Trabalho. O lado negro das Startups?

Uma denúncia contra a Chic by Choice lançou a discussão. Afinal, que tipo de práticas seguem as startups em relação aos seus funcionários?

O testemunho é longo e faz várias acusações à startup de moda Chic by Choice. Desde a manutenção de 20 funcionários em situação contratual precária à pressão para se abdicar de férias, é ainda referido que os investimentos avultados não se traduzem em melhores condições para os trabalhadores. A denúncia anónima foi publicada na plataforma Precários Inflexíveis e partilhada dezenas de vezes nas redes sociais, sob o título “O lado negro das startups”.

Contactada pelo Dinheiro Vivo, Lara Vidreiro desvaloriza a polémica. “Não nos revemos no que foi publicado. Ainda assim, discutimos o assunto com a equipa, para assegurar que todos estavam motivados e satisfeitos. Somos, no entanto, pessoas, e é humano que tenhamos tido alguma situação pontual de um colaborador que tenha saído da empresa insatisfeito”. A co-fundadora da Chic By Choice assegura que a startup segue à risca a lei do país. “As nossas práticas comuns regem-se pela legislação laboral portuguesa. Oferecemos contratos e garantimos o pleno gozo das férias dos nossos colaboradores”.

Contudo, nas diversas partilhas que a publicação teve nas redes sociais, houve várias pessoas a fazer coro com a denúncia. Ivo Carvalho foi um deles. “Eu passei por uma situação semelhante. Estive um ano num estágio profissional numa startup, a trabalhar perto de 12 horas por dia, às vezes com fins de semana incluídos e sem férias. Uma vez tive de tirar uma semana e meia devido a um problema pessoal e os meus chefes nunca mais olharam para mim da mesma maneira, como se eu tivesse feito um erro enorme”. Ivo preferiu não revelar o local onde trabalhou, mas refere que foi numa startup que acabou por ser comprada por uma grande marca internacional. “Eles tinham uma ótima visão de negócio, mas eram péssimos a lidar com pessoas. Tive dois colegas, com situações piores que a minha, que não aguentaram a pressão e foram embora”, desabafa.

Hugo Evangelista, da Precários Inflexíveis, acredita que há precariedade nas startups. “Recebemos bastantes queixas de estágios e recibos verdes ilegais, sendo alguns destes casos ligados a startups”, refere. Uma realidade, que ultrapassa as fronteiras nacionais. No final do verão, a startup norte-americana Blue Apron, de entregas de refeições ao domicílio, fez manchete em vários órgãos de comunicação, depois de ter vindo a público uma reportagem da Buzzfeed que dava conta de um ambiente violento e stressante entre os funcionários, dentro das instalações da empresa. Ao longo dos anos, têm sido frequentemente notícia, um pouco por todo o mundo, algumas condições adversas que os trabalhadores de startups por vezes encontram. Por outro lado, são também estas empresas as mais reconhecidas em relação a satisfação no trabalho. As unicórnios Dropbox, Eventbrite e Pinterest são vistas como empregadores que potenciam as capacidades e o bem estar da sua equipa e, em Portugal, a Uniplaces, com um escritório considerado dos mais incríveis no mundo inteiro, foi também já distinguida como o melhor local para se estagiar no país.

“Eu acho que é uma questão de mentalidade. Trabalhar numa startup não é o mesmo que trabalhar no mundo corporate”, assegura Miguel Pina Martins, CEO e fundador da Science4You, startup de brinquedos científicos, fundada em 2008, com mais de 20 mil pontos de venda na Europa, e que emprega perto de 500 trabalhadores. “Nós já temos uma escala maior, mas quando as empresas estão a nascer, não se pode encarar o projeto como um emprego tradicional. É normal que haja mais amor à camisola e que as pessoas dediquem mais do seu tempo. Mas isso não significa que haja atropelos à lei, que acredito que não existam. Pode é haver diferenças de mentalidade e também problemas pontuais, que acontecem em todo o lado, independentemente do setor e da dimensão.”

Ivo Carvalho reconhece que o seu caso não é indicador de um problema inerente a todo o ecossistema empreendedor. “De forma alguma. Tenho amigos a trabalhar noutras startups que estão super satisfeitos. O problema é que estas empresas em fase inicial, por vezes, são instáveis e isso reflete-se nos funcionários. Por exemplo, em relação aos estágios profissionais, deveria existir um maior acompanhamento da parte do IEFP, para garantir que tudo está a correr bem”, conclui.

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