O erro

Os bancos caem e fazem-no com estrondo pelo mundo inteiro. O que o BES, infetado pelo Grupo Espírito Santo (GES), tem de diferente é a ligação a um grupo familiar, mas no resto é muito parecido com outros escândalos financeiros que desde 2008 são notícia regularmente.

A única vantagem destas falências em série é que aprendemos todos a gerir um pouco melhor situações que julgávamos impossíveis - e quem não o fez deve também queixar-se de si próprio, não apenas dos outros. O mito da regulação perfeita desabou para sempre. Depositantes, acionistas e até os governos sabem hoje que podem contar com o pior. Nestas coisas do dinheiro não se pode confiar em ninguém. A natureza humana é o que é.

A solução encontrada pelo Governo e pelo Banco de Portugal para o BES resulta desta evolução - a sobrevivência depende cada vez mais de uma infinita capacidade para desconfiar -, e tem o mérito de, não sendo inabalável, defender o dinheiro dos contribuintes de forma equilibrada. É falso que não haja dinheiro público envolvido na operação, mas é verdade que, havendo riscos, eles são infinitamente menores e isso deve ser sublinhado. Tivesse o BPN implodido em 2014 e teríamos sido poupados à trágica nacionalização de todos aqueles prejuízos, porque isso resulta do caminho que, entretanto, a Europa e Portugal fizeram. O governador do Banco de Portugal disse-o e isso credibiliza-o num momento de vulnerabilidade.

O que é difícil de entender, além do lento apodrecimento do GES e da reação morosa do Banco de Portugal - que terá ainda ser tirada a limpo - é o facto de o supervisor e o Governo terem esquecido uma parte da lição: estas decisões, por serem radicais, implicam que os principais atores dos sistema sejam informados no momento certo. Os principais banqueiros deviam ter sido chamados pessoalmente e a CMVM não podia ter sido esquecida. Havia primeiro que proteger o sistema (depositantes e contribuintes) e evitar uma corrida aos bancos, mas o desprezo, mesmo que inadvertido, a que foi remetida a CMVM - o defensor dos acionistas - foi um erro com custos para muita gente e benefícios talvez para alguns.

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