Simon Schaefer: “Escassez de talentos significa que estás a fazer algo correto”

Líder da Startup Portugal, um empreendedor alemão de 42 anos que desde 2016 fez do nosso país a sua casa, diz que o investimento per capita em startups em Portugal aproxima-se do da Alemanha e de França.

- Como vê o ecossistema de empreendedorismo em Portugal?

Tinha muita ambição quando comecei, em 2016, e continuo a ter. Há muito mais que pode ser feito.

- Como?

Há muito, em relação à internacionalização, que pode ser feito. Estamos agora a implementar as bases em áreas como financiamento de uma empresa enquanto estrangeira; e a colocar isso em inglês. Vai atrair mais pessoas para trabalharem a partir de Portugal. Há muitos anos que este tem sido o meu pitch: se olharmos para o mundo de hoje e para as startups, os EUA têm um problema com Trump e com custos. O Reino Unido costumava ser o principal local com enquadramento legal para as startups, mas isso está comprometido, porque há o problema do Brexit.

- O Reino Unido continua a ser escolhido para fundar empresas...

Claro, o que mostra a atratividade que tem. Mas, para mim, a atratividade está em outros locais. Os países do Sul da Europa - antes chamados de PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) - têm muito mais qualidade de vida, combinada com preços mais acessíveis e disponibilidade de talento. Os nórdicos não têm isso, nem a Alemanha. Como muitas vezes acontece, as crises são uma oportunidade. Portugal geriu isso muito bem. Quando digo que há muitas coisas que podem ser feitas é porque, se olharmos ao nível europeu para o mercado único digital, Portugal é um país pequeno com um pequeno mercado doméstico. Cada empresa em Portugal tem de internacionalizar-se muito cedo. Há muita atenção para o sucesso de Portugal e gostava que isso fosse mais para o campo internacional e lidássemos mais com o que pode ser legislação à volta das startups na União Europeia.

- Muitas empresas estrangeiras têm vindo para cá. Vamos ter um problema ao nível do talento?

Sim.

- Como o resolvemos?

Com o programa de visas e a diáspora, trazendo de volta quem deixou o país. Há estratégias a serem implementadas. Há ainda um problema com os visa, no que respeita a trazer pessoas da Índia. Mas o governo está a tentar resolver. A questão do talento é uma das dores do crescimento. Quando tens escassez, significa que estás a fazer algo correto e é um indicador positivo.

- Ainda temos muito medo do fracasso?

Sim, é terrível.

- Como é que podemos melhorar?

Há muito tempo que faço lobby ao nível da Comissão Europeia - e talvez com esta nova Comissão haja uma hipótese - que é para que haja um calendário no qual não haja implicações no caso de fracasso.

- Como?

Tem a ver com a definição de startup.

- Porque um pouco por toda a Europa é diferente.

Sim.

- Que expectativa tem para 2020?

Crescimento. Se compararmos o investimento per capita em startups - pegamos em todos os negócios anunciados, dividimos pela população e tens um número em euros - verificamos que Portugal está mais próximo da Alemanha e de França do que de Espanha, Grécia e Itália. Há quem diga que não há dinheiro suficiente para as startups; acho que não há bons negócios suficientes. Esse é o problema. Há dinheiro suficiente disponível.

- Em Portugal?

Não. Temos de olhar por fases. Se olharmos para nível de business angels não há dinheiro suficiente, não há fundadores suficientes a financiarem outros fundadores. Na fase de seed é medíocre e pré-série A há algum; após série A olha-se sempre para uma ronda internacional. E isto está bem. Mas quando o capital de risco avança, após uma série A, é quando há dinheiro disponível suficiente a nível mundial. Não tenho a certeza que não haja dinheiro suficiente, acho mais provável que não haja negócios, pessoas e startups suficientes.

- Como é que se faz crescer os números cá?

Fazendo o que estamos a fazer. Desenhando também legislação inovadora que lide com as startups.

Há algumas coisas das quais a equipa da Startup Portugal pode estar orgulhosa. Todos os anos conseguimos que diferentes agências se esforcem em conjunto para a Web Summit. O 200M é um esquema em que acredito muito e a União Europeia está a observá-lo de perto porque estão a tentar identificar métodos de financiamento semelhantes. Não o inventámos mas vimos o que funciona em outros países parecidos com Portugal - para isso observamos Israel. Não é nada novo mas colocamos uma abordagem startup, analisamos o que existia, sugerimos e a sugestão foi aceite e implementada.

- Quais são os principais desafios para a Startup Portugal?

Recursos. Uma das coisas que são muito caras, mas que funciona muito bem, é ser capaz de convidar empresas para ir ao estrangeiro e que provavelmente não iriam sozinhas.

- Disse que podia não estar aqui nos próximos quatro anos. Para onde vai?

Disse isso sobretudo porque já estou ao comando há muito tempo e enquanto estrangeiro estou muito honrado. Acho que vai chegar uma altura em que o lugar deve ser ocupado por um português. Mas ao mesmo tempo, devo ao João , continuar enquanto quiserem e é o que vou fazer. Se formos falar sobre o que faço na vida, que não é a Startup Portugal, sim, estamos a olhar para outras cidades para construir a Factory. Fomos convidados para ajudar a desenhar legislação em outros países. Olhamos para Grécia, Espanha e Itália. Estou focado a 100% no sul da Europa porque acredito que é aqui que podemos ter o maior impacto.

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