EUA: Pelo menos quatro mortos na invasão do Capitólio

Pelo menos quatro pessoas morreram na quarta-feira na invasão do Capitólio, em Washington, anunciou a polícia citada pela agência de notícias Associated Press (AP).

A polícia da capital dos Estados Unidos usou armas de fogo para proteger congressistas e a AP já tinha dado conta da morte de uma mulher, alvejada no interior do Capitólio. A mesma força adiantou agora que mais três pessoas morreram no hospital.

A polícia também deu conta de que tanto as forças de segurança, como os apoiantes de Trump utilizaram substâncias químicas durante as horas de ocupação do edifício do Capitólio.

As autoridades acrescentaram que pelo menos 14 polícias ficaram feridos, dois deles em estado grave, tendo sido efetuadas mais de meia centena de detenções, sendo que cerca de 30 aconteceram por violação do recolher obrigatório.

A presidente da Câmara de Washington, Muriel Bowser, prolongou o estado de emergência pública na capital por mais 15 dias, até depois da tomada de posse do Presidente eleito, Joe Biden, agendada para 20 de Janeiro.

As autoridades também encontraram e desativaram duas bombas caseiras nas proximidades da sede dos secretariados nacionais dos partidos Democrata e Republicano. E descobriram ainda uma viatura no terreno do Capitólio, onde se encontrava uma espingarda e até dez bombas incendiárias, informou a cadeia de televisão norte-americana CNN.

Quatro horas após o início dos incidentes, as autoridades declararam que o edifício do Capitólio estava em segurança.

Apoiantes do Presidente cessante dos EUA, Donald Trump, entraram em confronto com as autoridades e invadiram o Capitólio, em Washington, na quarta-feira, enquanto os membros do Congresso estavam reunidos para formalizar a vitória do Presidente eleito, Joe Biden, nas eleições de novembro.

A sessão de ratificação dos votos das eleições presidenciais dos EUA foi interrompida devido aos distúrbios provocados pelos manifestantes pró-Trump no Capitólio, e as autoridades de Washington decretaram o recolher obrigatório entre as 18:00 e as 06:00 locais (entre as 23:00 e as 11:00 em Lisboa).

O debate no Senado foi retomado pelas 20:00 (01:00 de hoje em Lisboa).

As reações ao ataque no Capitólio foram quase imediatas. A líder da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, defendeu que a certificação do Congresso da vitória eleitoral de Joe Biden iria mostrar ao mundo a verdadeira face do país.

O ex-Presidente dos Estados Unidos Barack Obama considerou que os episódios de violência eram "uma vergonha", mas não "uma surpresa", dado a atitude de Donald Trump e dos republicanos.

O antigo Presidente norte-americano Bill Clinton também denunciou um "ataque sem precedentes" contra as instituições do país "alimentado por mais de quatro anos de política envenenada".

O Presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que os violentos protestos ocorridos no Capitólio foram "um ataque sem precedentes à democracia" do país e instou Donald Trump a pôr fim à violência.

Pouco depois, Trump pediu aos seus apoiantes e manifestantes que invadiram o Capitólio para irem "para casa pacificamente", mas repetindo a mensagem de que as eleições presidenciais foram fraudulentas.

O governo português condenou os incidentes, à semelhança da Comissão Europeia, do secretário-geral da NATO e dos governos de vários outros países.

Analista considera que invasão do Capitólio põe em causa democracia no país

A cientista política luso-americana Daniela Melo considerou a invasão do Capitólio, na quarta-feira, em Washington, o culminar de um processo de deterioração que põe em causa a democracia nos Estados Unidos.

"Chegámos ao momento crucial em que a democracia americana está realmente em risco", disse à Lusa a especialista, que leciona na Universidade de Boston.

"É um momento muito frágil na democracia americana. Neste momento não são só as normas da democracia que estão em causa, são as próprias instituições democráticas", considerou Daniela Melo sobre a invasão protagonizada por apoiantes do Presidente cessante, Donald Trump, para impedir a sessão do Congresso para formalizar a vitória do democrata Joe Biden, nas eleições de novembro.

Para a cientista, "houve uma intenção declarada de sedição", numa referência ao ato de incitar à rebelião ou violência contra o Estado com o propósito de o derrubar, um crime previsto no código penal com pena máxima de 20 anos de prisão.

"Se o objetivo das pessoas que entraram no Capitólio era o de um golpe, foi um falhanço total. Mas isso não quer dizer que não devamos estar preocupados pelo estado da nação, pela saúde da democracia americana", salientou a especialista, para quem o ataque teve visualmente "um impacto estrondoso" e "simbolicamente abalou o país. Hoje a América estremeceu".

A invasão conseguiu atrasar o mecanismo institucional para a validação da eleição de Joe Biden. No entanto, os membros do congresso regressaram durante a noite para prosseguir as formalidades e vários republicanos que planeavam contestar os resultados desistiram de o fazer, incluindo a senadora que perdeu o assento na Geórgia, Kelly Loeffler.

Daniela Melo afirmou que, nos últimos anos, Trump cultivou um eleitoral antipluralista, com "a conivência" do Partido Republicano.

"Estamos a ver parte desse eleitorado antipluralista, que aceita de bom grado que se subvertam as normas, regras democráticas e até a própria Constituição, a ter atitudes cultistas", salientou.

A débil resposta da polícia do Capitólio e o atraso no envio da Guarda Nacional foram alvo de muitas críticas e muitas questões.

"Ainda não temos factos suficientes para perceber o que falhou ali, mas que é espantoso, é", indicou.

"Qualquer pessoa que já tentou visitar o Capitólio, sabe que não consegue entrar nem com um carrinho de bebé. Como é que, sabendo que existiria esta mobilização e grande potencial para violências, [a polícia] não se preparou", questionou.

A mensagem em vídeo, veiculada por Trump, na qual classificou os invasores de "muito especiais", não espantou a cientista política, visto que se enquadrou no estilo habitual do governante: "Trump validou, mais uma vez, as ações de extremistas".

Nestes quatro anos de mandato, o Presidente "deu apoio e espaço à mobilização destes grupos armados. Resta perceber se isto é o início, o meio ou o fim", indicou.

Todavia, a especialista destacou a mudança de tom do Presidente norte-americano eleito, Joe Biden, que também falou à nação durante os tumultos.

"Foi provavelmente o discurso mais forte de Biden até agora, em que usou palavras fortes e que eram necessárias, para falar de insurreição e sedição", destacou.

"Vendo estes dois discursos em paralelo, com Trump não tivemos nada de novo, mas com Biden tivemos um virar de página, um novo posicionamento", adiantou.

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