Turismo

Wonderoute: Quando o plano da viagem é feito pelos locais

Tiago Araújo e Pedro Gonçalves são dois dos três sócios da Wonderoute. Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens
Tiago Araújo e Pedro Gonçalves são dois dos três sócios da Wonderoute. Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens

Três portugueses criaram uma plataforma que liga locais a viajantes

Acabado de aterrar numa cidade do norte do Irão, Tiago Araújo, 26 anos, não sabia o que pensar. Na rua estava muito calor e, por isso, mal chegou ao hostel vestiu uns calções – a peça de roupa mais fresca que levava na bagagem – e saiu para dar uma volta pela cidade. Mal saiu para a rua, sentiu-se observado.

“Ao atravessar a estrada, um carro trava repentinamente e o condutor dirige-se a mim naquilo que parecia um insulto. Continuo a andar e as pessoas a cochichar. Perco-me, acontece novo insulto e decido entrar numa loja. O senhor, simpático e mais virado para o turismo, explica-me finalmente: os calções são proibidos aos locais. E eu, tinha sido confundido com um”.

Nesse momento, Tiago decidiu comprar duas calças de cores diferentes. Saiu da loja e, de repente, era um deles. “Ninguém me chateou mais, mas vi ali o verdadeiro valor de um projeto como o da Wonderoute”, a startup que acaba de criar com os sócios José Mendonça, 38 anos, e Pedro Gonçalves, 30.

A plataforma apresenta uma forma diferente de planear viagens: recorrendo à Wonderoute, os viajantes passam a contar com uma ajuda preciosa na organização da sua viagem, os próprios locais do destino para onde estão a viajar. Isso, além de facilitar o planeamento, é o garante de que um utilizador da aplicação jamais será insultado no Irão ou noutro sítio qualquer do mundo por causa de uma peça que decidiu vestir. Ou de outro mal-entendido.

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Tiago, José e Pedro conheceram-se na empresa em que trabalhavam. Resultado das viagens que os levaram a conhecer cerca de 30 países nos últimos quatro anos, Tiago falou aos colegas sobre a ideia de criar um negócio que ajudasse a resolver um problema que, percebeu, “talvez não fosse de uma só pessoa mas de muita gente”. À mesa, só ouviu entusiasmo.

“Nas últimas viagens que tinha feito cheguei sempre ao sítio sem grande planeamento e terminava a viagem com a sensação de que talvez não tivesse aproveitado tudo como deveria, por falta de planeamento. Investir dinheiro em hotéis, em comida e depois perder o mais importante”, justifica Pedro.

Por isso, no dia em que ouviu Tiago a falar da ideia, o matemático decidiu que queria arriscar. E não foi preciso muito para também convencer José, engenheiro informático, a fazer o mesmo. Começaram, nos tempos livres, a investigar sobre o assunto. E, em setembro, decidiram despedir-se ao mesmo tempo. “Esse tipo de histórias de pessoas que trabalham nos tempos livres e desenvolvem negócios vem muito de Silicon Valley mas, na nossa opinião, as empresas portuguesas ficam pouco à vontade com coisas extra-trabalho. Não há ainda essa cultura cá”, explica Tiago.

O primeiro dia de um negócio próprio chegou sobre a forma de viagem: ainda sem nome, plano de negócios ou ideia exatamente definida, meteram-se num avião e aterraram em Dublin, para assistirem à Web Summit. Estavamos em novembro. “O nosso objetivo era discutir o tema com gente que realmente conhece, tentar validar com o máximo de pessoas possível, aproveitar alguns workshops e ir buscar um pouco da cultura startup que não tínhamos de maneira alguma”, explica Tiago, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Tiago e Pedro estiveram na Web Summit para validar o conceito da Wonderoute. Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens

Tiago e Pedro estiveram na Web Summit para validar o conceito da Wonderoute. Fotografia:
Orlando Almeida / Global Imagens

Regressados a Portugal, foi altura de pôr mãos na massa. “Fomos atrás de mais estatísticas, números de que precisávamos. Queríamos saber do que precisávamos para a nossa primeira aproximação ao mercado, para o nosso primeiro pitch. Chegámos à conclusão de que, em média, as pessoas demoram até 15 dias a organizar as suas viagens. E que dessas, 50% sentem-se frustradas com todo o processo. Sabemos que há aqui um problema grande e que há muita gente a tentar encaixar-se neste problema. E quisemos ser uma plataforma para as pessoas que viajam”, detalha. Na sequência dos primeiros trabalhos e ideias, surgiu a Wonderoute, a possibilidade de uma viagem planeada por um local.

“A ideia foi logo essa e começámos a desenvolver a plataforma”, conta Pedro. Para isso, precisaram de reunir um número suficiente de locais disponíveis para organizar os guias de viagem com a qualidade que os fundadores queriam. E aí surgiu um dos primeiros desafios: como selecionar locais capazes de escrever em inglês, que conhecessem as regiões como a palma das mãos e que conseguissem adequar-se aos perfis dos clientes Wonderoute?

“A primeira coisa que fizemos como teste foi pôr um anúncio de emprego. Só que como o fizemos num sítio grátis, de cada 100 candidatos, aproveitam-se 10 com as características que precisávamos”, recorda Tiago.

Por isso, a validação foi feita de outra forma: a equipa foi à procura de bloggers e de outras pessoas que produzem conteúdos e que tenham relevância (parâmetro calculada com base no número de seguidores e de visitas ao blog, por exemplo), e falaram com essas pessoas sobre o interesse delas em aderir à nossa plataforma.

“Conseguimos convencer muitas que acharam a ideia brilhante e o trabalho delas, além de já ter sido validado através de trabalho prévio, foi avaliado numa amostra”. O processo demorou menos de quatro meses. Pedro explica a pressa: “Sabíamos que era importante ter um produto para lançar rapidamente, testar e validar no mercado”.

A plataforma funciona de maneira simples: um turista/viajante entra no site, seleciona os principais detalhes e interesses na sua viagem, hora de partida e de chegada, o que procura. No final confirma tudo o que inseriu e faz o pagamento.

Do outro lado, o especialista local recebe o pedido e começa a montar o plano personalizado e a data de entrega tem em conta a data da viagem. O plano de viagem é entregue à Wonderoute que valida o conteúdo e o entrega ao viajante, que pode consultar o plano de viagem através de mecanismos como tablet, telemóvel e computador.

“Goza a viagem e, no final, dá uma avaliação que vai ter em conta o local expert, a própria viagem, entre outros fatores”, esclarece Tiago. A plataforma escolhe o local expert mais indicado para cada utilizador, segundo critérios que variam mediante a localização e o rating da avaliação.

A Wonderoute faz também match entre o perfil do viajante e o do local, tendo em conta os interesses pessoais de cada um para poder adequar cada plano aos gostos de cada cliente. “Se és vegetariano, uma pessoa de 50 anos provavelmente não conseguirá ajudar-te de forma alguma”, detalha Tiago.

O plano de viagem inclui sugestões, desde o momento que se chega ao aeroporto ao minuto em que se volta a embarcar. “Todas as horas, recomendações de hotéis, restaurantes, sugestões de transportes. Tendo em conta todos os fatores: o budget disponível, o tempo que faz nesse dia, o dia da semana, as atrações abertas, dicas locais para que a pessoa possa desfrutar ao máximo da viagem”. Tanto é que já há locais a recomendar: há determinado sítios onde o melhor plano é perdermo-nos. “Não te preocupes, perde-te por aí”.

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