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“Toda a gente quer abrandar mas ninguém tem coragem para falar sobre isso”

Fotografia: Esporão
Fotografia: Esporão

É um dos mais respeitados gurus internacionais do chamado Slow Lifestyle. Carl Honoré explica como quem abranda é mais feliz, e mais produtivo.

Assume-se “viciado em velocidade” mas percorre o mundo a espalhar a filosofia do “devagarinho”. Para Carl Honoré, jornalista e autor de best-sellers sobre “Slow Lifestyle“, viver a um ritmo acelerado é a melhor opção… às vezes.

“Há momentos para ser rápido e outros em que é preciso abrandar. O segredo é aprender a fazer as coisas à velocidade certa, para obter qualidade em vez de quantidade. É uma ideia simples mas poderosa, porque afeta todos os aspetos da nossa vida”, começa por explicar o especialista em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Carl Honoré veio a Portugal a convite do Esporão, que encomendou um estudo à Universidade Católica sobre a necessidade de abrandar. As conclusões não surpreenderam o especialista: entre os inquiridos, 60% não levam um estilo de vida tranquilo. Destes, 82% assume o desejo de fazê-lo.

“O estilo de vida acelerado é um vírus, cria dependência. E é normalmente no trabalho que as pessoas percebem que vivem demasiado aceleradas. Começam a cometer erros, não escutam os outros, são menos criativas, menos saudáveis, menos produtivas e menos felizes”, diagnostica.

Nas empresas, o secular culto da produtividade é um dos transmissores deste vírus, afirma. “As empresas têm medo de qualquer palavra que esteja associada a lentidão, é algo negativo e não sabem como agir perante a evidência de que as pessoas precisam de abrandar. Há inércia e medo nas empresas. Naquelas com quem trabalho percebo que toda a gente quer abrandar, mas ninguém tem coragem para falar sobre isso.”

14/05/2019 - Entrevista com Carl Honoré, especialista em slow Lifestyle  (Diana Quintela / Global Imagens)

Carl Honoré. Foto: Diana Quintela / Global Imagens

Ainda assim, aponta, começam a soprar ventos de mudança. Há cada vez mais empresas empenhadas em encontrar formas de garantir que o trabalho não deve ser sinónimo de exaustão. Adotar horários mais flexíveis, semanas de quatro dias ou impor horas sem acesso ao email são apenas algumas das medidas mais populares.

“Cabe a cada empresa definir a sua receita. Por vezes basta uma pausa de dez minutos para ouvir música. O que é preciso é acabar com a noção errada de que um ritmo acelerado é igual a mais produtividade”.

Carl Honoré diz-se otimista no que toca ao processo de consciencialização do supersónico mundo corporativo, ainda que saiba que irá acontecer… devagar. “Mesmo que o líder de uma grande empresa não tenha preocupações ambientais ou com a felicidade da sociedade e só esteja focado em ganhar dinheiro, ele ainda terá algo a ganhar se abrandar”.

Ainda assim, o especialista apela à necessidade de o mundo acordar para a urgência de uma economia “mais lenta, produtiva, saudável e feliz, que não mastigue o planeta à procura do lucro do próximo trimestre”.

O fim de uma era para as redes sociais

Foi um dos “bichos” que mordeu a sociedade com mais força nas últimas décadas. E é um dos principais veículos do vício da velocidade. Mas a tecnologia, diz Carl Honoré, não é o mal em si. O problema é a forma como a usamos.

“Quando se tira o telemóvel a uma pessoa, ela tem a mesma reação que um viciado em heroína. A tecnologia e as redes sociais são um vício cultural, psicológico e físico. Mas ultrapassada essa primeira fase, as pessoas rapidamente percebem como estão mais felizes”.

Carl Honoré acredita que o fim do primeiro ciclo das tecnologias da informação, que nos “obriga” a estar sempre ligados, está próximo. “Há cada vez mais pessoas a perceber como isto é uma estupidez. É tóxico para a saúde, para o raciocínio, para a concentração. Começa a haver um cansaço em relação às redes. É um ciclo louco que felizmente está a acabar”.

