RIPE. Quando são os clientes que escolhem o que vende a alta moda

Com José Neves como sócio e investidor, quer revolucionar segmento da alta moda e dar-lhe nova categoria: made to order, à medida de cada cliente.

O email chegou à caixa de correio de Gonçalo Cruz, 33 anos, cofundador e CEO da Ripe Productions, pouco tempo depois de publicada a notícia. O engenheiro industrial leu duas vezes o remetente, percorreu o corpo de email com atenção e focou na assinatura. Ian Rogers, Chief Digital Officer da Louis Vuitton. Isso. O email convidava Gonçalo a visitar um showcase da marca internacional durante um próximo mês, uma forma de Ian e o português poderem conhecer-se e de Gonçalo explicar melhor a génese e a visão da Ripe, empresa fundada em Portugal no início de 2015 e que tem como sócios, além de Gonçalo, Ben Deniri e José Neves, fundador da Farfetch.

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“A minha vida? É um circo”, brinca Gonçalo. Nascido em Coimbra, estudou no Porto até antes do secundário, quando a família se mudou para os Açores. E, talvez graças a isso, tenha optado por escolher outra carreira. É que, em vez de estudar Medicina - era “aluno de cincos” antes da mudança para o arquipélago - decidiu-se pelo curso de engenharia e gestão industrial. “Sempre fui muito pouco específico naquilo que gostava e sempre tive um lado muito criativo. Fui federado em cinco desportos e sempre fiz muita coisa, tanto no desporto como em outras áreas. Nunca fui muito focado, mas fui muito bom aluno durante algum tempo. Quando voltei dos Açores vinha sem a pedalada de uma cidade grande. Era bom aluno mas não de Medicina. Foi o que me salvou”, conta, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Depois da licenciatura, o primeiro trabalho que teve foi na FedEx, no aeroporto do Porto. Passou pela Accenture e foi enquanto trabalhava na consultora que criou a sua primeira startup, a Jump Willy. “Era um estúdio audiovisual que criámos um nicho, uma super pós-produtora a partir de Portugal.” Trabalharam com marcas como a BMW, a Stella Artois e a Alibaba.

Maia, 24/ 05/ 2016 - Gonçalo Cruz , co-fundador da Ripe productions, empresa que produz e comercializa um sistema 360 graus para empresas de moda. ( Pedro Granadeiro / Global Imagens ) (Pedro Granadeiro/Global Imagens)

“Com dois amigos, um artista 3D e um compositor e comigo como diretor, criámos um estúdio criativo. Eu fazia o contraponto com os dois criativos, um chief visionary officer. Fazia business devellopment, contratava pessoas, geria equipas”, recorda. Em 2012, a empresa ganhou um novo cliente e começou a produzir uma série de animação de várias dezenas de episódios. “Investimos tudo o que tínhamos mas não recebemos nada do cliente. Ficámos sem dinheiro, tivemos que tomar uma decisão drástica. Dispensámos a equipa, ficámos quatro ou cinco pessoas. Eu ia ser pai, tinha comprado casa, tive de sair”. Na mesma altura, surgiu o convite para lançar a operação da Groupon em Portugal. “Passei de um negócio com problemas para um negócio explosivo. Sabíamos todos os dias quanto vendíamos”, conta Gonçalo. Pouco tempo depois, foi convidado para a equipa ibérica mas, prestes a ser pai pela segunda vez, optou por ficar em Portugal e procurar uma alternativa mais perto de casa. “Era mais turista do que pai”, assume.

Recusou mais três propostas que implicavam a mudança para outros países para poder estabelecer-se no Porto. Nessa altura, teve dois contactos interessantes. O primeiro, de António Murta, fez com que aceitasse ser responsável pelo lançamento do projeto Eureca.com, da Vortal (um projeto em que Murta tinha investido). O segundo surgiu no final de 2014, depois de um encontro com José Neves, fundador da empresa unicórnio Farfetch. “Falámos sobre a Swear, a primeira marca lançada por José Neves. Ele queria repensar e reposicionar o negócio antigo. O José achava que havia matéria para ser trabalhada a partir de um ângulo mais tecnológico e, de alguma maneira, relançar a marca.” Com a equipa da empresa, Gonçalo levou a cabo a criação de uma nova categoria, a My Swear, que passou a permitir a customização das sapatilhas da marca.

