Startups. "Girl Power" no empreendedorismo português

No Dia da Mulher, o Dinheiro Vivo deu a voz a três fazedoras portuguesas. Como é ser mulher e estar à frente de uma startup em Portugal?

Anos 90. As Spice Girls fazem a expressão "girl power" entrar no vocabulário de toda uma geração de adolescentes com canções pop que ficam no ouvido e enaltecem o valor da amizade feminina, o poder das mulheres e a sua garra em fazer acontecer. Nos anos 90, Mariana Santos, Filipa Larangeira e Luisa Piló estavam no início da juventude. Influenciadas ou não pela banda britânica, encarnaram o espírito "girl power" e transformaram-se em fazedoras, com vontade de abanar o sistema e trazendo novas formas de olhar para o mundo.

Mariana Santos é a fundadora do movimento Chicas Poderosas, um projeto que nasceu na América Latina com o objetivo de capacitar mulheres para a tecnologia e que se tem espalhado à escala global. A portuguesa é ainda a CEO da startup Unicorn Interactive, de conteúdos digitais. Mariana acredita que as empresas só têm a ganhar com as características da liderança feminina. "Todas as características que se observam na postura, atitude e maneira de pensar da mulher. Desde ter uma capacidade de lidar com pessoas bastante empática, a capacidade de multitasking, e força de trabalho, especialmente quando assente numa causa em que a mulher acredita e se inspira. Acho que, apesar de não haver tantas mulheres CEO como homens, assim que elas quiserem e lutarem por ocupar esses postos, são as próprias empresas e trabalhadores que ganham com essa oportunidade".

Só que em startups, o "girl power" ainda tem demorado a chegar. O estudo Global Startup Ecosystem Ranking, com dados de 2015, indica que as mulheres representam apenas entre 14% e 25% dos fundadores das empresas, dependendo do relatório que se seguir. E se falarmos de projetos que recebem financiamento de investidores, os números são ainda mais baixos, com as mulheres a ocuparem apenas 5% no nascimento de startups, e nos cargos de inovação e liderança. "Em Portugal estamos próximos destes números. Temos um longo caminho a percorrer", comenta Luisa Piló, uma das fundadoras da GFoundry, uma empresa tecnológica que desenvolveu uma aplicação de gestão de recursos humanos que promove a cultura da felicidade.

O Global Entrepreneurship Monitor, com dados de 2015, indica que, em Portugal, se assumirmos que existem tantas mulheres como homens no país, a presença masculina é 58% superior à feminina em termos de negócios próprios. Contudo, existe 80,4% de mais oportunidades para homens do que para mulheres. Filipa Larangeira, uma fazedora que esteve na Uniplaces e que se decidiu lançar por conta própria, com vários projetos em mãos, acredita que, ainda assim a situação está melhor. Mas ainda há caminho para andar. "É um caminho que se faz educando e capacitando mulheres, homens e crianças para que o tema da igualdade de género deixe de ser um problema. As mulheres precisam por um lado de ser empoderadas, de terem mais referências e de serem ajudadas a vencer limitações autoimpostas. Os homens precisam de ser encaminhados no sentido de entenderem a importância da inclusão no contexto empresarial e social, seja de que tipo for, e as consequências do preconceito de género, que é muitas vezes inconsciente".

Filipa conta que já sofreu discriminações de género, mas que geralmente acontecem inconscientemente. "Na maior parte dos casos quem o fez nem se deu conta, logo não tomo como ofensa. Em média, o empresário / empreendedor português é machista mas de forma inconsciente porque não só foi educado assim como toda a sociedade, inclusive as mulheres - aceita esse preconceito silencioso". Luisa acrescenta ainda que, muitas vezes, é entre mulheres que essa discriminação mais acontece. "Nunca o senti diretamente, no entanto a descriminação dá-se muitas vezes entre as próprias mulheres e não só em ambientes masculinos." Mariana sentiu a pressão do género, mas não em Portugal. "Nos Estados Unidos senti discriminação por ser mulher a querer fazer acontecer, cheguei a receber por email um pedido para baixar a bola. Sinto que, em Portugal, a celebração de mulheres a quererem empreender começa a ganhar terreno, mas que ainda estamos longe de não sentir discriminação, que se observa nos mais diversos campos profissionais".

Apesar de os números mostrarem que, em Portugal, a disparidade ainda é grande, as mulheres têm-se afirmado em diversas iniciativas de empreendedorismo e a ganhar notoriedade. Através de plataformas como a Capazes, das apresentadoras Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingos, em espaços inovadores, como o Village Underground Lisbon, de Mariana Duarte Silva, e em startups com relevância internacional, como a Chic by Choice, de Lara Vidreiro e Filipa Neto, e a Talkdesk, fundada por Cristina Fonseca.

Filipa Larangeira acredita que as mulheres podem fazer tudo e por isso deixa um conselho a todas as que têm uma ideia de negócio. "Não se menosprezem e lembrem-se sempre que uma ideia de negócio pode ser não só a semente de uma transformação interior como, quem sabe, uma mudança positiva das condições de vida dos que nos rodeiam. Quem gere uma casa, filhos, cães, ginásio, hormonas, amigas com problemas infindáveis e uma relação amorosa, consegue gerir tudo."

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