Sites de notícias em Portugal falseados para promover Bitcoin. Como reportar

Notícias falsas do que parecem ser os sites do Público ou do Eco (devem existir outros) prometem dinheiro fácil usando Bitcoin. Explicamos como identificar as fraudes, como reportar às autoridades e como as Bitcoin, ainda “por regular”, são alvos fáceis nesta era digital.

Imagine-se a passear pela internet numa noite destas, entre redes sociais, pesquisa no Google ou troca de mensagens, reparar num conteúdo que lhe interessou e, por baixo, em zona de conteúdos patrocinados, há um artigo que aparenta ser do jornal português Público com o título: A pessoa mais rica de Portugal anuncia a sua receita do sucesso. Ao abrir, o artigo com o aspeto do site do Público fala de pessoas e entidades respeitadas em Portugal para legitimar um serviço “milagroso” de Bitcoin está a tornar pessoas milionárias com taxas de lucro de 80%.

Esta é uma notícia falsa. O objetivo? “Querem levar a vítima a efetuar um investimento monetário numa moeda virtual, prometendo um retorno financeiro elevado e num curto espaço de tempo. São casos que devem ser reportados”. A explicação é dada ao Dinheiro Vivo/Insider pelo Centro Nacional de Cibersegurança; já a situação em causa é um dos exemplos de notícias falsas que nos foi reportado nas últimas semanas.

João Pina, programador e analista de sistemas (responsável por sites utilitários como o fogos.pt, o janaodaparaabastecer.vost.pt ou o suprimidos.pt) admite que esta é “uma praga” onde “não há muito para comentar ou fazer”, a não ser reportar às autoridades e explicar “como ler os sinais que mostram que é falso”. André Gouveia, analista financeiro da Deco Proteste explica-nos que o Bitcoin, “por não ser regulado neste momento, está num ponto em que se presta mais a esquemas fraudulentos”. “Há um vazio legal e é um tema que aparece nas notícias, mas que poucos percebem como funciona o que ajuda aos autores dos esquemas”.

Jamie Bartlett, jornalista inglês, diretor do Centro de Análise de Redes Sociais britânico e autor de vários livros sobre a chamada Dark Web e do radicalismo na internet, revelou recentemente um esquema em pirâmide relacionado com criptomoedas, chamado Onecoin, num podcast da BBC de seu nome Missing Criptoqueen - a fraude enganou milhões de pessoas e a sua responsável está desaparecida desde final de 2017. O autor admitiu-nos que esse esquema também usava sites noticiosos falsos. "No caso do Onecoin, foi a maior fraude de criptomoeda de sempre e as autoridades estão à nora".

Vamos então aos casos que já descobrimos:

Exemplo 1 - A pessoa mais rica de Portugal - Site falso do Público

Ao abrir uma notícia patrocinada no Facebook com o título “A pessoa mais rica de Portugal”, surge o que parece ser o site do Público.pt, mas o domínio é bem diferente do original (https://polygongalleria.myshopify.com/). Depois de algumas pessoas abrirem o endereço na nossa redação, deixou de aparecer no mesmo link a tal notícia falsa e passou a aparecer apenas um serviço de venda de pratos de cozinha - um serviço que está hospedado no portal para negócios de e-commerce Shopify.com.

Como é a notícia e para onde remete? A notícia falsa em questão usa entidades e personalidades conhecidas para legitimar uma narrativa que mostra a Bitcoin e um serviço em particular como um segredo para ganhar dinheiro fácil. Maria Amorim, apelidada de pessoa mais rica de Portugal, teria dito em direto no Telejornal a José Rodrigues dos Santos que o segredo de aumentar a fortuna estaria no Bitcoin - a jornalista Dina Aguiar também é visada. O artigo é assinado com o nome Sebastião Fernandes, mas a cara que aparece é de uma mulher. E todos os links que aparentam ser internos do site do Público remetem, sem exceção, para o site do serviço que é indicado como capaz do tal milagre financeiro (BitcoinWealth). Por lá há vídeos a prometer dinheiro fácil, contadores de dinheiro e pessoas a indicar que ganharam milhares com o esquema.

