Startups portuguesas à conquista dos Estados Unidos

Seis empresas nacionais estiveram na feira CES em Las Vegas para fazer contactos e mostrar tecnologia no mais importante evento da indústria

Do robô que segue as pessoas no supermercado à coleira que monitoriza o bem estar do animal de estimação e à plataforma para aceitar pagamentos em criptomoedas, a tecnologia portuguesa que viajou até à feira tecnológica CES em Las Vegas tem uma coisa em comum: potencial para vingar no mercado americano. As seis startups estiveram presentes através de uma comitiva liderada pela Associação Startup Portugal, que garantiu três stands no espaço para ideias inovadoras Eureka Park. A escolha recaiu sobre a Findster, Follow Inspiration, Invoice Capture, SubVisual, Infinite Foundry e Didimo.

“Somos seletivos nas startups que trazemos, já têm que estar numa fase em que faça sentido internacionalizarem”, indica ao Dinheiro Vivo Marta Sousa Monteiro, evangelista da Startup Portugal que acompanhou as empresas a Las Vegas. A decisão de ir foi tomada com pouca antecedência, pelo que não foi possível planear um espaço com mais recursos visuais e protótipos das tecnologias. A intenção é pegar na experiência e planear uma presença “ainda mais em grande” no próximo ano.

Robôs made in Portugal

A proposta da Follow Inspiration é uma das que tem maior potencial, dadas as características do mercado americano. A empresa, que nasceu na universidade da Beira Interior, concebeu o carrinho de compras robótico wiiGo, completamente autónomo e desenhado para ajudar pessoas com mobilidade reduzida a fazerem compras de forma independente. O CEO Luís de Matos explica: “Uma vez que é complicado para essas pessoas transportarem as suas compras, desenvolvemos um robô de seguimento autónomo.” O equipamento faz o reconhecimento completo do consumidor em cerca de dois segundos. A partir daí, segue-o para todo o lado na loja, carregando as compras, sem ser necessário outro dispositivo. “É tudo com base em visão por computador e inteligência artificial”, detalha Luís de Matos.

O modelo de negócio é a venda aos retalhistas para disponibilizarem aos consumidores. O wiiGo já está a ser usado na Media Markt e foi testado também na Sonae em Gaia. Fora do país, os grupos Auchan e Intermarché compraram robôs para disponibilizarem em França e o grupo Hedeka na Alemanha.

“Curiosamente, as pessoas que mais utilizaram foram as que não têm qualquer limitação, por uma questão de comodidade”, adianta o CEO. “As pessoas veem-no como um concierge das compras.” É por isso que o mercado norte-americano é tão apetecível: além de existir um grande mercado de pessoas que usam scooters elétricas para se deslocarem, os espaços comerciais e de entretenimento têm grandes dimensões. O wiiGo pode ser uma mais-valia em lojas como a Target, Wal-Mart, Macy’s e outros grandes espaços.

Quanto ao preço, cada robô custa seis mil euros. É inteiramente produzido no Porto, onde a Follow Inspiration tem acordos com empresas parceiras desde a metalomecânica ao plástico, e montado pela startup, que emprega 16 pessoas. Já há duas patentes submetidas e o próximo passo é garantir uma ronda de financiamento para escalar o produto, depois de apoios iniciais da TIC Risco e da Portugal Ventures.

Criptomoedas, faturas e automóveis

Pagamentos em criptomoedas é o que propõe a UTrust, um spinoff da startup portuguesa SubVisual. A plataforma desenvolvida em Braga ajuda as empresas a aceitarem moedas digitais, protegendo-os da volatilidade e outros problemas. “As moedas digitais têm 700 mil milhões de valor. Há muita gente a tentar gastar este dinheiro, e estamos a ajudar os pequenos retalhistas, com pequenos sites, a aceitarem estes métodos de pagamento”, resume o diretor de vendas Nick Olender, que está focado no mercado dos Estados Unidos. “A nossa plataforma permite às empresas aceitarem as moedas digitais, sendo pagas em dólares ou euros.”

