A Alice caiu no buraco

É um privilégio e terror assistir a isto. É também a resposta a uma questão: como é que tanta gente apoiava Salazar? Como é que Hitler foi eleito?

Sento-me na varanda a ver o sol nascer neste dia que ficará para a história. Sim, o Web Summit em Portugal é catita, e eu gostava muito de assistir a essas palestras de oradores que ficaram ricos com startups de garagem e às conversas de final de noite nos pubs que agora parece que temos em Lisboa.

Mas divago. A história que vejo desenhar-se neste horizonte soalheiro é a de uma eleição que não só deixará marcas profundas nos Estados Unidos, o meu país adoptado, como também um pouco por todo o mundo. Porque a realidade que foi exposta nesta campanha a que assisti no último ano e meio não terminará com o encerramento das urnas, e o futuro estará cheio de lixo para varrer.

Não me refiro apenas ao enxotar dos racistas que vieram vomitar as suas ideias xenófobas porque o candidato republicano lhes deu respaldo para isso. Nem ao sufocar das ideias misóginas que certa parte da América tradicionalista, velha e religiosa andou a bufar nos últimos tempos. Quero dizer que será preciso um grande esforço para resgatar as Alices todas que caíram pelos buracos de uma realidade alternativa – e falsa, apesar de tão fantástica quanto a do País das Maravilhas.

Poderia dizer que a culpa é do Coelho (laranja, não branco), mas isso seria simplificar a situação e atribuir demasiado crédito a alguém com tão poucas qualidades de liderança, competência e sucesso na tarefa de ser um ser humano decente como Donald Trump. Não. A culpa não é dele; Trump espreitou pela toca do coelho, tirou notas, e começou a lançar barro à parede a ver o que colava.

Esta toca pode ser encontrada nos fóruns da direita alternativa (Alt-Right), em vídeos do YouTube, em documentários que “expõem” verdades escondidas, em grupos de Facebook onde os utilizadores se alimentam mutuamente de imbecilidade e nos sites disfarçados de meios de comunicação que publicam disparates e falsidades de forma sistemática.

Comprovei, em inúmeras conversas com apoiantes de Trump, apoiantes de Clinton e haters dos dois, que não é muito difícil cair pelo buraco e entrar neste campo de distorção da realidade – que a última vez que foi útil foi na Apple de Steve Jobs.

Existe uma desconfiança fundamental dos meios de comunicação tradicionais, das suas motivações, da qualidade dos jornalistas, das relações entre eles e as empresas e políticos. Aqui há uns seis ou sete anos começou a falar-se intensamente do “jornalismo de cidadão”, facilitado pelo Twitter e pelas ferramentas de transmissão em tempo real, que permitiriam eliminar este intermediário que são os meios de comunicação social.

Acontece que os últimos anos trouxeram a tempestade perfeita. A explosão do ruído tornou fácil a qualquer agrupamento de bufões montar sites com a aparência de um meio de comunicação legítimo; o domínio do Facebook originou uma concorrência abjecta pelos 5 segundos de atenção dos utilizadores, o que por sua vez tornou o clickbait uma corrida dos últimos. Por cima de tudo isto, uma rejeição do “especialista”, um escoriar do intelectual com experiência, e um ódio mortal aos políticos de carreira – como se fosse melhor ir buscar um empresário falhado que nunca escreveu uma peça legislativa e não tem qualquer ideia de como funciona um governo para o liderar.

A busca pelos factos, a investigação, a verificação de citações e da origem das informações não são actividades que a maioria dos leitores execute diariamente. Ou que as pessoas por detrás do Breitbart e do National Enquirer considerem necessárias. São coisas que aprendemos nas aulas de Deontologia e que todos os jornais onde trabalhei tomam como princípio a proteger – ainda que haja atropelos à nobreza do jornalismo, essa é sempre a âncora que tentamos não perder.

Não é difícil perceber quando é que a Alice se espetou pelo buraco abaixo. Contam-me histórias mirabolantes que já li num desses fóruns de idiotas. Vendem-me “factos” que já investiguei e não aconteceram, mas aparecem constantemente em memes. Disparam insultos suportados em argumentos falsos.

Não é por alguém acreditar em algo que isso se torna verdadeiro ou falso. A crença de alguém não tem impacto na história factual. Donald Trump ascendeu porque premiu todos os botões da ignorância que a Internet nos permite ter: se apenas lermos os sites que confirmam as nossas opiniões, se nos rodearmos das pessoas que concordam connosco, se engolirmos uma teoria da conspiração sem a questionar, então é fácil acreditar neste mofador quando ele diz que as eleições estão viciadas, que os média estão em conluio para o derrubar, que os mexicanos é que deram cabo da América e que os brancos são os verdadeiros americanos, não os nativos.

É um privilégio e um terror assistir a isto em directo. É também, finalmente, a resposta a uma questão que tinha há muitos anos: como é que tanta gente apoiava Salazar? Como é que Hitler foi eleito? Foi assim. Trump é uma biblioteca de notas para futuros ditadores.

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