Exemplo 2 - A Cristiano Ronaldo investiu €50,000,000 numa startup secreta que poderá torná-lo rico se tiver nascido entre 1964-1994 (É verdade) - Site falso do Eco

Este caso também terá sido visto por alguém através do feed de notícias do Facebook, com nova promessa de dinheiro fácil, neste caso com uma imitação do site do Eco. O mesmo link umas vezes abre uma notícia falsa sobre Cristiano Ronaldo (com o título por cima) e outras aparece outra com o seguinte título: “A funcionária do McDonalds vai deixar o emprego que detesta após descobrir que ganhou €322 ao usar o seu smartphone!”.

Como é a notícia falsa e para onde remete? Tanto uma como outra têm um esquema semelhante, que permite dentro do próprio site aderir ao suposto serviço de criptomoeda. Mas até explicar com pormenor como as pessoas podem transferir o seu dinheiro para o serviço (chamado Bitcoin Profit), antes a fake news está repleta de entrevistas falsas (incluindo a Cristiano Ronaldo) a tentar dar credibilidade ao suposto serviço de Bitcoin. Há também exemplos de extratos bancários com números avultados na conta vindos de criptomoeda ou comentários que parecem ser do Facebook com caras conhecidas (num dos casos aparece o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, numa publicação falsa da CNBC a falar no 'milagre' da tal Bitcoin). Há ainda fotos de famílias felizes a dar aval ao serviço - muitas delas aparentam ser roubadas aos seus donos e, neste caso, há referências a sites como o Sapo e a bancos como o Novo Banco ou o Santander.

Neste caso, como no anterior, todos os links que parecem ser os normais do Sapo e do Eco remetem sempre para a mesma notícia e não para onde dizem remeter. Além disso o endereço da página não é do órgão de comunicação social (Publico.pt ou Eco.pt) mas sim um outro que não tem nada a ver. Aqui trata-se do https://noticiassobre.com/, que parece ser um meio de comunicação mexicano chamado Informador.Mx, mas não é. Embora o site de notícias Informador.Mx exista mesmo, o domínio certo é https://www.informador.mx/. O tal https://noticiassobre.com/ aparenta ser um site falso que copia os conteúdos do site original e agrega depois as tais notícias falsas com o esquema das Bitcoin que são promovidas nas redes sociais ou noutros sites.

Exemplo 3 - Artigo de investimento em Bitcoin - Site falso do Público

Este caso é o único que já não vimos operacional, tivemos só a indicação que se tratava de um artigo sobre investimento com Bitcoin também com o aspeto do site do Público.pt.

Como é a notícia falsa e para onde remete? Neste caso o endereço era um subdomínio deste: https://associated-press.org (claramente a tentar parecer um endereço da agência de notícias Associated Press - cujo domínio verdadeiro é ap.org). O site em causa já parece estar desativado e mesmo a sua homepage indica apenas que não temos autorização para ver o seu conteúdo.

Como não ser enganado?

Há técnicas simples que ajudam a perceber se um site é ou não legítimo mas, em primeiro lugar, “grandes rendimentos com a indicação que estão garantidos é sempre de desconfiar”. André Gouveia, analista da Deco Proteste (Proteste Investe), admite que a fraude típica com a Bitcoin “ou nem tem sequer criptomoedas envolvidas”, é só esquema para “tirar dinheiro ou inclui criptomoedas mas são promessas irrealistas que nunca serão cumpridas”. A inclusão de figuras públicas para dar mais credibilidade a sites de Bitcoin é frequente e há alguns deles que criam e dinamizam páginas de Facebook e colocam informações legais (falsas) para conquistar as pessoas. Foi assim que, já este ano, houve um português que perdeu 75 mil euros. O caso foi reportado à Deco, mas quando chegou “já pouco havia a fazer”, mas há mais casos.

Gouveia explica que os reguladores não reconhecem a Bitcoin em Portugal como ativos financeiros e não há leis nesse sentido (logo também não há proteção), mas também não é ilegal deter ou transacionar-se. A CMVM tem inclusive uma área de perguntas e respostas sobre o tema, mas o Banco de Portugal não tem falado do tema, até porque não reconhece essa moeda virtual.

