Portugal tem excelente oportunidade para absorver produção da China

O presidente da CIP considera que a relocalização industrial pode beneficiar Portugal. Já para João Duque tudo depende da orientação de Bruxelas.

Até que ponto a crise pandémica pode vir a transformar-se numa oportunidade para as empresas nacionais? Para o economista João Duque, tudo depende do montante e da orientação que a Comissão Europeia vier a dar aos fundos libertados para apoiar a recuperação económica. “Nessa orientação estará subjacente uma concepção da Europa”, considera. Assim, “não é indiferente fazer o investimento numa lógica de relocalizar na Europa indústrias que foram para a China ou continuar nessa senda e investir em setores que não reponham algum equilíbrio nas dependências entre a Europa e a China", defendeu.

João Duque falava na última quarta-feira no Estado da Nação, o programa da TSF e Dinheiro Vivo, em parceria com o Santander, onde participaram igualmente o presidente da CIP, António Saraiva, e o economista-chefe do Santander, Rui Constantino.

Todos acreditam que esta crise pode e deve ajudar a redesenhar o equilíbrio de forças entre as potências mundiais. "Até ficamos boquiabertos quando verificamos o quão dependentes estamos de outras geografias para tudo: 80% da base de medicamentos baratos como analgésicos vem da China”, exemplificou o economista.

Também António Saraiva considera que “nada ficará como antes, pois esta crise traz-nos a constatação da elevada dependência que temos, nomeadamente, da Ásia". Mas, na sua opinião, "as empresas globais tenderão a preferir lucros mais baixos e não darão tanta prioridade ao baixo custo e ao off-shoring, mas vão preferir a resiliência, recorrendo mais à proximidade, com mais estabilidade”.

E neste campo identifica “uma excelente oportunidade para Portugal, com uma produção mais perto dos mercados, porque as tecnologias hoje são globais”. O líder da CIP considera que esta crise vai obrigar os países a inverterem os erros estratégicos que se cometeram de desindustrialização na Europa e em Portugal e na deslocalização para a a China.

Na mesma linha, Rui Constantino refere que o produto português “não é o low cost , mas em termos relativos, tem uma excelente relação qualidade/preço, sendo mais baixo que a média europeia”. Por essa razão, o responsável do Santander acredita que “podemos dizer que temos capacidade de absorver alguma produção que vinha de outros mercados, seja da China, da Ásia em geral, ou de outros países”. Rui Constantino refere que a marca Portugal já conseguiu evoluir em termos da cadeia de valor para uma percepção de produto de qualidade. Por isso, “se as empresas continuarem a ganhar escala, conseguirão reforçar o seu poder negocial, o que será muito importante para o relançamento”.

Por outro lado, o economista admite que “com esta crise, os padrões de consumo também se vão alterar e os consumidores vão procurar um produto menos descartável, mais duradouro”. Esta transformação conjugada com este processo de relocalização para a Europa “pode ser importante para relançar o crescimento na Europa e em Portugal, fazendo que 2021 seja já um ano com perspetivas positivas”, estimou.

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