Ministério dos Negócios Estrangeiros

Zaask. De tarefas percebem eles

Luís Pedro Nunes, fundador da Zaask
Luís Pedro Nunes, fundador da Zaask

Um dia, Luís Pedro Nunes recebeu uma proposta de um advogado que queria ser cozinheiro. “Aqui ele tem a oportunidade de se inscrever como cozinheiro e pode, nos tempos livres, ir tentando. Se tiver sucesso, um dia muda”, explica o fundador da Zaask.

A plataforma online criada no início deste ano é uma autêntica montra de tarefeiros e anunciantes, mas muito longe das folhas de classificados dos jornais.

“As empresas não querem ter custos fixos porque reduz o risco. A Zaask funciona, não só para pessoas desempregadas – para trabalharem na área delas – como para outras, que trabalham nas suas áreas mas sempre quiseram experimentar outra coisa. Esta crise está a mostrar isso: acabaram os empregos das 09.00 às 05.00. E isso tudo está a ser substituído pelo trabalho. Está a haver uma evolução: as pessoas cada vez mais querem ser livres, independentes, fazer aquilo que gostam. Acho que as pessoas percebem que se não fizerem aquilo que gostam não vão ser boas. E uma pessoa só pode ser muito boa se gostar daquilo que faz”, diz Luís Pedro.

Por isso, além de a Zaask permitir fazer aquilo que se gosta, revela um regresso às origens e a profissões mais tradicionais como eletricistas, canalizadores ou simples arquivistas.

Mas a Zaask não é só a oportunidade de mudar de carreira lentamente. É também uma chance de os desempregados conseguirem reagir à crise. Luís Pedro Martins estudou Economia na Universidade Católica. Viajou pelo mundo graças ao surf e, foi numa dessas viagens que conheceu o sócio do primeiro negócio que criou: uma empresa de turismo que tinha como principal objetivo vender o Brasil.

“Portugal recebe 12 milhões de turistas por ano. É dos poucos países do mundo que recebe mais turistas do que o número de habitantes. O Brasil recebia 4 milhões por ano. Era um desperdício e uma excelente oportunidade”, recorda Luís.

A empresa cresceu e, um dia, Luís estava numa reunião na Galp, onde trabalhava, quando percebeu que não conseguia acumular trabalhos. “Estava uma pessoa a ligar-me insistentemente porque tinha o voo atrasado. Tive de parar”, recorda. Na empresa, Luís foi aprendendo mais sobre otimização de processos e percebeu que, se algum empreendedor se lembrasse de alguma solução para eliminar o desperdício da vida das pessoas, poderia ter sucesso. “Quando eu disse isto ao meu pai, ele disse-me ‘mas tu perdeste a cabeça?’ A castrar qualquer iniciativa empreendedora. Mas mostra bem qual é a cultura. Era um trabalho para a vida, um patrão que nos paga, o Estado, tudo culpado menos nós. Isso está a mudar.”

Esse foi o primeiro passo para a criação da Zaask. “Se virmos bem, no dia a dia fazemos muitas coisas, mas muitas delas não nos dão gozo, não nos dão prazer ou não nos trazem dinheiro. Só atrapalham. Nós poderíamos delegar essas tarefas e, por um preço muito razoável, tê-las feitas por pessoas que as fariam contentes e felizes da vida”, explica.

A Zaask é isso mesmo: uma plataforma onde askers e taskers se associam para reduzir o desperdício. Um asker precisa de qualquer coisa e põe o anúncio. Os taskers inscritos e indicados para executarem essa determinada tarefa são avisados dessa necessidade e podem responder com uma proposta. Está nas mãos do “anunciante” decidir o tasker que melhor se adequa às suas necessidades – seja pelo preço, portfólio ou características da oferta e, só depois de o asker dar a tarefa por terminada, o tasker recebe o dinheiro. Além disso, cabe ao asker dizer no site da Zaask o que achou do seu tasker.

“Este sistema de avaliações é muito importante porque é o grande incentivo para as pessoas fazerem a transação via plataforma. A avaliação vale porque aumenta drasticamente a possibilidade de ganhar mais tarefas. No fundo é um marketplace que funciona peer-to-peer [par a par]. E essa é uma das grandes vantagens, do ponto de vista do asker, quando comparamos a Zaask com outros modelos que existem”, diz Luís Pedro. O site tem quase 10 mil utilizadores dos quais 40% são askers e 60% taskers.

Só no primeiro mês, a empresa registou 10 mil euros em transações. Luís Pedro quer fechar o ano com transações no valor de 100 mil euros, só no mercado português. As inscrições são gratuitas. “É uma questão de escala. Se estivéssemos a olhar para Espanha, esses 100 mil transformar-se-iam em 500 mil. Se conseguirmos França, Itália, Grécia, Benelux… O céu é o limite. Este é um negócio que pode progredir muito e depende também da nossa sorte. Se houver financiamento será mais rápido.” Luís Pedro acredita que Portugal é um mercado em que se consegue chegar facilmente às pessoas, mas não é um mercado muito grande. Não o suficiente.

“O nosso objetivo é expandir internacionalmente, uma economia de escala muito boa. Temos a plataforma, eventualmente temos de ter o apoio local, muito poucos recursos. Tem que ver com a nossa política de financiamento. Queremos um parceiro ou investidor que nos permita crescer em escala”, diz.

Na Zaask trabalham dois sócios e mais quatro pessoas, duas em part-time e outras duas a tempo inteiro. Com doze horas diárias de trabalho, em média, Luís Pedro diz que os fins de semana são uma miragem. E até chega a confundir trabalho com lazer. “Neste momento, eu e toda a equipa estamos a trabalhar praticamente à borla. E com um sorriso na boca. Os empreendedores têm esta questão: é que são pobres, trabalham que se fartam, mas andam contentes. Acho que tenho boas possibilidades de ter sucesso. So far so good. Às vezes nem noto que estou a trabalhar.”

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