Crise climática

Histórias de jovens (Greta incluída) que tentam “salvar o planeta” pela justiça

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Numa semana de manifestações por medidas contra as alterações climáticas, estes são os rostos dos jovens que estão a processar países para agirem

O discurso emocionado da jovem sueca Greta Thunberg nas Nações Unidas, na terça-feira, correu o mundo e suscitou paixões um pouco por todo o lado onde há internet. Mas um dia antes, também na Cimeira do Clima, em Nova Iorque, foi anunciado um processo judicial que promete levar mais longe as vozes dos jovens que se têm manifestado, seguindo o movimento criado pela ativista sueca de 16 anos.

Um total de 16 jovens menores de idade, onde está a própria Greta Thunberg, anunciaram que vão colocar uma ação judicial contra cinco países a propósito da sua inação em relação às alterações climáticas. Em causa está o que os jovens – e os seus representantes legais – indicam ser uma violação da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, ratificada por 44 países – curiosamente países poluentes como os EUA, Índia ou China não ratificaram o acordo.

A convenção assinada há quase 30 anos (em novembro de 1989) comprometeu os signatários a garantirem os direitos à saúde e bem-estar às suas crianças. “Cada um de nós viu esses direitos violados e negados e os nossos futuros estão em vias de ser destruídos”, disse Alexandria Villaseñor, uma jovem de 14 anos considerada a Greta Thunberg americana, na Cimeira do Clima.

A queixa sem precedentes junta 16 jovens de 12 países, com idades entre os oito e os 17 anos e tem a ajuda “pro bono” do escritório de advocacia internacional Hausfeld e ainda o apoio da UNICEF. Os países envolvidos na ação judicial são: Alemanha, França, Argentina, Brasil e Turquia – todos eles ratificaram o acordo.

E como é possível uma queixa deste tipo? Está incluída no chamado “protocolo opcional”, algo que existe desde 2014 associado à convenção e que permite que as crianças possam registar uma queixa junto do Comité dos Direitos da Criança da ONU se acreditarem que os seus direitos estão a ser violados.

Um Comité vai agora investigar as alegadas violações e, depois, pode fazer recomendações aos Estados para que sejam tomadas medidas.

(Greta Thunberg tem estado a colocar imagens das manifestações do dia – já superaram as 6600 a nível mundial – no seu Twitter)

Ação pela clima de volta às ruas

Entretanto, hoje é o culminar de uma semana de várias manifestações e greves pelo clima de jovens de 170 países – só na sexta-feira passada foram quatro milhões a desfilar em seis mil iniciativas. Em Portugal cerca de 30 localidades aderiram à ação global pelo clima.

Em Lisboa, a concentração está marcada para as 15h no Cais do Sodré, de onde os manifestantes desfilarão até ao Rossio. Em Coimbra, a manifestação realiza-se da Praça D. Dinis para a Câmara Municipal e em Ponta Delgada, o protesto realiza-se nas Portas da Cidade.

Quem são, então, os jovens e quais as histórias que alimentam a ação judicial em resposta à “crise climática”

(Os dados são do site criado para a ação judicial Climate Crisis. Pode ver as fotos dos jovens na fotogaleria)

EPA/MICHAEL NAGLE

EPA/MICHAEL NAGLE

Alexandria Villaseñor (EUA)

Alexandria Villaseñor é uma ativista de 14 anos que reside em Nova Iorque. A sua terra natal é Paradise, na Califórnia e foi lá que, em novembro de 2018, viu o fogo alastrar por cerca de 153,336 hectares, destruindo 14 mil residências e causando a morte a 85 pessoas. Alexandria começou a protestar todas as sextas-feiras desde 14 de dezembro de 2018, envergando um cartaz com a citação “School Strike 4 Climate”. Desde então, Alexandria tornou-se numa líder de estudantes ativistas das alterações climáticas nos EUA. Também lançou a sua própria organização sem fins lucrativos – Earthuprising.org.

Carl Smith (EUA)

Carl é um ativista de 17 anos e membro da tribo indígena Yupiaq – que é um grupo auto-sustentável que vive de práticas e tradições mais rudimentares (típicas da região do rio Kuskokwim, que é o nono maior rio dos EUA). As temperaturas elevadas durante todo o ano afetam a capacidade dos habitantes da região de exercerem as atividades pecuárias e também perturba a recolha de frutos e a manutenção das habitações. Esses factores climáticos mudaram a visão de Carl sobre o mundo. O jovem quis agir para melhorar as condições de vida do povo da região e mantém a esperança de manter as tradições e a cultura vivas sem ter de deixar a zona de Akiak, como tem acontecido de geração em geração.

Catarina Lorenzo (Brasil)

Catarina vive em Salvador, no Brasil. Como adepta das praias que é, cedo começou a sentir o aumento de temperatura e as devidas consequências associadas: “como a seca, falta de chuva e aumento dos fogos nas florestas e falta de água”.
A escassez de água ocorre sem alertas ou medidas do governo local e pode durar um dia ou dois. Catarina preocupa-se com as temperaturas extremas e com a mudança dos padrões climáticos. Pede a todos os líderes mundiais que respeitem os limites do planeta Terra.

