Coronavírus

A vida possível e germofóbica num bairro de Lisboa na era Covid-19

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Ilustração animada de Mónica Monteiro

Reportagem (germofóbica) no bairro de Benfica, em Lisboa, onde a ida à farmácia ou à mercearia mais parece cenário de filme pandémico

As ruas estão quase desertas, tirando o carro ocasional. Mesmo num belo dia de sol em Benfica, Lisboa, as casas estão cheias de pessoas que, muito de vez em quando, espreitam nas janelas ou nas varandas o belo dia que noutra altura seria ideal para um passeio. Quando alguém surge na rua, todos olham, mantendo a sua distância. O perigo pode estar ao virar da esquina.

Carla usa um lenço na mão. O motivo? “Poder abrir portas e tocar em superfícies desconhecidas”. As poucas conversas são feitas com alguns metros de distância entre pessoas, para evitar germes, bactérias ou o temido vírus. Zé diz que continua a andar de carro, “porque tem de ser”, mas admite ter receio: “sei lá se por acaso tiver um acidente me vêm buscar, estão todos ocupados com os doentes e infetados do vírus, isto vai virar a selva cá fora”.

Sair de casa, do apartamento, passou a ser um desafio que cria ansiedade. O mesmo como ir ao trabalho – nem que seja para ir buscar coisas para poder trabalhar de casa. Um lenço ou uma luva na mão, além das já habituais (e cada vez mais difíceis de arranjar) máscaras tornam-se o porto semi-seguro para as saídas obrigatórias de casa.

Maria trabalha numa loja de bijuterias de bairro. Acaba de fechar a loja e não tem perspetivas de o abrir. Diz que cumpre-se, assim, os vários decretos governamentais – cada dia um mais restritivo do que o outro – para tirar as pessoas das ruas, eliminando os contactos sociais próximos ao mínimo possível.

“Sei lá se vou receber no final do mês, o patrão tem de fechar, não vende (também não viria ninguém) e eu tenho, tal como ele, uma renda para pagar e comida para comprar”, explica, preocupada: “e sabemos lá se não acontece o mesmo com as operadoras do telemóvel e da net em casa ou com a EDP”. A mesma preocupação sobre se lhe acontece alguma coisa em casa, uma queda, uma doença súbita. “Os hospitais estão no limite, cheios, lá em casa temos de ter cuidado para não precisar de cuidado”.

Bagão é um bancário reformado de 75 anos. “Já tenho dificuldades em me movimentar, mas estou mais preocupado com os milhares de velhos como eu que precisam de ajuda para ir buscar comida, tratar da casa ou de si e que, por causa de tudo isto, deixam por um motivo ou por outro, até de poder contar com a família”.

Tem alguma esperança quando lhe dizemos que há equipas de bairro recentemente criadas (SOS Vizinho) precisamente para ajudar – com os devidos cuidados e distâncias – quem mais precisa.

Maria José trabalha há vários anos a limpar alguns prédios em Benfica e a tratar dos caixotes do lixo. Admite que não estava preocupada, mas começa a ficar. “Já quase não vejo ninguém nos prédios quando limpo de manhã. Sinto-me cada vez pior nos transportes públicos, estou a vir a pé agora”.

Sobre a sua situação profissional, admite ter um vínculo precário e estar um pouco preocupada mas “até ao momento todos querem manter o serviço, embora me tenham dados luvas e máscara para correr menos riscos”. “Pior acho que estão colegas que fazem limpezas dentro das casas de pessoas, que tem sido visto os serviços todos a serem cancelados nesta altura”, admite.

Mesmo este domingo a diretora geral de Saúde pediu uma “suspensão da boa educação”, para que quem tenha de andar na rua ou fora de casa, passe (ou fale) com os outros de costas voltadas e a uma boa distância – ainda não vimos isso acontecer nas ruas de Benfica, mas é uma questão de tempo.

Desafio: ida à farmácia

Na Avenida Uruguai, a mais movimentada de Benfica, ainda há algum comércio aberto, com os funcionários à porta a ver as pessoas passar. É nessa zona que fica uma das principais farmácias do bairro – as farmácias são um dos serviços básicos fundamentais, tais como as mercearias. Uma ida à farmácia pode tornar-se num pequeno filme bizarro por si só. Mal nos aproximamos, há uma fila à porta com cerca de 11 pessoas, todas a 1,5 metros umas das outras.

Também se pode ver mensagens na porta:

“Como medida de prevenção, não é permitida a permanência de utentes em espera dentro das instalações da farmácia;

Na via pública recomenda-se que se mantenha afastado pelo menos 2 m de outros utentes;

Não há máscaras;

Não há álcool gel;

Não há luvas;

Serviço de senhas indisponíveis, atendimento por ordem de chegada”.

