E os sauditas compraram mesmo o Newcastle

João Almeida Moreira
 © AFP

Depois de pressão sobre Premier League e até Boris Johnson, os Magpies entram naquela liga única, disputada entre os russos do Chelsea, os qataris do PSG, os emiradenses do Manchester City e mais uns poucos

Há seis meses falou-se aqui neste espaço sobre a pressão que tanto o governo britânico quanto a direção da Premier League sofriam para dar o aval à aquisição do Newcastle United por um consórcio saudita apadrinhado por Mohamed Bin Salman, o príncipe herdeiro.

Com a pressão das ruas, onde os ruidosos adeptos dos Magpies faziam protestos a exigir esse aval, Boris Johnson e a Premier até lidavam razoavelmente bem. Mas com a pressão da alta finança, nem tanto, sobretudo depois de o PM receber um SMS de Salman a dizer que a relação entre os seus países "estremeceria", caso a decisão a propósito da aquisição "não fosse a mais correta".

Parece que as autoridades inglesas tomaram então a decisão "mais correta", ignorando os alertas internacionais de "sportswashing", isto é, de lavagem de reputação às custas do futebol.

Afinal, a Caixa de Pandora já foi aberta há muito: boa parte dos clubes da Premier League está nas mãos de consórcios de países com más reputações, com o Manchester City, do petróleo de Abu Dhabi, e o Chelsea, do gás da Rússia, à cabeça. No resto da Europa, o "new money" qatari comprou ainda o Paris Saint-Germain, por exemplo. Ora, os sauditas, talvez os mais ricos de todos, não podiam ficar atrás.

Nos relvados, a compra vai significar um investimento de milhões em milionários: para começar, o treinador italiano Antonio Conte; depois, atletas de clubes grandes sem espaço, como Coutinho (Barcelona), Navas (PSG) ou Lacazette (Arsenal); a seguir, craques ainda em emblemas médios, como Immobile (Lazio) ou até o cobiçado Haaland (Dortmund); e, no fim, o ataque a Salah (Liverpool) ou Mbappé (PSG), entre outros.

Com este menu, os adeptos do Newcastle, há tantos anos longe dos troféus, não podem deixar de pensar que Boris e Premier fizeram mesmo a escolha "mais correta".

Jornalista, São Paulo

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