Hong Kong

“Só queremos justiça”. Protestos em Hong Kong chegam ao aeroporto (reportagem)

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As manifestações em Hong Kong contra o governo chinês e contra a polícia trouxeram jovens e famílias este fim de semana das ruas para o aeroporto com mensagens para turista ver. Reportagem no local.

Chama-se Chek Lap Kok e é o aeroporto que serve não só Hong Kong mas também, em grande medida Macau – que está à distância de uma viagem de uma hora de ferry. Ao saíram das portas de embarque ou entrarem no aeroporto, os turistas são surpreendidos com os gritos de ordem de mais de mil pessoas – a maioria concentrada na zona das chegadas, mas muitos espalhados pelo resto do aeroporto.

“Libertem Hong Kong (Free Hong Kong)”. “Não confiem na polícia de Hong Kong”. “Lutem pela liberdade, juntem-se à luta de Hong Kong”. “Rezem por Hong Kong”. “Bem-vindos à cidade de gás lacrimogéneo expirado”. Estas são algumas palavras entoadas em uníssono e escritas em centenas de cartazes que envergam no recinto que recebe, anualmente, 78 milhões de viajantes.

A maioria dos manifestantes eram jovens, vários vinham em grupos, alguns vinham em família, com os filhos e, de forma pacífica, reagiam com furor e palmas quando os turistas acabados de chegar ao aeroporto vinham ter com eles e recebiam um dos panfletos que distribuíam. Pelo meio haviam também mensagens a pedir desculpa pelo incómodo aos turistas – desta voos não houve voos cancelados pelas manifestações.

Mei Chan (a jovem preferiu dar um nome fictício) chega ao aeroporto com um grupo de sete amigos e colegas de turma da universidade de Hong Kong. A jovem de 22 anos, tal como os colegas, vem com cartazes e panfletos. Chegam com chapéus, alguns com capacetes das obras e vários com máscaras na cara – quando os turistas tiram fotos, põe os cartazes à frente da cara, “não vá o diabo tecê-las”.

Ao Dinheiro Vivo, Chan explica que já participou em dezenas de protestos desde junho, tudo para que o governo chinês remova por completo a lei que permite a extradição de suspeitos de crimes para a China continental. “É importante que o mundo perceba o que se passa aqui, até porque as televisões e jornais chineses são obrigados a praticar censura e a dar a volta ao que é a realidade”. A estudante de direito quer garantir “um futuro de liberdade”, explica, “porque o que o governo chinês está a fazer é tentar trazer todas as limitações face aos direitos humanos praticadas na China para aqui”. No fundo, “só queremos justiça e que os direitos humanos sejam respeitados”.

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Reinvindicações “pelos direitos humanos”

A jovem dá vários exemplos que a preocupam: “a polícia é corrupta e pactua com a mafia local”; “a lei que nos quer tirar a liberdade, fazendo com que qualquer acusação de crime nos deporte para a China foi suspensa, mas continua em cima da mesa”; “não nos sentimos seguros, há pessoas presas ao acaso no meio da rua”; “há uma campanha de desinformação para nos apelidar todos de arruaceiros, quando temos feito os protestos de forma pacífica”; “há agressões constantes contra manifestantes, ativistas, jornalistas e até advogados que ajudam a causa”.

No meio do aeroporto, as autoridades olham à distância e com calma para o protesto (mal se vê a polícia no hall principal de entrada do aeroporto), até porque os manifestantes mantêm-se controlados no mesmo espaço, muitos deles estão inclusivamente sentados.

O objetivo é que se mantenha bem claro que “este é um país, com dois sistemas”. Para os manifestantes – é isso que consta dos seus panfletos entregues aos turistas –, “ao não serem julgados por tribunais de Hong Kong, como acontecia até agora e entrarem no sistema judicial chinês quando são presos, entram “num sistema que não é independente e a que faltam direitos humanos básicos”. A suspensão da lei, por isso, não basta, até porque os manifestantes escrevem (em inglês) que o governo chinês que é para retomar quando os protestos abrandarem. Daí que desde de junho Hong Kong esteja em “estado de protestos”.

“Só hoje estão seis protestos em zonas diferentes da região de Hong Kong a decorrer em simultâneo e decidimos agora para o aeroporto para que os turistas possam perceber-nos e espalhar a palavra a nível mundial”, explica Mei Chan, que admite de forma categórica: “toda a ajuda é pouca”.

Outros dos objetivos é que uma comissão possa averiguar a brutalidade da polícia, que sejam removidas as acusações feitas aos manifestantes e a adopção do sufrágio universal e direto para a escolha do próximo chefe do executivo.

“No fundo estamos a lutar pela nossa liberdade e a dos nossos filhos”. Chan, admite, no entanto, que se vê “forçada a agir” e nunca tinha pensado que pudesse participar neste tipo de manifestações.

No meio das palavras de ordem, ao saber que éramos de Portugal (e com Macau aqui ao lado) só se lembrou de responder com um grande sorriso e duas palavras: “Cristiano Ronaldo!”

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