Iniciativa

Um terço das startups fecha ao fim de um ano

Farfetch
REUTERS/Toby Melville

Falta de financiamento e reduzida aposta no exterior para escalar negócio são as principais causas de encerramento.

Cerca de uma em cada três startups (32%) fecha portas ao fim de um ano. E só 42% destas empresas com alto valor tecnológico chega à idade adulta (cinco anos), segundo os dados da Informa D&B. Mas ainda há um grande tabu em falar sobre os fracassos nesta área. A falta de financiamento e a reduzida aposta no mercado exterior estão entre as causas para o fim precoce deste tipo de empresas.

“Temos de reconhecer que ainda nos encontramos a dar os primeiros passos e que o empreendedorismo ainda enfrenta múltiplos constrangimentos quer culturais quer financeiros”, aponta ao Dinheiro Vivo António Santos, presidente da Comissão Executiva da NERSANT, a associação de empresas da região de Santarém.

Pedro Rocha Vieira, líder da organização de apoio a startups Beta-i, acrescenta que “ainda há startups que ficam demasiado agarradas ao mercado português”, que “falta encontrar o talento certo para fazer escalar negócios” e que, “por serem projetos arriscados, associados a capital de risco, quase ninguém lhes empresta dinheiro”.

Leia aqui: Tabu. Só uma em cada três startups chega às 300 semanas

O capital de risco tem um papel determinante na sobrevivência de uma startup. “Quando não vem na altura certa, as coisas começam a derrapar; quando a empresa é boa, há sempre investimento”, lembra Clara Gonçalves, diretora executiva do UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto. Na Chic by Choice, uma startup de aluguer de vestidos de luxo, a falta de financiamento terá levado à redução substancial da sua atividade; na Farfetch, fundada pelo português José Neves, o capital de risco foi crucial para a empresa transformar-se numa das maiores plataformas de moda do mundo.

Fonte: Informa D&B

Fonte: Informa D&B

Além disso, este perfil de empresas, ao contrário das típicas PME, “está focada numa tecnologia e tem de apostar num determinado nicho de mercado”, recorda Clara Gonçalves. “Há enorme probabilidade de falhar e, por isso, temos de aprender a lidar com o erro. Isto acontece em todo o mundo”, acrescenta. António Campos considera que “é natural e salutar” que uma parte destas empresas não chegue à idade adulta: “só num mundo ficcional todas as empresas criadas continuariam a existir eternamente”.

Mas ainda há muito por fazer para Portugal afirmar-se no mundo do empreendedorismo. Nos países com mais sucesso nesta área, como Estados Unidos, Alemanha e Israel, os investidores só costumam apoiar as startups fundadas por empreendedores experientes. E há mais dados estatísticos sobre as startups. Isso levou a Startup Portugal, associação que aplica a estratégia de empreendedorismo do país, a recrutar um analista de dados, que fará um retrato deste tipo de empresas e irá apurar quantas é que realmente sobrevivem.

Leia aqui: Berlim, a cidade onde quem não falha “mente ou é idiota”

Farfetch – Um foguetão em que o céu é o limite

Começou em 2008, em Londres, como uma plataforma online de moda de luxo. Fundada pelo português José Neves, a Farfetch começou a redefinir este mercado por todo o Mundo e ganhou cada vez mais parceiros e escritórios em vários continentes. Só em Portugal, existem três escritórios, em Guimarães, Porto e Lisboa, que dão emprego a mais de mil pessoas. E é na capital que está a ser desenvolvido o conceito de “loja do futuro” que quer transformar as compras de vestuário e o modelo de negócio da plataforma. Isto terá convencido marcas como a Chanel, a Burberry e o grupo Chalhoub, do Médio Oriente, a associarem-se à empresa. Avaliada em mais de mil milhões de dólares – um unicórnio, na linguagem das startups – a Farfetch poderá começar a ser cotada na Bolsa de Nova Iorque ainda este ano.

Chic by Choice – Um exemplo de eclipse

Aluguer de vestidos de luxo. Este era o principal negócio da Chic by Choice, a startup fundada em 2014 por Filipa Neto e Lara Vidreiro e que levou estas duas empreendedoras a serem consideradas como duas das 30 jovens sub-30 “mais brilhantes” da Europa na área do retalho. Mas os dois milhões de euros de financiamento não terão sido suficientes para manter a empresa viável. Desde meados do ano passado, a Chic by Choice começou a vender os vestidos que tinha para alugar e teve de reduzir substancialmente a sua atividade. A situação foi tornada pública depois de uma investigação do jornal “Observador”, após Filipa Neto e Lara Vidreiro terem sido distinguidas pela revista norte-americana “Forbes”. A empresa ainda está em atividade, mas as duas sócias já estão a trabalhar noutros locais.

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