Uma casa portuguesa. Minúscula

O interior do yurt
O interior do yurt

Há dois anos, P., que quis manter o anonimato, era um português igual a tantos outros. Tinha um trabalho que lhe ocupava o dia inteiro e uma hipoteca para pagar ao banco por causa do empréstimo que fez para comprar um automóvel.

Mas o desemprego virou-lhe a vida do avesso e, ao invés do esperado, P. garante que a “vicissitude” foi o melhor que lhe aconteceu. Sem grandes perspetivas, mas com muita motivação, começou a procurar uma alternativa que o ajudasse a escapar ao sistema. Encontrou no projeto de João Neves, fundador da empresa MiniCasas Portugal, o rumo que desejava e a realização de um sonho que já alimentava há dois anos.

Em setembro de 2012, começou a planear e a desenhar, juntamente com João Neves, o seu yurt, uma espécie de tenda, com todas as comodidades de uma casa normal, onde hoje vive com a companheira. O yurt, que demorou cerca de dois meses até estar concluído e que tem menos de 14 metros quadrados, foi construído com 95% de materiais naturais, como madeira, cortiça, algodão, lã pura de ovelha e serapilheira.

“No nosso yurt, que é desmontável e transportável, temos uma cozinha com algumas fontes de energia, mas privilegiamos a utilização da salamandra a lenha, especialmente no inverno. No verão, cozinhamos utilizando fogões foguete no exterior, uma tecnologia a lenha de alta eficiência energética”, explica.

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A casa de banho utiliza o sistema de sanita seca, em que não é utilizada água no processo, mas sim serradura. O material resultante é depois compostado durante dois anos para ser devolvido à natureza. “Para já, para termos água quente, ainda estamos dependentes de um sistema de aquecimento híbrido, que pode funcionar a eletricidade, a energia solar, ou, no inverno, pode ser alimentado pela salamandra a lenha”.

P. e M., ambos na faixa etária dos 30 anos, dedicam-se à produção ecológica e desenvolvem, na zona de Mafra, onde estão instalados, o projeto Permabio, orientado pelos valores de permacultura, ecologia e sustentabilidade. “O objetivo é irmo-nos libertando cada vez mais de alguma dependência que ainda tenhamos, substituindo os sistemas convencionais por sistemas de baixo custo e com alta eficiência”. Trocam bens caseiros, como sabonetes artesanais, bálsamos e velas ecológicas de cera virgem de abelha, por donativos.

Estão instalados no terreno de um familiar que lhes fornece a água e a energia que necessitam para alimentar um computador portátil e um frigorífico. Em troca, cuidam da terra. “A nossa sociedade está pensada para criar pessoas trabalhadoras e não nos dá ferramentas para sermos seres criadores. Mas nem toda a gente se adapta a este sistema. Eu, por exemplo, não queria qualquer tipo de dependência dos bancos, nem de empresas de serviços que me podem tornar refém. Por isso, estou, lentamente, a criar a solução mais adequada àquilo que desejo”, diz P.

João Neves, que começou a construir mini casas há seis anos (desde então já vendeu 25), e tem a sua empresa instalada nas Caldas da Rainha, conta-nos que “cada vez mais jovens, entre os 20 e 35 anos, procuram uma vida mais sustentável e recorrem, por isso, a este tipo de casa ecológicas, sem grandes intervenções nocivas para a natureza”. As casas, consoante o tamanho e as exigências de acabamento feitas pelos clientes, podem ir dos cinco mil aos 15 mil euros.

* em Inglaterra

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