Em Silicon Valley, onde trabalha com algumas empresas, Carl Honoré diz que começa a crescer a vontade de estar offline.

“Já há restaurantes que oferecem bebidas a quem não mexe no telefone, agências de viagens que se oferecem para para ficar com os aparelhos, famílias que desligam os ecrãs quando estão juntas. Algo tão simples como desligar as notificações faz a diferença. Nós é que decidimos quando é que queremos olhar para o telefone, não é ele que manda em nós. Estar contactável 24 horas por dia, sete dias por semana não é do interesse de ninguém”.

Portugueses: muito humanos e pouco pontuais

Do que conhece da cultura portuguesa, Carl Honoré identifica “um lado bom e outro mau” da cultura de abrandamento. Por um lado os portugueses são pródigos em “ineficácias típicas, como a falta de pontualidade”, um mau exemplo de Slow Lifestyle, destaca o especialista.

Por outro lado, há o “bom abrandamento”, que o especialista relaciona com hábitos como tomar café ou almoçar com os colegas de trabalho. “Não há aquele hábito se andar na rua com o copo de café na mão ou de almoçar uma sandes à secretária. Há mais humanidade”.

Carl Honoré defende que Portugal deve “honrar e preservar” a cultura de abrandar para tomar café e “acrescentar velocidade” às questões de eficácia, como a pontualidade ou a burocracia.

“Ser mais lento, como é tradicional nas culturas mediterrânicas, é mal visto nessas próprias culturas, que se veem como preguiçosas e têm complexos. A ironia é que culturas mais aceleradas começam agora a achar que têm algo a aprender com os povos mediterrânicos”.

A aposta nas relações pessoais, conclui, é o que vai distinguir os humanos das máquinas quando a Inteligência Artificial tomar conta do mundo do trabalho.

A “virtude de abrandar” no Esporão

É com orgulho que João Roquette assume ser da terra do “devagar”. O CEO do Esporão, que encomendou um estudo sobre o Slow Lifestyle em Portugal, defende que “abrandar é uma virtude e um talento”. Foi por isso que começou a pôr a filosofia em prática na empresa há mais de uma década.

Primeiro na própria agricultura, que tornou orgânica, “uma boa decisão que permitiu criar um produto melhor”. Depois na própria gestão das pessoas. Tudo com o objetivo de “acabar com a ideia que ‘devagar’ é um conceito negativo.

“Ainda há a ideia de que abrandar é mau para o negócio. O nosso negócio é a natureza e a vinha não cresce numa semana. Temos de esperar e ser pacientes. Não podemos agir como se estivéssemos numa fabrica de automóveis do século XIX”.

Para o responsável, as empresas familiares têm uma responsabilidade acrescida na “cura” do vírus da pressa, porque trabalham com o longo prazo no horizonte.

“No Alentejo, as pessoas que trabalham no campo encontram-se às 8h da manhã, começam a trabalhar, param durante uma hora, comem sentadas no chão o que trouxeram de casa debaixo de um guarda-sol, descansam 15 minutos, voltam ao trabalho e vão para casa”. No Esporão, a rotina é diferente.

“Vamos buscar toda a gente a casa, servimos uma refeição quente durante uma hora numa casa com mesas e cadeiras. As pessoas param e descansam e depois voltam a trabalhar. Poupam pelo menos uma hora por dia a cozinhar, mais o tempo da deslocação e não têm de se preocupar com a meteorologia quando estão a comer. Este tipo de relação com as pessoas encontra-se mais numa empresa familiar do que no Nasdaq, porque olhamos para as pessoas todos os dias”, descreve o CEO.

Ainda assim a empresa achou que precisava “ir mais além”, e criou um grupo para estudar “exatamente quantas horas precisamos de trabalhar para ter o trabalho feito”.

Ainda não há conclusões, mas João Roquette tem a certeza que “não é por fazer dez coisas ao mesmo tempo” que um trabalhador vai ser mais produtivo. Na sabedoria popular como na filosofia Slow Living, a pressa é inimiga da perfeição.

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