Chiara Sacchi (Argentina)

Chiara vive desde sempre em Haedo, parte da região protegida de Pampa Húmeda, perto de Buenos Aires, na Argentina. Haedo por norma tem verões quentes, invernos frios e precipitação moderada. Recentemente, o clima anteriormente moderado tornou-se extremo, com semanas de calor intenso no verão e demasiado frio no inverno. Às vezes uma semana de calor intenso sente-se em pleno inverno. O clima extremo aterrorizou Chiara, que teme pelo futuro influenciado pela crise climática; essas mudanças no clima a que tem assistido inspiraram-na a falar sobre os perigos dos impactos das alterações climáticas.

Greta Thunberg (Suécia)

Aos oito anos, Greta Thunberg assistiu a um documentário na escola sobre algo chamado “alteração climática” e desde logo lembra-se de ter ficado verdadeiramente assustada. Quando o documentário terminou, os colegas de Greta seguiram em frente com as suas vidas. Mas, para Greta, tornou-se numa missão. Assim que ficou a saber mais sobre o tema da crise climática, não conseguiu “entendê-la” nem percebeu porque não era combatida. Parou de comer, parou de falar, chegou mesmo à depressão. Por fim, Greta fez todas as pesquisas possíveis para recolher informações sobre as mudanças climáticas e as suas causas. Começou a mudar os seus próprios hábitos para diminuir a sua própria ‘pegada de carbono’ e dedicou-se ao ativismo. Em agosto de 2018, começou a protestar fora do Parlamento sueco durante o horário escolar com uma placa pintada com as palavras “Skolstrejk for Klimatet” (“Greve Escolar pelo Clima”) e, assim, inspirou organizações e um movimento jovem mundial. Greta continua a voltar – todas sextas-feiras – e a inspirar centenas de milhares de crianças.

Ellen-Anne (Suécia)

Ellen-Anne é membro da Comunidade Sami e vive em Karesuando, na Suécia. O povo Sami vive e agrupa renas nas regiões árticas há milhares de anos no que é hoje a Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. A região do Ártico, onde o povo Sami dedica-se ao pasto das renas, e a outros meios de subsistência e práticas culturais ligadas à natureza é chamado de “Sapmi”. Ambos os pais de Ellen-Anne são pastores de renas, cada um a trabalhar numa comunidade Sami tradicional diferente. Ellen-Anne também quer ser uma pastora de renas quando crescer.
Recentemente, o aumento das temperaturas e das chuvas representa um risco direto para o estilo de vida sami, indica a jovem. Essas mudanças ameaçam a facilidade em conseguir alimentos no inverno, já que é agora criada uma cobertura impenetrável de gelo sobre a terra e o musgo, essenciais para a sobrevivência das renas no inverno. Essas mudanças ameaçam fundamentalmente a subsistência do povo Sami que existe há milhares de anos. A mãe de Ellen-Anne preocupa-se com a vida que os filhos e as gerações futuras podem ter.

Iris Duquesne (França)

O primeiro verão da vida de Iris Duquesne, agora com 16 anos, foi o mais quente da Europa desde 1540. Ela tinha apenas três meses quando a onda de calor mortal de 2003 varreu a França e se tornou um dos piores eventos climáticos da história do continente, causando a morte de 70.000 europeus, 15.000 em França. Como os mais vulneráveis ao stress por calor são os mais velhos, os mais jovens e os doentes, os pais de Iris estavam com medo de perder a filha devido ao calor. Quando Iris cresceu, Bordéus continuou a ser alvo de calor extremo relacionado com as mudanças climáticas. Iris pensa nas alterações climáticas todos os dias e admite sentir-se muitas vezes impotente e traída pelas autoridades. Teme o que o futuro trará.

Raina Ivanova (Alemnha)

Raina Ivanova tem apenas quinze anos e cresceu em Hamburgo, na Alemanha. Este verão, a Alemanha registou a temperatura mais alta de todos os tempos: 40,5°C. Para Raina, o calor sufocante tornou as suas salas de aula sem ar-condicionado insuportáveis, interrompendo as aulas e dificultando a concentração. As consequências das alterações climáticas perturbam a vida quotidiana, os pensamentos e os sonhos de Raina. Ela e as suas irmãs mais novas preocupam-se com o aumento da temperatura.

Raslene Joubali (Tunísia)

Há sete anos, a família de Raslene, de 17 anos, mudou-se para Tabarka, uma pequena cidade costeira perto da fronteira com a Argélia. Tabarka é conhecida pelas suas belezas naturais, praias, recifes de coral vibrantes e fácil acesso às extensas florestas de sobreiros das montanhas Kroumirie. Tabarka geralmente tem verões amenos e secos e invernos chuvosos e frios, mas Raslene está preocupado porque o clima em Tabarka mudou consideravelmente nos últimos anos: os verões tornaram-se extremamente quentes, com temperaturas superiores a 40°. Os incêndios florestais estão a aumentar. Só no ano passado, um incêndio chegou à sua cidade. A sua casa foi salva mas a dos vizinhos não.

