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Vem aí nova edição de Prémio Literatura Infantil. São 50 mil euros

Elias Gato (camisa verde), ilustrador do livro vencedor em 2015 "Orlando – O Caracol Apaixonado", e Sérgio Mendes, autor do texto
Elias Gato (camisa verde), ilustrador do livro vencedor em 2015 "Orlando – O Caracol Apaixonado", e Sérgio Mendes, autor do texto Foto: D.R.

O prazo para entrega das propostas de histórias para o Prémio de Literatura Infantil Pingo Doce 2016 já abriu e decorre até 22 de abril.

Findo este prazo, segue-se a seleção por dois júris, do texto vencedor, a partir do qual os candidatos da área da ilustração irão trabalhar e cujo processo de candidaturas decorrerá entre 2 de junho e 29 de julho.

Pelo terceiro ano consecutivo, este concurso irá atribuir o maior prémio monetário nesta área em Portugal, no valor de 50 mil euros, que será repartido igualmente entre o autor do texto e o ilustrador vencedores.

“De onde vêm as bruxas”, da autoria de Joana Lopes, 31 anos, natural da Sertã, onde é professora de Técnicas de Acolhimento e Animação (Escola Profissional da Sertã), com ilustração de Luís Belo, 28 anos, natural de Viseu e licenciado em Artes Plásticas e Multimédia, foi o 1.º livro vencedor.

Lançado com o apoio técnico da Alêtheia Editores, tanto este livro como o que venceu em 2015 – “Orlando – O Caracol Apaixonado” foram colocados à venda nas mais de 400 lojas Pingo Doce, a partir de novembro.

Dentro da estratégia de promoção da leitura do grupo Jerónimo Martins, a sua insígnia se supermercados “procura incentivar a criatividade literária e artística, e estimular a emergência de novos talentos nas áreas da literatura infantil e do design gráfico e ilustração.”

Em 2015, a história do Caracol valeu 50 mil euros a Sérgio Mendes (vencedor do texto), 41 anos, natural de Guimarães, e professor mas na área de Física e Química, e Elias Gato (ou Miau como nome artístico), na ilustração.

Em entrevista recente ao Diário de Notícias, o ilustrador natural de Castro Marim, animador na exposição em Lisboa “Real Bodies”, e o professor na Escola D. Diniz, em Santo Tirso, revelaram como decorreu o processo de criação da obra vencedora.

O que une um caracol, um gato e um professor de física? Um livro Infantil.

caracol_novaUma paixão que valeu 50 mil euros a Sérgio Mendes e Elias Gato no Prémio de Literatura Pingo Doce. E uma amizade entre norte e sul de Portugal. Se não veja…

Tenho uma caixa do correio na minha casa aqui em Guimarães, em que sempre que ia lá buscar as cartas tinha de baixo um caracol. Eu punha-o nas ervas, mas no dia seguinte chegava o carteiro, eu tornava a abrir a caixa do correio e lá estava o caracol”

Caracol (ou qualquer outra coisa que se atravesse no caminho de Sérgio Mendes) só pode ter um fim: acabar na história de um livro. E ainda por cima vencedora da 2.ª edição do Prémio de Literatura Infantil Pingo Doce. Foi o que aconteceu com “Orlando – O Caracol Apaixonado”.

“Tenho uma caixa do correio na minha casa aqui em Guimarães, em que sempre que ia lá buscar as cartas tinha de baixo um caracol. Eu punha-o nas ervas, mas no dia seguinte chegava o carteiro, eu tornava a abrir a caixa do correio e lá estava o caracol”, conta Sérgio Mendes para explicar de onde vem a sua inspiração. São pequenos sonhos, situações do dia-a-dia, que regista numa agenda, uma para cada ano, com frases, coisas caricatas.

“Mais tarde pego nisso tudo e escrevo. Foi o que aconteceu com o Orlando”, diz. Escrito em duas semanas, “sem filtro e sem stress – se calhar por isso saiu tão fluido” –, Orlando faz parte de um conjunto de seis contos escritos por Sérgio para crianças. Destes, o autor escolheu os três mais adequados ao concurso. Ganhou o último, “Orlando – O Caracol Apaixonado”, “o mais cómico e leve – os outros eram textos para crianças, sim, mas mais poéticos, de revisão mais cuidada, com muito trabalho em cima, não tão light como o Orlando, que faz rir e apela à amizade”, define Sérgio Mendes.

