confiante que o evento ficará mais três anos no país.

O tempo é sempre um bom desbloqueador de conversa, mas neste caso justificava-se. No final de outubro, estava um calor abrasador. “Na Irlanda também acontece, por vezes. Já cheguei a estar de T-shirt em janeiro”, conta Paddy Cosgrave, lançando o mote para a questão das alterações climáticas e lembrando que, neste ano, Al Gore, um dos principais defensores da causa ambiental à escala global, será um dos oradores a subir ao palco central da Web Summit como cabeça-de-cartaz.

A uma semana do arranque do evento, o CEO da cimeira recebeu o Dinheiro Vivo, no Parque das Nações, para um passeio informal. No local, Altice Arena e FIL esperam receber perto de 60 mil pessoas a partir de segunda-feira. “A Web Summit é como um festival enorme, focado em tecnologia, com CEO de grandes empresas e líderes políticos do mundo inteiro. Abrange 24 indústrias, desde o desporto à moda, portanto, toda a gente há de encontrar alguma coisa que lhe interesse,” explica Paddy Cosgrave, descrevendo o gigante acontecimento que, desde o ano passado, faz parar a cidade de Lisboa por alguns dias no início de novembro.

Desde 2010 que a cimeira tem tentado acompanhar e debater as principais tendências do mundo tecnológico. Em 2016, a Web Summit decidiu abandonar a sua cidade natal, Dublin, Irlanda, para se vir instalar na capital portuguesa, e Paddy garante que foi uma boa aposta. “Sem dúvida, foi um ótimo casamento. Encontrámos uma cidade incrível, um governo maravilhoso que tem estado a trabalhar connosco e todos os outros parceiros: a polícia, os transportes, o aeroporto, uma ótima comunidade. Tudo isso permitiu-nos criar aqui um evento de topo.”

Do outro lado da relação, também Portugal terá lucrado com a união. “Há duas estatísticas interessantes. Por um lado, as startups portuguesas presentes no evento duplicaram de 2016 para 2017. Por outro, os números da União Europeia mostram que o país, neste momento, é o número um para startups na Europa. Tem a mais alta taxa de novas startups a serem criadas. No futuro, os académicos vão estudar esta altura, analisar o espírito e a atmosfera, para perceber que este é um momento único para se estar em Portugal,” sublinha Paddy Cosgrave.

Com tudo a correr sobre rodas para os dois lados, a pergunta surge inevitável. Por quanto tempo durará este casamento? O acordo inicial entre as partes implicava três anos, com a possibilidade de extensão por mais dois. “Estou entusiasmado com o futuro. Espero que a Web Summit fique em Portugal.” Até 2020? “Sim, espero que sim.”

Contudo, há ressalvas. O CEO prefere concentrar-se num ano de cada vez. Avaliar para melhorar: “O meu foco neste momento é em relação ao que acontece na próxima semana. Ver como correm todas as novidades que estamos a introduzir. Lógico que só depois dessa experiência será possível avaliar se é necessário mudar algo. Acredito que o aeroporto será melhor, os transportes também. Já eram muito bons em 2016 e serão ainda melhores neste ano. Só depois desta edição teremos capacidade para refletir melhor no que o futuro nos reserva.”

Desde que se começou a discutir a possibilidade de o evento saltar de Dublin para Lisboa, corria ainda o ano de 2015, que a organização já teve vários interlocutores da parte do governo português. Começaram por falar com o gabinete de Paulo Portas, do governo anterior. Na equipa de António Costa, a pasta foi depois assumida por Manuel Caldeira Cabral, tendo a questão das startups ficado na mão de João Vasconcelos, substituído neste verão por Ana Lehmann. “Não notámos diferença alguma nas negociações connosco, o que não quer dizer que não existam diferenças. Claro que existem, sobretudo ao nível de políticas domésticas. Mas do nosso ponto de vista, não houve qualquer mudança. Mantiveram sempre a consistência. Há uma relação de trabalho muito positiva,” sublinha Paddy Cosgrave.

O entrosamento das equipas salta dos bastidores para os palcos. São vários os representantes políticos portugueses que vão falar para o público. Mas Paddy Cosgrave não tem dúvidas. As verdadeiras estrelas do evento são as startups. “Imaginemos que a Web Summit é o sistema solar. O Sol são as startups. Tudo gira à volta delas. Ninguém sabe ao certo o que é que elas fazem, mas todos concordam em que algumas serão enormes no futuro, por isso são elas as centralizadoras de toda a energia do evento. Mas tal como no sistema solar, lógico que depois há planetas em órbita maiores do que outros: os investidores, os oradores, os meios de comunicação.”

