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The Love Food. O coração tem razões que o resto do corpo conhece bem

Maria de Oliveira Dias, fundadora da The Love Food. (Fotografia: The Love Food)
Maria de Oliveira Dias, fundadora da The Love Food. (Fotografia: The Love Food)

Cansada de representar sem conseguir pagar a renda, a atriz portuguesa investiu num negócio onde a gula deixou de ser pecado.

Se o sonho for garante de realização, Maria sabe de cor o dela. Quer transformar o projeto que criou em 2014 num “império da comida saudável” e feita com carinho. Na cozinha da The Love Food, as bolachas são amassadas à mão e cortadas uma a uma. Só assim se justifica que algumas tenham o interior mais mole e que outras tenham as bordas estaladiças. Mas nem sempre o palco da fazedora foi a cozinha. Maria queria ser atriz e foi para isso que estudou, um ano depois de ter entrado em jornalismo, em Bruxelas. “Fui fazer os testes para entrar numa escola em Paris, que eu adorava, e entrei. A partir daí fiquei em Paris a estudar teatro”.

Fundou a sua primeira companhia de teatro, Royal Teatro Livre, anos depois, e trouxe-a para Portugal quando voltou a casa. Um esforço para mudar o mundo que, descobriu depois, começou a frustrá-la.

“Achava que os meus espetáculos podiam fazer a diferença na vida das pessoas. Mas uma atriz não faz isso, uma atriz faz só os papéis que lhe dão. Trabalhava com várias companhias, fazia espetáculos para crianças todas as manhãs e, ao fim de semana, telenovelas. Tinha a minha companhia, os meus espetáculos, dormia cinco horas por noite e, no final, não conseguia pagar a renda. Imaginava que era impossível fazer mais do que o que estava a fazer e não fazia diferença em nada. Estava exausta”, explica, em entrevista ao Dinheiro Vivo. Decidiu mudar. Abdicou da casa de Lisboa e da rotina urbana e mudou-se para uma quinta dos pais, em Viseu.

“Achava que os meus espetáculos podiam fazer a diferença na vida das pessoas. Mas uma atriz não faz isso, uma atriz faz só os papéis que lhe dão.”

Começou a plantar e a semear alimentos, a colher da terra os frutos e os vegetais. E recuperou a energia. “Plantava coisas e, em cada época, colhia o que tinha na horta e aproveitava para cozinhar. Publicava as receitas num blogue”, recorda. Nessa altura, começou também a trabalhar numa empresa de gestão de investimentos, onde continua até hoje. “Se eu não tivesse trabalhado lá nunca conseguiria fazer esta marca como é agora, foi a minha escola”, detalha.

Um ano depois, voltou a Lisboa e tentou perceber que caminho podia escolher em alternativa à representação. Foi nessa altura que surgiu a oportunidade de organizar refeições num restaurante vegano, na avenida Almirante Reis, em Lisboa. Num evento de dois dias fez mais de 500 bolos.

Um dos bolos disponíveis na The Love Food.

Um dos bolos disponíveis na The Love Food.

“Foi incrível porque, quando nós abrimos a porta do restaurante já havia fila que dava volta à rua. De repente as pessoas chegaram e acabou tudo, e a aceitação foi gigante”, conta. Depois dos dois dias de evento, Maria começou a receber contactos de pessoas que queriam encomendar e voltar a comer o que tinham comprado no restaurante. E esse talvez tenha sido o ponto de viragem no caminho. Mesmo sem a atriz perceber que o rumo estava a mudar. E que a vida nunca mais ia ser a mesma. “Comecei a fazer bolos para amigos, em casa, e resolvi abrir encomendas no blogue. No entanto, fechei-as rapidamente porque era impossível responder a todos os pedidos com o forno de casa, onde um bolo demora uma hora a ser feito. Tinha 20 encomendas por dia, não era viável. Era impossível”. Concordamos. Pelo menos naquele registo.

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Mas havia outros entraves. É que, apesar de Maria ter percebido pelos contactos que a ideia transformada em negócio podia resultar e que isso era uma coisa que lhe dava “muito prazer” por ser uma forma de estimular a sua criatividade, abrir um restaurante onde pudesse cozinhar as suas receitas e divulgar o conceito parecia-lhe longe de ser real. E sustentável. “Eu não sabia nada daquilo, não ia agora lançar-me. Não era a solução. Então fui aprender.”

