Saída pré-exit. Como um fazedor abandona o dia-a dia da startup que criou

Duas semanas depois do anúncio de despedida, Cristina Fonseca, cofundadora da Talkdesk, recorda os primeiros tempos da startup

A notícia apanhou a equipa de surpresa. No dia em que Cristina Fonseca, cofundadora da Talkdesk, comunicou aos colegas que ia “abandonar o dia-a-dia” da empresa pôs a sua agenda à disposição. “Durante um dia inteiro recebi, um a um, todos os que quiseram falar comigo.”

Houve de tudo: confissões de admiração, referências de inspiração, saudades antecipadas, lágrimas. “Eu estava muito lá, estava sempre lá, presente”, conta Cristina, 28 anos, ao Dinheiro Vivo.

A decisão pode parecer estranha. A empresa arrancou 2016 com grandes perspetivas de crescimento: no final de 2015, somava mais de 22 milhões de euros de financiamento, dos quais 19,3 milhões junto de investidores internacionais, como as sociedades de capital de risco norte-americanas DFJ (que já investiu no Twitter e no ChartBeat), a Storm Ventures e a Salesforce Ventures. Entre os clientes, de mais de 50 países, estão nomes como a Dropbox e a Box. E nos planos de crescimento para este ano a aposta no continente europeu e a implementação de inovações como sms e vídeo na solução oferecida aos clientes. Prometedor, no mínimo.

Não há acasos

Quando Cristina decidiu no final do ensino secundário escolher o curso de Engenharia de Telecomunicações e Informática, uma das novidades mais recentes no Instituto Superior Técnico, ninguém percebeu a ideia.

Cristina Fonseca, co-fundadora da Talkdesk. Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens Cristina Fonseca, co-fundadora da Talkdesk.
Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens

“Vivia numa aldeia pequena perto de Fátima. Entrei num curso de média 12 com média de 18. Ninguém achava aquilo normal. Escolhi um curso muito recente pela curiosidade de futuro associada à área. O meu irmão estava a fazer um curso de técnico de informática, às vezes abria os livros dele e via que havia ali muito potencial.” Boa aluna, na altura os pais apenas queriam que prosseguisse os estudos.

“A única coisa que os meus pais me venderam era que precisava de estudar e ter um curso. Eles sabiam que era um fator de distinção”, explicou. No entanto, Cristina considera que pertence a uma geração em que o canudo não é a coisa mais importante de um currículo. “É preciso ter criatividade, soft skills, um genuíno interesse por aquilo que escolhemos e sobretudo um genuíno interesse em sermos bons naquilo que fazemos.”

Talvez também por isso insista em dizer que o negócio surgiu por acaso. Ou nem tanto. Cristina Fonseca cofundou a Talkdesk em 2011, com o sócio Tiago Paiva. Recém-saídos da faculdade, decidiram começar por trabalhar como freelancers em vários projetos porque queriam pensar e criar a própria startup.

“Tivemos propostas que decidimos não aceitar. Enquanto isso, tivemos três ou quatro ideias que não foram bem-sucedidas. Quando chegámos à ideia da Talkdesk percebemos que havia uma oportunidade”, conta. Desses primeiros tempos, Cristina recorda a primeira visita a Silicon Valley, ao lado do engenheiro informático, para falar sobre o projeto da empresa: inscreveram a ideia de negócio num concurso de empreendedorismo para ganhar um computador. Mas a ideia acabou por vencer o primeiro prémio, uma viagem de ida e volta aos Estados Unidos para integrarem, durante seis meses, o acelerador de startups norte-americano 500 Startups.

“Estávamos completamente focados em conseguir clientes: pensávamos que só assim conseguiríamos avançar com a ideia. Mas tínhamos enorme pressão para encontrar investidores. Aquilo para nós era esquisito, mas lá nos rendemos”, diz. Durante três meses, aproveitaram para desenvolver a ideia de negócio, fazer contactos com a rede de mentores disponível e olhar em volta para tudo o que acontecia num local privilegiado. Afinal, estavam em Silicon Valley. Regressaram em janeiro de 2012 com 450 mil dólares em investimento e começaram a desenvolver o negócio.

“Poderia dizer-se que a Talkdesk surgiu quase por brincadeira. Terminámos a formação superior em 2009-10 e decidimos dedicar-nos ao desenvolvimento de aplicações online com a convicção de que podíamos mudar o mundo”, explicaram Cristina e Tiago, numa das muitas entrevistas dadas desde que fundaram a startup, com escritórios em Lisboa e em Silicon Valley, nos EUA, que continua a ser o mercado natural da empresa .

Os sócios da empresa foram dois dos nomes portugueses a integrar a lista 30 Under 30 da Forbes, que distingue jovens que têm vindo a destacar-se nas mais diversas áreas, no mundo inteiro. E o balanço do processo é reconhecido e reconhecidamente positivo. “A viagem na Talkdesk foi incrível. Construímos uma empresa do zero até aos 150 empregados, conseguimos angariar mais de 24 milhões de dólares, ganhar clientes que nos orgulham todos os dias e desafios que nos fizeram crescer tremendamente. Também me permitiu conhecer muita gente interessante e fazer amigos incríveis”, escreveu Cristina no post de despedida publicado no Medium no dia em que anunciou a sua saída, adiantando que sempre investiu toda a energia e inspiração na construção da Talkdesk.

Cristina está grata por tudo o que aprendeu. Mas quer mais. “Cinco anos depois, estou a sair oficialmente das operações diárias da empresa”, adiantou no post de despedida.

“Quero tirar algum tempo para poder dedicar-me às coisas que deixei antes de começar esta viagem: gostava de escrever mais frequentemente e ter tempo para ler. Sinto falta de umas boas férias e quero passar mais tempo com os amigos e família. Quero aprender mais, estudar e trabalhar com pessoas diferentes. Quero viajar pelo mundo e trabalhar no estrangeiro em diferentes projetos”, assinala.

Ao Dinheiro Vivo, a fazedora acrescenta que, ainda que na Talkdesk houvesse muito espaço para crescer, talvez tivesse de o fazer em direção a uma posição que não coincide com os seus objetivos pessoais. “Agora é tempo para começar de novo”, diz Cristina Fonseca, sem adiantar grandes planos.

Da Talkdesk ficam quase duas mãos-cheias de funções, inauguradas a cada seis meses. Código, treino, design, suporte de cliente, costumer success, métricas de crescimento, budgets, contratações. E saudades do início. “Sinto muito a falta do early stage. Da sensação do ‘bora lá fazer isto funcionar”, descreve.

Nos planos, a preparação para um curso nos Estados Unidos e um bilhete de avião que deverá garantir passagem pela casa de alguns amigos na Europa, para aterrar, sem data de regresso marcada, no Japão.

Ao Dinheiro Vivo, Cristina Fonseca adianta que continuará a ser sócia da empresa e a apoiar todas as iniciativas e atividades, deixando apenas de estar presente no dia-a-dia da Talkdesk. A fazedora garante que por enquanto não tem planos para um próximo projeto profissional. A saída da empresa, quase tão inesperada como a escolha do curso, será uma nova oportunidade de começar tudo de novo. Ou para bem continuar. Mesmo que agora ninguém perceba.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de