Muito cedo, logo depois de desenvolvermos o produto piloto, comecei a discutir com o José a possibilidade de começar a vender o conceito que tínhamos usado na Swear internacionalmente. A ideia era adaptar a ideia que tínhamos posto em prática na empresa e apresentá-la ao mercado”, conta. Explica Gonçalo que foi graças à visão que José Neves tem da indústria que a ideia progrediu. A Ripe Productions nasceu com Gonçalo, José e um terceiro sócio, Ben Demiri. E com um investimento de um milhão de dólares. O trabalho começou há mais ou menos um ano mas, a um ritmo muito acelerado. “De repente tínhamos os olhos virados para nós e eu estava a reunir-me com alguns dos COO mais conhecidos do mundo na indústria da alta moda. A discutir e a trabalhar com eles na inovação do portfólio das marcas”.

A ideia da Ripe surge a partir de um simples conceito: o mundo da moda está quebrado. “Os gurus da moda - o próprio Karl Lagarfeld - admitem. Não faz sentido nos anos 2000 os ciclos continuarem a ser os mesmos. Desfiles à escala mundial, cada coleção produz milhões e milhões de vestidos que nunca chegam a sair das lojas. Essas peças são finalmente vendidas a preços mais baixos, as marcas perdem margens, é lixo. O nível de desgaste com estes ciclos e recursos não aproveitados é enorme. E, quanto mais alta a gama, menos sentido faz”, esclarece Gonçalo. É isso que a Ripe pretende mudar: a maneira como uma parte da moda e, mais concretamente da alta moda, é feita. “Passa a ser o cliente a fazer o pedido e não a marca. Em vez de as marcas criarem stock, criamos uma nova categoria a que chamámos made to order. Tem a ver com as peças passíveis de serem produzidas mas que não estão em stock, apenas são processadas quando o cliente pede”, detalha Gonçalo. Só que a ideia, além de simplificar o processo da acessibilidade das marcas a produtos de série limitada ou customizados, quer mudar o mundo.

Acreditamos que vamos revolucionar parte da indústria e que, até 2018, o segmento made to order deverá representar até 20% das vendas online das marcas. Podem ser artigos customizados, de edição limitada, com o monograma ou o brazão dos clientes. Não é colocado em stock mas passível de ser feito”, detalha. Uma das primeiras marcas a disponibilizar um serviço semelhante foi a Nike, com a linha Nike ID, que já representa um terço das vendas online da marca norte-americana.

Gonçalo Cruz e parte da equipa da Ripe, que conta com mais de 30 pessoas. (Pedro Granadeiro/Global Imagens) Gonçalo Cruz e parte da equipa da Ripe, que conta com mais de 30 pessoas.
(Pedro Granadeiro/Global Imagens)

O sistema da Ripe, que dispensa quaisquer mudanças logísticas das marcas, constitui-se como uma oferta não disruptiva ao nível de produção, mas inovadora do ponto de vista digital e funciona numa lógica 360º. Ou seja, os contratos estabelecidos entre a Ripe Productions e as marcas internacionais podem ir desde a simples adaptação do software aos fornecedores dessas marcas até à gestão de stocks e de clientes, por parte da empresa portuguesa. A Ripe cobra um set up fee, que é uma “diminuição do risco e, ao mesmo tempo, uma responsabilização que obriga a que o set up seja bem instalado”, e um revenue share por cada transação. Nos casos mais complexos, nos quais a Ripe gere desde a venda online até ao fornecimento das fábricas, os clientes recebem "uma espécie de royalty, uma licença pelo uso da tecnologia e criação desta nova categoria".

A primeira grande marca parceira da Ripe será anunciada a 1 de julho e os planos de expansão passam pelo anúncio de uma grande marca a cada três meses. Foi esta parte a visão distinguida pelo British Fashion Council na semana passada, que entregou à Ripe o prémio de The big idea, qualquer coisa como “a ideia mais prometedora”. Ao ponto de, por exemplo, Ian Rogers, Chief Digital Officer da Louis Vuitton, ter enviado um email a Gonçalo a propósito da tecnologia. “É incrível não é?”, pergunta Gonçalo. No mínimo, sim.

° Ripe Productions ° Nasceu no início de 2015 ° Tem três sócios: Gonçalo Cruz, José Neves e Ben Demiri ° Produto piloto foi testado com a linha My Swear, de customização de sapatilhas da marca Swear ° Parceria com marcas é 360º e pode incluir desde a plataforma de costumização de produtos ao contacto com as fábricas. www.ripe.tech

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