Orlando vive numa horta – o autor também tem uma horta – onde habitam muitos bichos, lagartixas, pirilampos… “Peguei nesse pequeno mundo e trouxe-o para o nosso dia-a-dia, em que as crianças e os jovens estão muito [tempo] no Facebook ou no Instagram, e apelei à amizade real, aos valores da amizade e do amor.” Valores, aliás, com que Sérgio Mendes conviveu desde cedo. É que, apesar de ser um homem das ciências – doutorado em Física e professor de Físico-Química na Escola Secundária de Penafiel – cresceu no meio literário.

O pai, Firmino Ribeiro Mendes, era poeta e as tertúlias de escritores, em que participava Sophia de Mello Breyner, na sua casa em Guimarães, eram constantes na sua vida. Sérgio Mendes começou por escrever poesia, mas há cinco anos, “num sonho, Sophia disse-me para escrever para crianças e deixar a poesia de lado”. E foi o que fez.

Na primavera escreve contos infantis e durante o resto do ano escreve para adultos. Ou seja, trabalha no seu primeiro romance, sobre o qual ainda não quer falar, pois diz que ainda não está preparado para isso. Pensa terminá-lo em 2017. Até lá, o prémio de 25 mil euros irá permitir a Sérgio Mendes ser “o escritor que sempre quis ser e não aquele que, às vezes, querem que eu seja”, diz.

Miau “partiu a cabeça”

Quem está pronto para o que der e vier, depois de ganhar este prémio, é Elias Gato, Miau para quem segue o seu trabalho de ilustrador. Aliás, uma colaboração com Sérgio Mendes para outros projetos é uma forte hipótese. “Tenho o sonho de participar em projetos de outros autores, mas tenho histórias minhas”, diz Elias Gato.

Foi como ligar um botão e entrar numa esfera de êxtase, de comer muito mal, dormir muito pouco. Até calhou bem o meu irmão e cunhada irem de férias e eu pude ter a casa só para mim e desarrumar tudo”

É o caso de “A Incrível História do Senhor Solitário”, “uma história escrita e ilustrada por mim, mas falta ainda o design, rever cores e procurar uma editora”, diz, lamentando a dificuldade que é ser aceite para publicação. O também assumido “desempregado do ensino” ganha a vida a trabalhar na área da edução. Primeiro no Museu da Eletricidade e atualmente na exposição Real Bodies, na Cordoaria Nacional.

Mas o que ele gosta mesmo é de ilustração e de texto. Tanto que no ano passado Miau já tinha tentado concorrer ao Prémio, na variante variante texto, mas não conseguiu acabar a proposta a tempo. Este ano, foi quando viu a vitória de Orlando que decidiu insistir. Embora pensasse que tinha muita bicharada, gostou logo. “Costumo desenhar bonecos, mais humanizados, e pensei: ‘Isto vai dar-me cabo da cabeça!’.”

Mas aos poucos começou a desenhar e reparou que estava a fazer aquilo com muita facilidade. “A história até tem muito que ver com a minha infância – em Castro Marim, onde vivi até fim do secundário, e onde se realiza a Feira Internacional do Caracol. E tudo começou a fazer muito sentido”, diz. Elias Gato teve de adaptar o seu registo aos materiais e ao tempo de que dispunha.

“Fiz um misto de desenho analógico e digital: a preto e branco, só com linhas e manchas, passeio-o para computador e depois pintei.” “Parti a cabeça para fazer a proposta, fiquei com dedos calejados e os pulsos doridos. Revi tudo muitas vezes, vi em três dimensões”, lembra. Foram duas semanas a trabalhar compulsivamente, de manhã à noite. “Foi como ligar um botão e entrar numa esfera de êxtase, de comer muito mal, dormir muito pouco. Até calhou bem o meu irmão e cunhada irem de férias e eu pude ter a casa só para mim e desarrumar tudo.”

Durante o processo, curiosamente, também Elias foi sendo visitado por bichos, “grande parte à noite, moscas sobretudo, e, no trabalho, no Museu da Eletricidade [onde foi mediador], uma lagartixa atirou-se para cima de mim. E até pensei: ‘Será isto um sinal?’”. E foi, agora revelado, através da conquista de um prémio de 25 mil euros, que lhe vai permitir comprar melhores materiais, formação e um computador.

“Fiz a proposta com o computador do tempo da faculdade – uma epopeia.” Não menor do que foi entregar a proposta e o site do Pingo Doce não funcionar. Várias tentativas depois e muito nervosismo lá conseguiu. Moral da história: tudo vale a pena quando a paixão é grande e a determinação ainda maior.

No âmbito deste concurso, o Pingo Doce recebeu cerca de 4 mil candidaturas vindas de todo o país. “De onde vêm as bruxas?” e “Orlando – O Caracol Apaixonado” venderam, em conjunto, mais 20 mil unidades, “tendo tido uma grande aceitação por parte das crianças portuguesas”, refere a insígnia da Jerónimo Martins.

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