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Startups. O tanque dos tubarões pode esperar?

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Investidores e especialistas deixam conselhos e avisos a fundadores de startups sobre o momento certo para vender uma empresa

Há dez anos ninguém falava de startups. Ser empreendedor não era moda, a Web Summit não existia e uma incubadora era coisa de maternidade. Há dez anos, uma pequena empresa de Braga fechou o negócio de uma vida com a maior tecnológica do mundo, e abriu caminho ao que estava para vir.

A equipa liderada por Carlos Oliveira tinha desenvolvido uma cloud que permitia transferir dados de um telemóvel para outro, “uma tecnologia muito avançada para a altura”, conta atual o líder da Startup Braga.

A MobiComp acabava de completar oito anos de vida quando entrou no radar da Microsoft. Do primeiro contacto até à assinatura do contrato de venda passaram seis meses. Foi a última aquisição da Microsoft antes de rebentar a crise financeira mundial.

“Foi uma oportunidade única. Fomos abordados por possíveis compradores quase todos os anos desde que a empresa foi fundada e recusámos sempre”, recorda o ex-secretário de Estado do Empreendedorismo. Foi o dinheiro que falou mais alto? “A parte financeira não foi a mais importante. Foi a ambição que tínhamos de ver o nosso produto, que até então tinha algumas centenas de milhares de clientes, espalhado pelo mundo”. Assim foi. O negócio tinha sido fechado há menos de um ano quando a Microsoft apresentou a tecnologia made in Braga como uma das grandes novidades do Mobile World Congress, em 2009.

O auge do empreendedorismo tech português acabou quando ainda só estava a começar. Em 2006, pela mão de António Murta, já a tecnológica Enabler tinha sido comprada pelo gigante indiano da informática Wipro. Um ano depois, a Chipidea, fundada por José Epifânio da Franca, seria vendida à gigante norte-americana MIPS Technologies por quase 150 milhões de euros. Desde então, Portugal tornou-se terra fértil de fazedores, mas os grandes negócios de exit, como se diz na gíria quando uma empresa é vendida, contam-se pelos dedos de uma mão. Até quando?

“As empresas demoram entre cinco a sete anos a amadurecer e a provar o seu modelo de negócio. O nosso ecossistema é muito recente e só agora estamos a entrar na fase de amadurecimento da primeira leva de startups. Todas as que foram criadas depois de 2013 ainda são muito jovens, é cedo para serem vendidas, mas a tendência deverá ser de aumento. Nesse sentido, 2019 será melhor que 2018 e por aí fora”, explica Hugo Gonçalves Pereira.

O fundador da Shilling Capital Partners, empresa de capital de risco que investe em startups, participou numa das últimas grandes “saídas” de uma empresa portuguesa. Foi em 2015 que a gigante norte-americana TripAdvisor comprou a Best Tables, que tinha sido fundada por Ricardo Sécio em 2011. O valor não é conhecido.

“Não estávamos vendedores. Já financiávamos a empresa há dois anos e nessa altura estávamos a preparar uma ronda de investimento mais substancial, de muitos milhões de euros, com o objetivo de expandir para o Brasil. Não sabemos como mas o dossier foi parar às mãos do TripAdvisor. Foi uma decisão difícil, porque o negócio ainda tinha potencial para crescer. Mas ficámos satisfeitos com a venda”, admite o investidor, para quem um processo de venda “é quase tão difícil como angariar capital”.

No caso da Best Tables, David não fez frente a Golias. “Havia algum perigo, eles estavam de olho noutra empresa no Brasil. Se nós não vendêssemos eles iriam comprar o nosso concorrente. Foi a decisão sensata”, assume Hugo Gonçalves Pereira, que só investe em empresas com elevadas probabilidades de venda. “É um critério fundamental. O negócio até pode ser muito bom, mas se a startup não tiver compradores perde o interesse”.

Para Carlos Oliveira, a venda não é necessariamente sinal de sucesso, e um fazedor “pode e deve dizer não”. O importante, ressalva o empresário, “é estar alinhado com os acionistas sobre os objetivos da startup para que, quando um dia chegar a proposta certa, estejam todos em sintonia para dizer sim”.

O líder da Startup Braga lamenta, no entanto, que nos últimos dez anos tenha havido poucos negócios em Portugal com o carimbo de “peixe graúdo”. Uma das aquisições mais recentes teve lugar no verão de 2016, quando uma startup que já joga na liga dos grandes comprou uma pequena aplicação.

Ou seja, quando a Farfetch, o único “unicórnio” português, avaliada em mais de mil milhões dólares, adquiriu a Gleam, uma “plataforma de descoberta e inteligência de moda”. A fundadora e CEO da Gleam, Andreia Campos Carreira, é hoje branch manager no escritório da Farfetch em Lisboa. A plataforma de moda de luxo liderada por José Neves é o caso nacional de sucesso mais conhecido, e o exit através de uma entrada em bolsa já este ano é cada vez mais provável. Mas não é a única.

Luís Roquette Geraldes, advogado que lidera a Team Genesis, equipa da sociedade MLGTS especialista em startups, acredita que nos próximos anos o mercado vai mexer. “A Talkdesk é um bom exemplo de uma empresa portuguesa que está a crescer muito que irá para a bolsa em pouco tempo, tal como a Feedzai, a Veniam ou a Unbabel, que levantou agora 23 milhões de euros. Acho que entre 2019 e 2020 vamos ter muitos fundadores a fazer muito dinheiro com vendas”. Estará outro unicórnio a caminho?

 

Luís Roquette Geraldes: “Ainda estamos a engordar as nossas startups”

As startups são criadas para serem vendidas?
Se tiverem investidores externos, sem dúvida que sim. São empresas privadas, não cotadas, logo não se podem vender e comprar as suas ações rapidamente. As ações de uma startup são ativo não líquido. Só se ganha dinheiro quando ela for vendida, porque todo o dinheiro gerado pela empresa, em principio, não vai ser para pagar dividendos, será para reinvestir no seu crescimento.

Como se avalia o sucesso de uma venda?
A venda teve sucesso quando tanto os investidores como os fundadores ganham dinheiro. A indústria do capital de risco protege-se a si mesma. Normalmente há cláusulas contratuais que dizem que, no caso de uma venda menos boa, quem recebe primeiro, até ao montante do investimento, são os investidores. Se fizer uma venda má, em principio só os investidores é que recebem algum dinheiro de volta. Numa venda muito boa, toda a gente ganha dinheiro. Portugal ainda é relativamente imberbe nesta matéria. Ainda estamos a engordar as nossas startups.

Que conselho dá a um empreendedor que queira vender?
É preciso saber quem são os potenciais compradores desde o primeiro dia. Porque o normal é ser comprado, o anormal é entrar em bolsa. Acima de tudo, é preciso perceber quais são as regras do jogo e as intenções de quem está no mercado.

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