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Skizo. Passo a passo estas sapatilhas deixam os oceanos mais limpos

Andreia Coutinho e André Facote são os fundadores da Skizo, sapatilhas feitas com plástico do mar.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)
Andreia Coutinho e André Facote são os fundadores da Skizo, sapatilhas feitas com plástico do mar. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Por cada par de sapatilhas vendido, a Skizo retira do oceano o equivalente a 18 garrafas de plástico.

Web Summit, Netflix e uma ida à praia. Foram estes os três ingredientes que, cozinhados, fizeram nascer a Skizo, a startup que anda nas bocas do mundo e que recebe diariamente contactos de interessados a querer conhecer a equipa. O casal Andreia Coutinho e André Facote tem uma proposta tão arrojada como necessária para a boa saúde do planeta: retirar o plástico do mar e transformá-lo em tecido para peças de moda. Para já, estão a começar com sapatilhas.

“Nós sempre nos preocupámos com questões ambientais. Reciclávamos, apanhávamos o nosso lixo, etc. Mas quando fomos pais percebemos que isso já não era suficiente. No verão passado, fomos um dia à praia e apanhámos o nosso filho com uma peça de plástico na boca que alguém tinha deitado fora”, conta a fazedora. Nesse mesmo dia entrou a Netflix na equação. “À noite o André calhou a ver o documentário Plastic Ocean e aquilo deixou-o mesmo impressionado. A este ritmo, em 2050, vamos ter mais plástico no mar do que peixes. É assustador. E em 2050 o meu filho vai ter a minha idade. Ou seja, é já ali.”

Negócios e ideias inovadoras são uma realidade que não é estranha ao casal. Os dois tinham, nessa altura, uma plataforma de roupa de luxo a preços mais acessíveis. “Eu sempre disse que acabava com aquilo no dia em que desse mais prejuízo do que lucro. Aconteceu nessa altura e foi isso que fiz”, recorda André. Só que o projeto já se tinha inscrito para a Web Summit que ia acontecer daí a uns meses. “Falei com a organização e fui sincero com eles. Responderam-me que não fazia mal, para tentar – nesse curto espaço de tempo – arranjar outra ideia para apresentar.”

Bastou um brainstorming de alguns dias, sob influência do choque da realidade do plástico, para surgir a ideia da Skizo, que começou por se chamar iRecycle. “Mudámos o nome entretanto por questões de registo de marca. Ainda estamos nesse processo de transição”, explica André Facote.

Uns quantos telefonemas chegaram para o casal perceber que era possível passar da ideia à prática. E estava pronto o projeto a apresentar na cimeira de Paddy Cosgrave. “Eu costumo dizer que fomos à Web Summit vender ar. Levávamos a ideia, alguns acordos fechados, um power point e mais nada”. Se tivessem levado produto, teriam vendido todo o stock ali mesmo. Porque a Skizo gerou um interesse imenso junto de todos os participantes que passavam junto ao seu stand. As pessoas faziam fila para falar com eles.

Muitos meses depois e o interesse mantém-se. Andreia e André têm dado várias entrevistas a meios de comunicação e ganharam vários prémios e distinções, uma delas o primeiro lugar na categoria “Produtos e Serviços” do concurso do Montepio Acredita Portugal. Foram ainda selecionados para o programa de aceleração da Casa do Impacto, patrocinado pela Santa Casa da Misericórdia.

Plástico mediterrânico

O processo de fabrico dos tecidos começa no mar Mediterrâneo. Andreia e André são os únicos portugueses que fazem parte de um consórcio internacional que recolhe o plástico apanhado por um grupo de pescadores espanhóis. Depois de agrupado, esse plástico segue para uma fábrica em Guimarães onde é transformado em tecido. Foi na Web Summit que o casal conseguiu um contacto que os levou ao produtor atual. “Tivemos uma reunião com eles. E eles aceitaram o projeto. Têm uma capacidade de produção diária de 500 pares de sapatilhas.”

Mas ainda não são esses os números da Skizo. As vendas arrancaram em março e atualmente já foram vendidas mais de 60 unidades, para vários mercados, dos Estados Unidos ao Brasil, passando por vários países europeus. Os portugueses ainda ocupam uma fatia de 60% do bolo total.

Atualmente a Skizo tem dois modelos de sapatilhas à venda e cada par retira meio quilo de plástico do mar, o equivalente a 18 garrafas de água. Existem os Pure, muito semelhantes ao Stan Smith da Adidas, e os Ocean, com uma sola mais alta. Ambos são vendidos pelo preço de 129 euros (com impostos e entrega incluídos) e são totalmente personalizáveis ao gosto do cliente, feitos com plástico retirado do mar e outros materiais sustentáveis.

“Até ao final do ano, gostávamos de chegar às 100 unidades vendidas. E em 2020, o meu objetivo é vender 1000 pares de sapatilhas”, ambiciona André. Se a intenção do fazedor se concretizar, a faturação anual da Skizo ultrapassará os 100 mil euros.

Até dezembro, o casal pretende pôr à venda um modelo de botas. Mas antes disso vai diversificar o catálogo: ainda no verão surgirão as carteiras e as pequenas bolsas, para todas as pessoas que gostavam de se juntar à marca no seu propósito mas não têm folga financeira para comprar umas sapatilhas. “Foi uma ideia que nos fez sentido. Permite-nos diversificar a oferta, mas não só. Somos sobretudo uma causa, para além de um negócio. Por isso, queremos que mais gente ajude a tirar plástico do oceano,” sublinha Andreia.

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