O terramoto

As contas apresentadas ontem pelo BES não são contas, é uma autópsia, uma condenação feroz à anterior administração e um catálogo de indícios e acusações que puseram o banco de pernas para o ar e levaram o Banco de Portugal, ainda ontem ao fim da noite, a redigir o comunicado mais violento (digo: bárbaro) da sua história.

Não ficará pedra sobre pedra no

BES. Carlos Costa sentiu-se enganado, parece ter sido enganado ao longo dos

últimos meses, e agora soltou definitivamente os cães. A ordem de purga imposta

aos administradores da anterior gestão que ainda não tinham saído do banco - e

que afetará também as linhas imediatamente abaixo - é um tiro de canhão que está

neste preciso momento a fazer estremecer o edifício da avenida da Liberdade.

Quanto às contas do primeiro semestre,

o essencial a sublinhar nesta altura (com a informação disponível...) é que a

exposição do BES às dívidas do Grupo Espírito Santo parece finalmente definida

e consolidada. Isto é: o contágio e os riscos estão, agora sim, incorporados no

balanço, talvez até contando com os piores cenários, o que significa que pelo

menos os ventos envenenados do GES terão esgotado os efeitos destruidores no

banco. Um prejuízo de 3,6 mil milhões de euros não tem paralelo em Portugal.

Traduz a derrocada da dinastia Espírito Santo e implicará forçosamente,

inevitavelmente a refundação do banco.

Há no entanto um risco que ainda

se mantém presente: o BESA, o banco que o BES tem em Angola (controla 55% do

capital), mantém-se de pé apenas porque o

Estado angolano emitiu uma garantia de 5,7 mil milhões de dólares, 4,2 mil

milhões de euros, assumindo a

responsabilidade "pelo bom e integral cumprimento das operações de crédito

executadas". Apesar desta garantia, na verdade ainda não está

totalmente excluído que estas perdas ou parte delas não se possam refletir no

balanço do BES, que financiava a operação do BESA.

Portanto, o problema é o

seguinte: Vítor Bento tem de fazer um aumento de capital que pode atingir os

três mil milhões de euros. Se os problemas do BES estivessem totalmente estancados e assumidos, apesar da enormidade do valor, a verdade é que

o BES controla um quinto do mercado bancário nacional, tem quase 800 balcões

dentro e fora de Portugal, mais de 90 mil milhões de euros em ativos e 51 mil

milhões em crédito concedido, ou seja, tem uma máquina comercial capaz de gerar

receitas. Livre do peso e dos esquemas do GES é um bom banco, um banco capaz de

gerar lucros e dividendos. Acontece que os novos investidores só entram se

confiarem que já não há mais cartas escondidas e riscos evidentes - e é isso

que o BESA ainda é: um elefante que pode afastar os investidores. Vítor Bento

tem de começar a resolver este problema. Provavelmente está disposto a sair de

Angola, mas veremos como o fará e se isso vai custar o quê ao BES.

Também é importante que Bento fale e dê

a cara. O comunicado que produziu ontem não chega, é curto em explicações. A queda das ações do BES explica-se por causa do

aumento de capital prometido (o valor das ações ficará diluído), mas o atual resguardo

de Vítor Bento não ajuda a tranquilizar investidores e depositantes. O novo CEO

não é um gestor de falências, é o novo CEO e tem de se comportar à altura dos

acontecimentos do ponto de vista público. Exige-se liderança dentro do banco (e

isso está a acontecer), mas também fora dele. Até agora compreende-se que tenha

estado 100% ocupado, mas não pode continuar muito mais tempo fechado no

gabinete.

Um último ponto sobre o governador

do Banco de Portugal. Não vale a pena inverter as coisas e considerá-lo culpado

disto tudo, mas não deixa de surpreender que tudo tenha acontecido debaixo

do seu nariz nos últimos dois anos. E mais: espanta que se tenha deixado iludir

nos últimos meses, permitindo que o contágio do GES ao BES não só não parasse

como aumentasse exponencialmente. Portanto, o Banco de Portugal falhou em parte. Talvez fosse inevitável, hoje todos sabemos que não só não há regulação perfeita como, aliás, ela é demasiado imperfeita pelo mundo fora. No entanto, há apenas três semanas o governador assegurou (deu a sua palavra) ao país que havia uma almofada de segurança no BES. Ora bem, essa almofada afinal não chega, é curta, e isso deixa o BdP não apenas

vulnerável às críticas, mas acima de tudo um pouco mais enfraquecido na sua

capacidade de tranquilizar investidores e depositantes. E isso sim é preocupante numa altura destas.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de