Também no mercado de pagamentos, mas com uma abordagem totalmente diferente, a Invoice Capture quer ajudar as empresas a conseguirem o pagamento de faturas em atraso. “É um sistema que está orientado para que as empresas possam ter maior agilidade nas faturas que emitem em que dão algum crédito aos clientes, a 30 ou 60 dias”, explica o CEO Pedro Mendes. A plataforma identifica o perfil do cliente e tentar entrar em contacto pelo meio digital que for mais adequado ao seu perfil, mas também procura descobrir se existe algum problema ou reclamação por detrás do atraso no pagamento. “Damos à empresa uma ferramenta que permita antecipar a reclamação”, adianta o CEO. “Estamos a trabalhar com aprendizagem de máquina para descobrir qual é o padrão de comportamento de determinado indivíduo que teve a iniciativa de não pagar uma conta. Em 40% dos casos que temos visto, é por esquecimento.”

O Invoice Capture está a ser testado em seis clientes piloto em Portugal, entre os quais a Gestifatura e uma agência de viagens do grupo American Express. A presença na feira CES faz sentido porque a startup tem sido contactada por empresas americanas que querem distribuir o produto. Quando ao modelo de negócio, o pagamento é por processo. A análise e vigilância de um cliente tem uma mensalidade entre os 30 cêntimos e os dois euros, enquanto as empresas com grande volume poderão optar por licenças fixas entre dois e 20 mil euros.

É mais ou menos o mesmo que faz a Infinite Foundry, que licencia a sua plataforma por utilizador, mas numa área muito distinta: é uma empresa de cloud na área industrial do fabrico de automóveis, que se promove como "blockchain industrial." Os fundadores trabalhavam neste mercado há sete anos, com uma empresa de consultoria, e decidiram “matar” o seu negócio ao construir esta solução. “Trabalhámos diretamente com os fabricantes automóveis, Mercedes, Volkswagen, Iveco, Toyota, numa área de engenharia de recolhas”, afirma o CEO André Luz. “Se alguma peça tem um problema, os tipos do pós-venda perguntam à engenharia o que é que se passa e pedem-nos para refazermos os cálculos.”

A Infinite Foundry opera na fase anterior ao problema. “Os recalls acontecem porque há má engenharia, alguma coisa correu mal. E nós corrigimos com a plataforma.” A solução envolve todos os fornecedores que desenvolvem as peças e faz uma verificação global. Além disso, oferece capacidade computacional, para lidar com os picos de necessidades que ocorrem no design de carros.

A solução está a ser usada pela Mercedes e Volkswagen na América Latina, e agora a Infinite Foundry tem os olhos postos em Silicon Valley, que lidera a nova onda de carros autónomos. “Não estamos a reinventar a roda, mas estamos a pôr toda a gente junta, que é uma coisa que ninguém fez. Os fabricantes automóveis não estavam abertos à cloud; quando começaram a abrir-se, fomos os primeiros a entrar.”

Uma coleira inteligente

A Findster é repetente em Las Vegas e desta vez foi à feira apresentar a nova versão da sua coleira inteligente, a Findster Duo Plus. “É um dispositivo que se coloca na coleira do animal de estimação, cão ou gato, e depois com o telemóvel consegue-se ver a localização e os padrões de atividade”, resume o diretor de operações André Carvalheira. O Duo Plus é agora à prova de água e tem melhorias na conectividade, sendo que a Findster criou um protocolo de comunicação proprietário que permite não haver mensalidades a pagar.

Com quatro mil clientes em 70 países, a intenção da startup é entrar nas gigantes de retalho que servem o mercado americano, Amazon e Chewy (um portal de produtos para animais), e fazer acordos de distribuição também no Reino Unido, Canadá e Austrália. A coleira custa 149,99 dólares (199 se comprar para dois animais) e não tem mais despesas associadas. “O mercado dos Estados Unidos está a crescer 5% ao ano em despesas com animais”, refere Carvalheira. A ambição é grande, dados os resultados dos últimos seis meses: só através do seu site, as vendas cresceram vinte vezes.

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