Passávamos agora pelo lado sul do Altice Arena. O CEO da cimeira deteve-se junto à linha de bandeiras de vários países, que ladeia o pavilhão. “É engraçado que acho que cada uma destas bandeiras tem participantes na Web Summit. A Ucrânia tem cerca de 800, parece-me. São cerca de 170 ou 180 nacionalidades. Inclui gente do Haiti, da Jamaica, das Fiji. É impressionante.” Só que, com tanta nacionalidades, oradores, participantes e debates a acontecer de dia 6 a dia 9, é fácil ficar perdido, ou pelo menos assoberbado, com o excesso de informação. Paddy Cosgrave tem a solução: “A nossa aplicação é ótima para isso. Dá para escolher os debates a que se quer assistir e mandar mensagens privadas às pessoas que nos interessam. E o melhor é que temos um algoritmo que, a partir das nossas escolhas, nos mostra sugestões personalizadas. É uma excelente ferramenta de preparação para os próximos dias,” assegura.

Com o passeio pelo Parque das Nações quase a chegar ao fim, sobrou tempo para uma última pergunta. É que Paddy Cosgrave não organiza só a Web Summit, em Lisboa, lidera ainda equipas que preparam outros eventos pelo mundo inteiro: o Collision, em Nova Orleães, o RISE, em Hong Kong, a Money Conf, em Dublin, e a Surge, em Bangalore. Mas o CEO não tem dúvidas e considera–se uma espécie de pai com um filho favorito. “A Web Summit foi o meu primeiro bebé. É o evento maior, o mais especial e também o meu favorito,” assume.

“Maior parte das startups não vai vingar e todos lidam bem com isso”

As estatísticas mostram que a taxa de mortalidade das startups é muito alta. Participar em eventos como a Web Summit pode ajudar uma empresa tecnológica a sobreviver?
A nossa amostra de startups é muito parcial. Mas de cem mil candidatam-se para fazer parte deste grupo restrito de dois mil que têm a oportunidade de expor durante a cimeira. As que escolhemos, por norma, já são as que fazem parte destes 2% que se diz que sobrevivem. São as que já estão a combater as probabilidades.

Fazem um acompanhamento posterior do caminho delas?
Fazemos. Mas se olharmos para as estatísticas, só uma em cada cem startups que se candidata a um fundo de investimento o consegue. E dessas, nove de dez ou de 20 falham. Por isso, as estatísticas são terríveis. Costumo chamar a isto a lotaria das startups.

Mas não será isso um problema?
Quem está na indústria tem muita noção deste fenómeno. Sabem que a maior parte das startups não vai vingar e todos lidam bem com isso, exceto os que estão fora do mundo tecnológico. O que seria se apenas um de cada cem dos restaurantes que abrem em Lisboa sobrevivesse mais de dois anos? É uma loucura, se pensarmos dessa forma. Calculo que metade se aguenta. Por isso, é verdade, há uma mortalidade muito superior neste mundo tecnológico quando comparamos com o setor tradicional.

Portanto, será melhor apostar no setor tradicional?
Não, de todo. Porque o setor tecnológico é também muito mais desafiante. Temos de nos lembrar de que as startups que sobrevivem têm um potencial de crescimento muito maior do que a maioria das empresas tradicionais e de uma forma bastante mais rápida.

Sunset Summit. Conquistá-los pelo estomâgo

Quando a Web Summit ainda estava em Dublin, a pausa para almoço tinha sabor irlandês. As refeições eram servidas por produtores locais, numa tenda separada, onde decorria a Food Summit. “Por cá, temos um conceito diferente. Aqui ao lado, no Pavilhão de Portugal, a partir das quatro da tarde há a Sunset Summit. Os participantes vão poder provar pequenas amostras da gastronomia portuguesa. Oradores, jornalistas e sobretudo os que vêm de fora vão poder saborear o melhor do país,” indica Paddy Cosgrave. Ainda assim, uma iniciativa do género da de Dublin não está fora dos planos. “Sim, pensámos nisso. Estamos a trabalhar com o governo português e quem sabe, em 2018, tenhamos uma Food Summit dentro do nosso próprio recinto,” assume.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Foto: Leonel de Castro/Global Imagens

Famílias com 12 meses para pagarem rendas do estado de emergência

(João Silva/ Global Imagens)

Papel higiénico, conservas:em 2 semanas, portugueses gastam 585 milhões no super

coronavírus em Portugal (covid-19) corona vírus

140 mortos e 6408 casos confirmados de covid-19 em Portugal

Rendido a Portugal, Paddy Cosgrave quer cimeira até 2020