Web Summit - DV Media Partner

Uma Summit do século XXI com vícios do passado

30215553283_cfa4dda110_k

A participação feminina na Web Summit mais do que duplicou. Elas aplaudem, mas dizem que ficar na plateia não chega

Rebecca Parsons trabalha com computadores há mais de 30 anos. Com um doutoramento e muitos cargos de liderança no currículo, ainda hoje, quando chega a uma conferência, a primeira pergunta que ouve é: ‘pode trazer-me um café?’. “Também me perguntam onde está o meu marido, porque se estou ali só pode ser como acompanhante ou como secretária. Em todas as conferências tenho de provar que estou lá porque sei do que estou a falar”, conta ao Dinheiro Vivo a Diretora Tecnológica da ThoughtWorks, que esteve em Lisboa esta semana para explicar ao público da Web Summit que a tecnologia não é um lugar de homens.

A participação feminina na edição deste ano da mega cimeira tecnológica criada por Paddy Cosgrave foi de 42%, um aumento significativo em relação aos 20% registados em 2015. Um “passo significativo”, nas palavras do CEO da Web Summit, que garante querer ir ainda mais longe no próximo ano.

O que Paddy não mencionou foi a razão desta subida em flecha. Para dissipar as desigualdades, a organização da cimeira ofereceu milhares de bilhetes a mulheres ligadas à área tecnológica.
Num dos pavilhões da FIL foi inclusive montado um Women in Tech Lounge, um espaço vedado a homens, com massagens grátis e snacks saudáveis. Será este esforço suficiente para dissipar os estereótipos? “Mais importante que o número de participantes é o número de oradoras.

30859846875_650bd889a2_k

E aqui a diferença ainda é abissal. Na sessão de abertura da Web Summit havia 12 homens e uma mulher. Entre os 663 oradores pouco mais de uma centena eram mulheres. Esse número é muito mais importante e é aqui que temos de atuar”, sublinha Telle Whitney, CEO do Instituto Anita Borg para Mulheres na Tecnologia e uma das oradoras da conferência. Ainda assim, a cientista aplaude as “boas intenções” da organização, porque “traçar objetivos é uma parte importante da mudança”.

Mas que mudança é esta da qual há tanto tempo se fala, e por que teima tropeçar em obstáculos? “O problema é que ainda hoje, na altura da contratação, os homens são avaliados pelo seu potencial e as mulheres pela experiência”, explica Rosa Riera, responsável mundial de Employer Branding and Diversity da Siemens, que esteve na Web Summit para falar sobre o futuro do mundo laboral. Um futuro no qual 70% das crianças de hoje terão um emprego que ainda não existe, ligado às tecnologias, segundo previsões do Fórum Económico Mundial.

Haverá nesse futuro funções específicas para as mulheres? “Espero que não. No passado talvez fizesse sentido, devido ao trabalho físico, mas hoje não há qualquer motivo para não haver mulheres na Fórmula 1. O carro conduz-se sozinho, não é preciso músculo”, conclui a responsável, que tem “muita esperança” na atual geração. “Os millenials exigem diversidade, acredito que serão eles a dar o empurrão final às disparidades de género”.

Entre as centenas de jovens mulheres de todo o mundo que aproveitaram o Women in Tech Lounge do pavilhão 3 da FIL, as opiniões dividiam-se.

Jennifer Thunander, engenheira informática de 29 anos, veio da Suécia à procura de parceiros de negócio na área das fintech. Confessa que foi “difícil crescer enquanto rapariga geek”, principalmente porque “não tinha muitas mulheres que servissem de inspiração”.

Na Web Summit, diz que foi várias vezes confrontada com olhares de surpresa masculinos quando revelava a profissão. “Temos de parar com isto. E acho que deve ser logo nas escolas quando as crianças são pequenas”, afirma. A experiência de Marta Smektala é semelhante. A jovem cientista de computação de 25 anos cria aplicações para smartphone na Polónia. Lamenta ser uma das poucas mulheres a trabalhar na área no seu país e confessa que “é difícil ser a única rapariga numa equipa com mais de dez homens”.

A exceção ao panorama cinzento vem de Portugal e trabalha na Farfetch. Tatiana Lopes, de 31 anos, lidera a área de Supply Chain Product do único “unicórnio” português, e garante que nunca sentiu “qualquer tipo de obstáculo” por ser mulher. “Acho que nestas novas empresas de tecnologia o sexismo não existe. Muitas vezes é fabricado pelos media e por este tipo de iniciativas que separam as mulheres dos homens”. Fica o recado para 2017.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Eleições europeias: 11,56% dos eleitores votaram até ao meio-dia

Um espécime de um boletim de voto das Eleições Europeias é exibido durante a audição do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, na Assembleia da República, Lisboa, 09 de maio de 2019.  JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Líderes partidários já votaram com apelos à participação

A população da freguesia que agrega as aldeias de Morgade, Carvalhais e Rebordelo, mobilizou-se contra a mina a céu aberto anunciada para esta localidade, apelando ao boicote nas Eleições Europeias, em Montalegre, 26 de maio de 2019. FOTO PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Boicote às eleições na freguesia de Morgade, em Montalegre

Outros conteúdos GMG
Uma Summit do século XXI com vícios do passado