histórias de fazedores

Tabu. Só uma em cada três startups chega às 300 semanas. Fecham ao fim de um ano

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Falhanço é visto como uma mera etapa no mundo empreendedor. Falta de resposta às necessidades do mercado e de dinheiro são apontadas como causas

Uma em cada três startups falha no final do primeiro ano de atividade. Apenas um terço destas empresas sobrevive ao fim de sete anos, segundo um estudo da Informa D&B. Mas ainda há um elefante na sala no mundo do empreendedorismo em Portugal: é traumático falar sobre as empresas que acabaram por não funcionar ou que levaram uma volta de 180 graus.

“O falhanço acontece e acontece frequentemente. Não é preciso ter vergonha disso. A maioria dos empreendedores de sucesso que conheço teve alguns falhanços ao longo do percurso. Grande parte dos investidores não apostam num empreendedor que não tenha uma ou duas falhas durante a carreira”, avalia Vikas Shah, professor de empreendedorismo do The Lisbon MBA.

Para Carlos Oliveira, líder da Startup Braga, “uma parte das startups está condenada ao insucesso, o que é perfeitamente natural num ecossistema empreendedor vibrante e maduro”.

As falhas
Falta de resposta às necessidades do mercado, falta de dinheiro, falta da equipa certa, ultrapassagem pela concorrência e elevado custo de produção são apontadas como as cinco principais razões para as startups falharem, de acordo com um estudo publicado em 2015 pela base de dados CB Insights.

Na Kinematix, o problema foi a falta de dinheiro, conta Paulo Ferreira dos Santos, o fundador e líder da empresa nascida em 2007 no Porto. “O investidor decidiu não colocar mais dinheiro na empresa”: uma nota no Facebook e na página oficial deu conta do princípio do fim da empresa que vendia dispositivos eletrónicos.

A publicação foi feita no início de abril deste ano, cinco meses depois de a marca ter anunciado uma ronda de investimento (série C) de dois milhões de euros com a Portugal Ventures. Este montante iria servir para lançar no mercado brasileiro o wearable TUNE, equipamento que revolucionava a forma como olhamos para a nossa forma de correr.

Numa altura em que a Kinematix está em processo de encerramento e “muito bem encaminhada para que a liquidação seja feita sem insolvência” e sem dívidas, Paulo Ferreira dos Santos lembra o caso da Apple. “Gostava de perceber o que se passou nos primeiros 10 anos” da empresa fundada por Steve Jobs e que também passou por fortes dificuldades na mesma década.

A Wishareit é outro exemplo de uma startup que não continuou. Criada em 2012 por João Romão e Pedro Moura, esta plataforma de comércio eletrónico permitia o registo e identificação dos presentes ou produtos que as pessoas gostariam de receber, partilhando a lista de desejos com a própria comunidade.

Para João Romão, o problema esteve na falta de foco e falta de receitas. “Não nos focámos na métrica certa. Fomos crescendo relativamente bem em termos de número de utilizadores, mas a empresa não fazia dinheiro e não pagava sequer a infraestrutura.” A Wishareit acabaria por fechar quase dois anos depois.

Carlos Oliveira, da Startup Braga, lembra que, “em muitos casos, o demasiado enfoque no produto em detrimento das vendas e marketing é a causa central” para as startups fracassarem. Vikas Shah sustenta que a “falta de viabilidade de um modelo de negócio, e de crescimento” é a principal razão para o fim de um projeto.

As lições
Com a Kinematix à beira do fim, Paulo Ferreira dos Santos aprendeu que o processo de criação de empresas em Portugal não é tão fácil como parece.

“É muito difícil desenvolver hardware em Portugal. É preciso trabalhar em parceria e ter as pessoas – quer a equipa quer os parceiros – muito alinhados. Além disso, ser presidente executivo dá muito mais trabalho atualmente do que há 10 anos”, quando a empresa foi fundada.

João Romão entende que as startups “devem saber, desde o dia 1, quem é o cliente, se está disposto a pagar e quanto”.

Do “fascínio pelo fracasso” e de forma a “acelerar o desenvolvimento” dos fazedores, sobretudo os que não estão ligados à área da tecnologia, Sofia Ferreira Simões fundou a Failproof Business Academy. “Reunimos informação sobre os casos de fracasso dentro da nossa realidade e obrigamos os empreendedores a pensar em coisas que não são habituais: definir métricas para antecipar fragilidades e trabalhar a própria atitude, sobretudo ter um perfil adequado de postura, determinação e resiliência”.

A fundadora desta academia entende que “cada startup deve ter características pessoais dos fundadores” e que Portugal “não tem um histórico para que se possa dizer que há uma receita única” para fundar uma nova empresa com sucesso. Sofia Ferreira Simões alerta ainda que, “por haver uma tendência de cada vez mais gente a abrir negócios, é mais provável haver mais empresas a fecharem”.

A esperança
Portugal é cada vez mais falado como o país certo para nascer e fazer crescer uma startup, por isso, o fundador da Kinematix diz que o falhanço “é parte de um processo que gerará empresas vencedoras” e que a atual geração de jovens fundadores de empresas “tem mais ambição, vitalidade e abertura graças a programas como o Erasmus”.

Carlos Oliveira assinala que “muitos dos empreendedores acabam por lançar novos projetos e modelos de negócio, que vêm, posteriormente, a ser bem-sucedidos”. Foi o que aconteceu com João Romão e a GetSocial, que transformou-se numa plataforma que analisa e identifica a melhor forma de tornar virais conteúdos na internet.

Sofia Ferreira Simões considera que só daqui a cinco anos Portugal “terá melhores resultados” a assegurar a viabilidade das novas empresas. Deixa ainda uma sugestão quer ao Governo quer ao ecossistema: “Ambos estão voltados para empresas com números de faturação elevados, mas há um outro conjunto de startups que não querem ser unicórnios, cria postos de trabalho mas está um pouco descurada. Falta informação organizada para estes projetos.”

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