Fosso entre ricos e pobres

Os brinquedos preferidos das crianças são estes (e não é uma história feliz)

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A Dollar Street é o novo projeto da Fundação Gapminder. E através de fotografias, deixa-o visitar famílias de todo o mundo com rendimentos díspares

Primeiro tentaram mudar o mundo com números. Depois, com pessoas. A Dollar Street é o novo projeto da Gapminder Foundation, uma organização não-governamental sueca que se tem empenhado em ensinar o mundo a compreender as suas diferenças através de estatísticas. Mas como os números são frios, a fundação que Hans Rosling criou com o filho e a nora deu o passo seguinte, um verdadeiro ovo de Colombo: transformou o trabalho de fotógrafos em dados.

E no seu site quando tentamos perceber a realidade do que é viver no Burundi com 27 dólares por mês, em vez de gráficos e tabelas, vemos a foto da família Butoyi, uma família de 4, monoparental, que sorri para a fotografia sem que nos seus rostos se desenhem dramas.

Imelda, a mãe, tem 41 anos e três filhos: Patrick com 13 anos, Eric com 7 e Landri com 4 anos. Tem também uma filha, a Chantal, mas essa vive longe, com um tio, história sobre a qual não nos contam mais detalhes. Imelda trabalha 60 horas por semana, recebe 27 dólares por mês (90 cêntimos por dia) e é com esse dinheiro que a família pode viver num T1, que eles próprios construíram.

Imelda e os filhos não têm água nem eletricidade e o poço mais próximo fica a 40 minutos de distância. Nesta casa, onde a casa de banho fica na rua, 80% dos rendimentos são gastos em alimentação que é depois cozinhada numa fogueira. Por isso mesmo Imelda passa muito do seu tempo a apanhar lenha: 14 horas por semana.

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Foto: Johan Eriksson for Dollar Street

Da família de Imelda – a que vive com menos dinheiro por mês entre as 200 casas visitadas até agora em 50 países – sabemos mais algumas coisas, sempre em formato de imagem: onde é a porta da casa de banho, como são a pasta e as escovas de dentes, os sapatos preferidos e onde as mãos são lavadas.

 

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Anna Rosling Rönnlund sonhou com este conceito, como explica no site. Durante 15 anos o seu objetivo diário era tornar o acesso a informação estatística mais fácil para todos, mas por muito que os gráficos coloridos da Gapminder ajudassem a afinar a visão do mundo, ainda havia uma barreira.

Os números não são caras e era impossível transmitir com curvas e tabelas o que é o dia-a-dia de pessoas com diferentes níveis de rendimento. Ainda mais, diz, se viverem do outro lado do mundo: “As pessoas de outras culturas são muitas vezes apresentadas como assustadoras ou exóticas. E isto tem de mudar. Nós queremos mostrar como as pessoas realmente vivem. Parecia natural usar fotografias como dados para que as pessoas pudessem ver por si próprias como a vida é com diferentes níveis de rendimento. Dollar Street deixa-vos entrar em muitas, muitas casas do mundo. Sem viajar.”

O conceito acaba por ser bastante simples, como é explicado: “Imagine o mundo como uma rua. Todas as casas estão alinhadas por rendimento, os pobres à esquerda e os ricos à direita. Todos os outros estão algures pelo meio. Onde é que viveria?”

Para que o projeto seja possível, são precisos fotógrafos. Até agora foram recolhidas imagens de 200 lares em 50 países mas a ideia é continuar. Cada fotógrafo passa um dia com a família e tira imagens de até 135 objetos – para além dos que já falamos na família de Imelda, há imagens dos animais de estimação, do quarto, da cozinha, do telhado, da próxima coisas que a família pretende comprar, dos brinquedo favoritos das crianças.

(Veja as imagens das crianças e dos seus brinquedos percorrendo a fotogaleria.)

Ainda no Burundi, o brinquedo preferido do filho de três anos da família Kabura é um pedaço de milho seco. Na Índia, na família Chowdhury, o brinquedo preferido de um dos quatro filhos de Suresh, um coletor de fruta que vive também com a mulher, é uma garrafa. No Burkina Faso, na família Kabore – que vive com os mesmos 29 dólares por mês que as outras duas famílias – umas das seis crianças da família de nove elementos (inclui uma avó) gosta de brincar com pneus usados.

Para a Dollar Street continuar a crescer, a Gapminder desafia mais fotógrafos a juntarem-se ao projeto, visitando mais casas em mais países. Ainda não há nenhuma família portuguesa.

Como tudo começou

“Consegue-se fazer qualquer coisa conversando com as pessoas, ouvindo as pessoas e conversando com a intelligentsia da comunidade.” A frase é de Hans Rosling, o sueco que em 2009 foi considerado um dos 100 mais importantes pensadores do mundo pela Foreign Policy Magazine e em 2011 uma das 100 pessoas mais criativas no mundo dos negócios pela the Fast Company Magazine.

Em 2005 Hans Rosling criou com Ola Rosling, seu filho, e com a nora Anna a Gapminder, fundação que desenvolveu o Trendalyzer, um software que converte estatísticas internacionais em gráficos interativos. Em 2007, a Google comprou o Trendalyzer.

Pelo caminho Hans Rosling foi consultor de muita gente e de muitas organizações: da ONU, de Mark Zuckerberg, de Al Gore, de Fidel Castro, de Melinda e Bill Gates. A mulher do fundador da Microsoft disse sobre Rosling: “Tê-lo como professor é uma das maiores honras do mundo.”

E o que é que este médico, académico, estatístico e orador profissional tem feito nos últimos anos? Bom, tem andando a juntar a informação que outros recolheram e a tentar partilhá-la, tornando-a livre e gratuita, para todo o mundo. “Os campus estão cheios de pessoas que vivem no seu mundo e que defendem coisas que nem sequer percebem”, disse numa entrevista.

E é essa luta contra a ignorância que o leva a criar a sua fundação “um fact tank não um think tank”, como explica no site, uma fundação para combater ideias feitas, erradas e preconceituosas sobre o desenvolvimento global. Como? Criando ferramentas, apoiadas em dados estatísticos credíveis, que tornem o mundo simples de entender.

Veja o vídeo em que Hans Rosling explica se salvar todas as crianças pobres vai levar ao excesso de população. Spoiler Alert. Não vai.

 

A santa ignorância

“Em vez de perdermos o nosso tempo a condenar os media ou a culpar o cérebro humano, desenvolvemos ferramentas de ensino para desmontar equívocos e promover uma visão do mundo baseada em factos.”

É assim que no site da fundação se explica o que a Gapminder faz. E como é que ela mede a ignorância das pessoas? Fácil: comparam o que as pessoas pensam com estatísticas oficiais. Para isso, desenvolvem inquéritos e fazem questionários ao vivo às audiências que aparecem para ouvir os oradores da família Rosling.

Por último, a Gapminder promove a Factfulness, uma nova maneira de pensar o mundo e a sociedade e que é definida como “o hábito relaxante de ter opiniões que são baseadas em factos sólidos”. No fundo, é bastante simples.

Veja o vídeo como não ser ignorante sobre o mundo, de Hans e Ola Rosling

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