Fazedores

Simon Schaefer: “Escassez de talentos significa que estás a fazer algo correto”

Lisboa, 19/11/2019 - Simon Schaefer, Startup Portugal
(Leonardo Negrão / Global Imagens)
Lisboa, 19/11/2019 - Simon Schaefer, Startup Portugal (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Líder da Startup Portugal, um empreendedor alemão de 42 anos que desde 2016 fez do nosso país a sua casa, diz que o investimento per capita em startups em Portugal aproxima-se do da Alemanha e de França.

– Como vê o ecossistema de empreendedorismo em Portugal?
Tinha muita ambição quando comecei, em 2016, e continuo a ter. Há muito mais que pode ser feito.

– Como?
Há muito, em relação à internacionalização, que pode ser feito. Estamos agora a implementar as bases em áreas como financiamento de uma empresa enquanto estrangeira; e a colocar isso em inglês. Vai atrair mais pessoas para trabalharem a partir de Portugal. Há muitos anos que este tem sido o meu pitch: se olharmos para o mundo de hoje e para as startups, os EUA têm um problema com Trump e com custos. O Reino Unido costumava ser o principal local com enquadramento legal para as startups, mas isso está comprometido, porque há o problema do Brexit.

– O Reino Unido continua a ser escolhido para fundar empresas…
Claro, o que mostra a atratividade que tem. Mas, para mim, a atratividade está em outros locais. Os países do Sul da Europa – antes chamados de PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) – têm muito mais qualidade de vida, combinada com preços mais acessíveis e disponibilidade de talento. Os nórdicos não têm isso, nem a Alemanha. Como muitas vezes acontece, as crises são uma oportunidade. Portugal geriu isso muito bem. Quando digo que há muitas coisas que podem ser feitas é porque, se olharmos ao nível europeu para o mercado único digital, Portugal é um país pequeno com um pequeno mercado doméstico. Cada empresa em Portugal tem de internacionalizar-se muito cedo. Há muita atenção para o sucesso de Portugal e gostava que isso fosse mais para o campo internacional e lidássemos mais com o que pode ser legislação à volta das startups na União Europeia.

– Muitas empresas estrangeiras têm vindo para cá. Vamos ter um problema ao nível do talento?
Sim.

– Como o resolvemos?
Com o programa de visas e a diáspora, trazendo de volta quem deixou o país. Há estratégias a serem implementadas. Há ainda um problema com os visa, no que respeita a trazer pessoas da Índia. Mas o governo está a tentar resolver. A questão do talento é uma das dores do crescimento. Quando tens escassez, significa que estás a fazer algo correto e é um indicador positivo.

  • – O número crescente de empresas estrangeiras a entrar em Portugal está a matar o ecossistema de startups?
    Não, está a melhorá-lo. Os últimos três anos são uma fração do tempo que vai levar a um ecossistema, de qualquer forma ou dimensão, a ser autossustentável. Nem Berlim nem Londres estão nesse nível ainda. Provavelmente, apenas Silicon Valley, talvez Israel. É preciso uma visão de longo prazo.
  • – Quando podemos ter mais unicórnios?
  • O capital de risco tem de se reinventar um pouco. Precisamos de ver um empresa que gere dez milhões em lucros durante cinco anos, e que vá aumentando os lucros todos os anos, e que seja um sucesso para a economia. Nós não estamos a olhar apenas para a próxima Google ou Facebook. Estamos também a tentar inovar a indústria já estabelecida: têxteis, turismo, alimentação. Há muitas coisas que podem ser feitas e que não estão concretamente focadas no crescimento que se espera de um unicórnio. Ainda assim, temos algum desse sucesso, o que é magnífico.

– Ainda temos muito medo do fracasso?
Sim, é terrível.

– Como é que podemos melhorar?
Há muito tempo que faço lobby ao nível da Comissão Europeia – e talvez com esta nova Comissão haja uma hipótese – que é para que haja um calendário no qual não haja implicações no caso de fracasso.

– Como?
Tem a ver com a definição de startup.

– Porque um pouco por toda a Europa é diferente.
Sim.

– Que expectativa tem para 2020?
Crescimento. Se compararmos o investimento per capita em startups – pegamos em todos os negócios anunciados, dividimos pela população e tens um número em euros – verificamos que Portugal está mais próximo da Alemanha e de França do que de Espanha, Grécia e Itália. Há quem diga que não há dinheiro suficiente para as startups; acho que não há bons negócios suficientes. Esse é o problema. Há dinheiro suficiente disponível.

– Em Portugal?
Não. Temos de olhar por fases. Se olharmos para nível de business angels não há dinheiro suficiente, não há fundadores suficientes a financiarem outros fundadores. Na fase de seed é medíocre e pré-série A há algum; após série A olha-se sempre para uma ronda internacional. E isto está bem. Mas quando o capital de risco avança, após uma série A, é quando há dinheiro disponível suficiente a nível mundial. Não tenho a certeza que não haja dinheiro suficiente, acho mais provável que não haja negócios, pessoas e startups suficientes.

– Como é que se faz crescer os números cá?
Fazendo o que estamos a fazer. Desenhando também legislação inovadora que lide com as startups.
Há algumas coisas das quais a equipa da Startup Portugal pode estar orgulhosa. Todos os anos conseguimos que diferentes agências se esforcem em conjunto para a Web Summit. O 200M é um esquema em que acredito muito e a União Europeia está a observá-lo de perto porque estão a tentar identificar métodos de financiamento semelhantes. Não o inventámos mas vimos o que funciona em outros países parecidos com Portugal – para isso observamos Israel. Não é nada novo mas colocamos uma abordagem startup, analisamos o que existia, sugerimos e a sugestão foi aceite e implementada.

– Quais são os principais desafios para a Startup Portugal?
Recursos. Uma das coisas que são muito caras, mas que funciona muito bem, é ser capaz de convidar empresas para ir ao estrangeiro e que provavelmente não iriam sozinhas.

– Disse que podia não estar aqui nos próximos quatro anos. Para onde vai?
Disse isso sobretudo porque já estou ao comando há muito tempo e enquanto estrangeiro estou muito honrado. Acho que vai chegar uma altura em que o lugar deve ser ocupado por um português. Mas ao mesmo tempo, devo ao João [Vasconcelos], continuar enquanto quiserem e é o que vou fazer. Se formos falar sobre o que faço na vida, que não é a Startup Portugal, sim, estamos a olhar para outras cidades para construir a Factory. Fomos convidados para ajudar a desenhar legislação em outros países. Olhamos para Grécia, Espanha e Itália. Estou focado a 100% no sul da Europa porque acredito que é aqui que podemos ter o maior impacto.

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