Já sobre os sinais a estar atento nestes sites:

Conteúdo patrocinado. A maioria dos casos que vimos têm origem em conteúdos patrocinados vindos do Facebook. Qualquer um pode pagar para pagar para promover conteúdos na rede social e chegar a um público de milhares de pessoas, ou seja, deve estar mais atento a conteúdos pagos que podem inclusive de vir de páginas que não segue.

Endereço/domínio/URL. Todas as páginas de internet a que acedemos têm um endereço ou morada, que aparece no topo da página. Se uma notícia aparenta ser do Público.pt mas tem um endereço diferente como https://associated-press.org ou estranho para o tema como https://polygongalleria.myshopify.com, é de suspeitar.

Links errados. Dentro da página - neste caso de conteúdos aparentemente noticiosos -, se os links remetem todos para o mesmo lado ou para sítios diferentes do que indicam (nestes casos para sites de Bitcoin) também é altamente suspeito.

Página principal ou homepage. Ao ir ao endereço no topo da página e tirar tudo o que vem a seguir ao domínio principal podemos visitar a página principal daquele site que, nestes casos, não tem nada a ver com a notícia em que carregámos - por exemplo, a homepage do suspeito www.noticiassobre.com não tem nada a ver com a suposta notícia do Eco onde se carregou originalmente.

Leia também | Irene Cano: "A inteligência artificial ajudou a reduzir 80% das fake news no Facebook"

Deve reportar sites suspeitos. Como o pode fazer?

O Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) indica-nos que, até ao nosso contacto, não recebeu “nenhuma denúncia sobre falsificação de sites associados a meios de comunicação social”, inclusive no que respeita a esquemas fraudulentos associados à moeda cripto bitcoin. A 30 de outubro, o Público alertava os seus leitores para verificarem a autenticidade dos links que abrem, mas o CNCS indica que deve também ser feita uma denúncia, seja pelos próprios meios de comunicação ou por qualquer pessoa que encontra estas notícias falsas.

Para denunciar basta enviar um email para cert@cert.pt. “Desta forma, em conjunto com os órgãos de polícia criminal atuaremos em conformidade, caso se verifique tratar-se efetivamente de um site fraudulento”. O CNCS explica que tratando-se de uma tentativa de fraude ou fraude, associada a um ilícito criminal, pode ser feita queixa na Polícia Judiciária no endereço https://qe.pj.pt/login ou presencialmente.

O Facebook também permite reportar estes anúncios pagos para que os anunciantes possam ser punidos. Como? Na zona onde está o anúncio, pode carregar nos três pontos no canto superior direito e ‘Denunciar anúncio’. No primeiro exemplo que demos foi mesmo isso que foi feito e a equipa de ajuda da rede social respondeu da seguinte forma: “Removemos o anúncio que denunciaste por violar as nossas Políticas de Anúncios. Obrigado pela denúncia (...) O anunciante não saberá quem fez a denúncia”.

Já sobre o que pode acontecer a esses sites, o CNCS explica-nos que o facto de serem utilizados servidores com alojamento fora de Portugal dificulta o processo incluindo o de perceber os seus autores, mas há ações que podem ser feitas, inclusive contactar instituições congéneres “ou a empresa do alojamento do website em questão”.

Resumindo, estes são sites escritos em português de Portugal, alguns com técnicas sofisticadas para parecerem os sites originais de meios de comunicação e com vários famosos à mistura, informação e nomes verdadeiros ao lado de dados falsos e imagens de documentos para tentar mostrar a sua legitimidade - que, na verdade, nunca é comprovada. Todo o cuidado é pouco e, como vimos, se a promessa parece boa demais para ser verdade e há elementos estranhos na página como um endereço suspeito, o melhor é reportar.

Se nos quiser expor algum abuso de identidade deste tipo para possível reportagem pode fazê-lo aqui (redacao@dinheirovivo.pt)

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de