Estar na fila é estranho, não só porque está tudo a uma certa distância uns dos outros, como não há conversas nem sorrisos, só preocupação. Em 30 minutos de espera ninguém fala, e sempre que passa na rua outra pessoa é uma espécie de alerta, para ver se há distância e se não há nenhuma tosse ou espirro alheio. Dentro da farmácia três pessoas atendem os clientes. Há uma linha no chão para não nos aproximarmos do balcão e nota-se cansaço e desânimo nas funcionárias.

De volta à rua, é fácil perceber que há pessoas que quando passam por alguém tentam suster a respiração e respirar só quando o receio termina – o chamado spray do novo coronavírus pode sair da boca de uma pessoas infetada e dissemina-se por gotículas minúsculas que podem continuar no ar algum tempo, daí a pressa de vários países e zonas de impedir a circulação das pessoas (excepto casos urgentes).

O uso de máscaras também é variado. Um jovem leva a máscara na testa para poder fumar, numa paragem de autocarro dois senhores discutem sobre a ausência de futebol (um concordo, o outro não), um com máscara outro sem máscara, lado a lado. Na mercearia do bairro a máscara já faz estragos no nariz de uma das funcionárias (bem roçado e vermelho), no primeiro dia completo de uso.

Desafio 2. A mercearia de bairro

Junto à mercearia há nova aglomeração de pessoas. Cinco clientes esperam em fila (aqui também não há senhas), estes mais próximos uns dos outros (1 metro). Quando sai um cliente, pode entrar outro – a lotação máxima é agora três pessoas. Todos os funcionários estão de máscara e de luva. O sorriso habitual para os vizinhos deu lugar ao silêncio. “Acha que isto é mesmo pior do que a gripe? Eu ainda não acredito muito nisso, mas pronto”, diz um cliente. Uma das funcionárias admite: “só sei que nunca estive tão assustada com nada em 52 anos de vida e isto parece ser só o início”.

Os produtos habituais ainda estão presentes e é fácil de circular com tão pouca gente – nota-se o receio quando passamos por alguém. A maior diferença: os sacos do que se leva vão mais pesados. O gerente diz-nos que, para já, não estão a limitar o que cada um leva. “Cada um dos clientes habituais leva mais do dobro do que é habitual”. Para ajudar alguns dos idosos das redondezas, permitem que deixem listas de compras que vão aviando no final do dia. “Não sabemos que rumo isto vai ter…”, lamenta.

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Jardins e parques infantis em Benfica, Lisboa, são vedados com fita balizadora devido à pandemia do Covid-19. JOÃO RELVAS/LUSA

Um pouco mais à frente, um dos jardins de Benfica, com vista para o Colombo e para o Estádio da Luz, também está semi deserto, com uma particularidade: todos os instrumentos de exercício físico estão ‘decorados’ com fita balizadora ou protetora para evitar que sejam usados. Cenário distópico semelhante e desolador é o parque infantil, onde todas as diversões e escorregas para as crianças estão com as mesmas fitas e nada de crianças, também elas fechadas em casa nesta altura de Covid-19.

A funcionária da mercearia resume: “acho que isto ainda vai piorar, mas temos de estar todos juntos, estamos todos na mesma situação”.

Cenário de filme. Exemplos cinéfilos não faltam

O cenário atual parece dantesco, sem o lado negro tenebroso, mas com a solidão de vaguear perdido, com receio de tudo o que possa aparecer, isto num belo dia de sol para estar na praia ou na esplanada (ambas estão agora interditas ou fechadas, sem data para abrirem).

O cinema já nos trouxe sensações e receios generalizados destes parecidos, mesmo em belos dias de sol, mas nunca a realidade. E hoje, esta, é a realidade de milhares de ruas, praças, lojas e cidades de dezenas de países do planeta – o número de países em lockdown total continua a aumentar. Da muralha da China, ao Coliseu de Roma, Torre Eiffel em Paris, ou às ruas de Nova Iorque nunca se viu nada assim nas gerações que vivem em 2020, excepto em filmes.

Há os típicos filmes de pandemia, como Outbreak (1995, com Dustin Hoffman), 28 Dias Depois (2002, de Danny Boyle), World War Z (2013, com Brad Pitt) ou Contágio (2011, de Soderbergh e com Matt Damon e Kate Winslet). Este último tem claras semelhanças com o momento atual de Covid-19: um vírus mortal dissemina-se pelo mundo em poucas semanas, o contacto humano deve ser evitado a todo o custo. Hoje é a realidade.

Aqui Bill Murray explica os seus muitos problemas:

 

O medo de entrar no autocarro:

E para aligeirar o momento, o comediante George Carlin goza nos anos 1980 com os germofóbicos, isto numa era sem pandemia:

Larry David no filme de Woody Allen, Whatever Works, e cantar parabéns e você duas vezes seguidas:


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