Opinião. O inferno dos turistas

Há que celebrar o facto de o país estar na moda, porque não estará sempre.

Há meses que andava a ler desabafos nas redes sociais sobre o inferno de turistas que desceu sobre Lisboa. Da maçada do trânsito, aos restaurantes à pinha. Dos passeios cheios de gente, à poluição sonora e visual dos famigerados Tuk Tuk.

Preparei-me para o embate no regresso a Portugal, ainda por cima no Verão; esperava um cenário semelhante ao estacionamento do Colombo dois dias antes do Natal. E quando finalmente cheguei a Lisboa, como boa expatriada que vem passar o querido mês de Agosto à terra, fiquei esclarecida. É tudo uma questão de perspectiva.

Suponho que ninguém aprecie o pára-arranca da hora de ponta, nem os preços exorbitantes de um café nas zonas mais turísticas. Suponho que quem vive em Lisboa e no Porto tenha realmente sentido uma degradação da sua qualidade de vida nos últimos anos, proporcional ao aumento do fluxo de turistas e ao súbito interesse que se gerou lá fora (Lisboa é a nova Berlim, o Porto é a Portland de Portugal, etc.) Mas não era precisamente isto que andávamos a tentar há anos? Que vissem nas nossas cidades a beleza que nós vimos, que descobrissem os sabores da nossa comida, que se maravilhassem com os monumentos que resistiram à história secular deste rectângulo?

Não era a recuperação económica que queríamos, o crescimento das exportações de serviços, a possibilidade de vender aos de fora o que os locais não têm tempo ou vontade de consumir?

Mais: comparada com a realidade que se tornou a minha nos últimos três anos, em Los Angeles, Lisboa está fabulosa. Eu achava que o IC19 era infernal até descobrir a 405 em LA, onde é perfeitamente natural haver trânsito até à meia-noite. A hora de ponta é sempre. A zona do Passeio das Estrelas, que circunda a Hollywood Boulevard, é pior que uma noite de Agosto em Albufeira com 25 graus em que estão a oferecer gelados Santini e posteres autografados do Luis Fonsi. Qualquer buraco onde se enfie o carro é pago imperialmente. Os transportes públicos são parcos e limitados. Um vodka-laranja custa 14 dólares em qualquer bar ou discoteca. Os preços anunciados são sempre antes de impostos, o que não raras vezes gera surpresas desagradáveis. Nos restaurantes, é o consumidor que paga o salário dos empregados com as gorjetas. Nunca há caixas automáticas do nosso banco e se usarmos outras pagamos uma taxa de 3 a 5 dólares por levantamento. É tudo caro, é tudo longe e está sempre tudo cheio. Porque é LA, porque é Santa Mónica, porque é Hollywood. Porque há ali coisas que não se encontram em mais lado nenhum; porque são lugares mágicos.

Da mesma forma que Lisboa é única, que o Porto é diferente, que Portugal vale a pena descobrir. Há que celebrar o facto de o país estar na moda, porque não estará sempre. Há que aprender agora a melhorar a indústria de serviços e a corrigir já esses problemas dos Tuk Tuk, dos autocarros gigantes nas ruas estreitas, dos restaurantes que cobram 500 euros por uma refeição de bacalhau, do trânsito que atrasa quem anda ali a trabalhar e não a passear. Mas não se metam nisso de detestar turistas e desprezar as reportagens que saem no New York Times sobre a Bica, ou achar que é incrível que um americano não saiba onde é Portugal e depois vociferar contra eles quando aterram na Portela de câmara ao peito.

Nunca vamos ser Paris. Nunca vamos ser Las Vegas. Bênção ou maldição, a nossa condição periférica é aquilo que nos permite ser eternamente redescobertos.

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