Deborah Adegbile (Nigéria)

Deborah (Debby), 12 anos, viveu a vida inteira em Lagos, na Nigéria. A cidade geralmente tropical está a passar por mudanças significativas por causa das alterações climáticas. Lagos tem uma estação chuvosa que geralmente dura de abril a setembro, mas agora a estação chuvosa estende-se até dezembro. Sempre que chove em Lagos, a cidade fica inundada. As inundações frequentes são extremas e apresentam graves problemas logísticos e de saúde. Debby tornou-se numa defensora da proteção dos oceanos. Em junho do ano passado participou numa conferência de proteção dos oceanos e desde então tornou-se numa ativista.

Ayakha Melithafa (África do Sul)

Ayakha, de 17 anos, vive no rio Eerste, nos arredores da Cidade do Cabo, na província de Western Cape (África do Sul). A mãe de Ayakha trabalha como agricultora em Cabo Ocidental, onde as secas ameaçaram o pagamento da renda mensal, isto porque se não houver água, não podem plantar, regar ou alimentar o gado, o seu meio de subsistência. Entre 2017 e 2018 viveu-se na cidade um período de escassez de água sem precedentes. As mudanças ao seu redor levaram Ayakha a tornar-se numa ativista climática dedicada. Ela faz parte da iniciativa YouLead e atua como oficial de recrutamento da Aliança Africana do Clima.

Ridhima Pandey (Índia)

Há seis anos Ridhima Pandey mudou-se com a família de Nainital para a cidade de Haridwar, no norte, conhecida como a “área sagrada” da Índia. Todos os anos em julho, há um festival chamado Kanwar Yatra, que se realiza perto do rio Ganges. As temperaturas mais altas ameaçam agora o rio Ganges, que enfrenta a diminuição dos níveis de água devido às secas recentes – desafiando a continuação dos rituais religiosos. Nas poucas vezes em que chove, chove muito e as tempestades são cada vez mais intensas e frequentes.

Carlos Manuel (Palau, Micronésia no oeste do Oceano Pacífico)

Carlos e a sua família mudaram-se das Filipinas para Koror, em Palau (Pacífico), há nove anos. No Palau é habitual passarem-se dias inteiros na praia em família. Carlos percebeu os efeitos da crise climática quando começou a verificar o aumento da temperatura e das tempestades mais extremas. Em novembro de 2013, o super tufão Haiyan devastou a ilha de Kayangel, no norte de Palau, e Carlos lembra que os ventos incrivelmente fortes do tufão varreram toda a ilha, forçando todos a procurarem abrigo longe das suas casas.

Litokne Kabua (Ilhas Marshall)

Litokne Kabua tem 16 anos e sempre viveu na ilha de Ebeye. A sua casa fica a dois minutos a pé do oceano e ele cresceu a respeitar o papel central do oceano na sua vida e comunidade. A família de Litokne confiou no oceano para fornecer uma fonte de alimento através da pesca e conectá-los aos membros da sua família que vivem nas ilhas mais afastadas e remotas das Ilhas Marshall. A crise climática está a ameaçar o modo de vida do povo de Marshall. Litokne sabe que a sua casa e as ilhas não durarão para sempre e estão sob uma ameaça iminente da elevação do nível do mar.

David Ackley III (Ilhas Marshall)

David Ackley III mora em Majuro, capital da República das Ilhas Marshall, numa cidade chamada Uliga. David e a sua família voltaram permanentemente para Majuro há cinco anos e durante esse tempo David viu Majuro mudar. A casa, as tradições e o modo de vida de David estão em risco. Ele e a família conversam sobre alterações climáticas com frequência: é difícil evitar o tópico quando pode conseguem ver os impactos das mudanças climáticas a surgir com a elevação das águas do mar. A família de David preocupa-se com a possibilidade de terem de mudar de casa.

Ranton Anjain (Ilhas Marshall)

Ranton Anjain viveu em Ebeye, nas Ilhas Marshall, durante a maior parte da vida. Ranton aprecia o facto de crescer em Ebeye – o lhe permitiu nadar e pescar todos os dias. Os impactos da crise climática já estão a afetar Majuro. O aumento do calor provocou surtos mais frequentes de dengue, que é transmitida por mosquitos e conhecida como “febre do osso” devido à dor que pode causar. Os surtos de dengue durante o verão de 2018 e 2019 foram graves o suficiente para o governo declarar estado de emergência. Ranton preocupa-se com o que as alterações climáticas significarão para o seu futuro e discute as suas preocupações com os amigos. Sabe que as alterações climáticas estão a ameaçar o seu estilo de vida e a sua casa.

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