Fez workshops, cursos de cozinha, foi falando com chefs, pedindo opiniões e procurando inspiração. Conheceu uma chef brasileira em Paris, falou-lhe das ideias que andava a desenvolver para doces sem açúcar e foi convidada a estagiar na equipa de um restaurante em São Paulo, durante três meses. “Foi aí que disparou a vontade. Nunca tinha trabalhado num restaurante, à exceção de servir às mesas quando era adolescente. E as pessoas não fazem ideia do que é trabalhar numa cozinha de um restaurante. Havia 50 pessoas a trabalhar lá, centenas ou milhares de pessoas para servir por dia. Foi aí que comecei a delinear o meu plano”. Voltou a Portugal em maio de 2014 e, um mês depois – e com um investimento de cerca de 5000 euros em capitais próprios -, inaugurava a fábrica da The Love Food.

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“Se me dissessem, há seis anos, que eu ia ter uma fábrica de comida saudável e que isto ia ser a minha vida, eu não ia acreditar. Eu queria mesmo ser atriz, e sentia que precisava de fazer uma pausa mas que ia voltar mais cedo ou mais tarde”, brinca. Só que a recetividade foi tal que a carreira de atriz ficou, pelo menos por agora, adiada. Vai para 10 anos.

Apesar de Maria ter percebido pelos contactos que a ideia transformada em negócio podia resultar e que isso era uma coisa que lhe dava “muito prazer” por ser uma forma de estimular a sua criatividade, abrir um restaurante onde pudesse cozinhar as suas receitas e divulgar o conceito parecia-lhe longe de ser real. E sustentável.

Desenvolver o conceito da The Love Food foi, por isso, um projeto simples de concretizar, conta Maria. “Tinha as coisas todas planeadas, já sabia o que ia fazer, para onde ia vender, ainda não havia forno montado e nós já tínhamos clientes à espera. Isso é espetacular. E, entretanto, desde que começámos até agora, mudaram imensas coisas”. Agora, tudo o que a empresa produz tem certificação biológica. Granolas, biscoitos e bolachas, barras de cereais, refeições, bolos de aniversário e donuts são algumas das delícias produzidas na fábrica de Lisboa, de entre mais de 100 referências. Além de Maria, a equipa conta com mais duas pessoas a tempo inteiro e outras tantas em regime de colaboração.

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“Fomos amadurecendo a ideia. Começámos a trabalhar a 9 de junho e, duas semanas depois, soube que estava grávida. Na altura, as minhas principais dúvidas eram como fazer tudo sozinha. Tinha uma pessoa que me ajudava na cozinha mas eu era a única a tempo inteiro e tinha o país todo para conquistar. Pensei: será que arranco com um sprint, trato de tudo e depois paro? Não! Deixei-me estar em automático até há cerca de sete meses e, nessa altura, arranquei com força”, conta Maria. As especificações biológicas ajudaram a divulgar os produtos e fizeram crescer a base de clientes, mesmo sem comunicação organizada. O passa a palavra, acredita a fundadora da The Love Food, foi um dos fatores-chave da publicidade durante o tempo que esteve mais ausente, assim como a crescente preocupação das pessoas em comer melhor. E voltamos ao início, porque foi essa a razão que levou Maria, vegetariana, a explorar a criatividade na cozinha.

“Queria desmistificar aqueles preconceitos que as pessoas têm em relação à comida saudável, vegana, sem sabor. o ponto é mesmo fazer comida saudável, com o mínimo de ingredientes possível, biológicos e da estação e que seja realmente saudável. Uma coisa super honesta: é bom, é muito saboroso, faz bem. Para nós, a gula deixou de ser pecado”.

Almoços saudáveis também nas empresas

Além dos produtos à venda online e em algumas lojas espalhadas pelo país, a The Love Food arrancou há poucos meses com uma nova área de negócio, dedicada às refeições encomendadas e entregas em empresas. A ideia de Maria de Oliveira Dias é fazer com que este nicho de negócio cresça, em simultâneo com as outras. Em breve, a marca deverá lançar ainda três novas linhas de produtos, uma das quais dedicada à comida de bebé (por enquanto serão apenas bolachas). A empresa faz ainda consultoria na área da comida saudável em restaurantes, empresas e eventos na sua casa, sempre pensados à medida.

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