Tudo ao contrário

Com a atual reviravolta governamental, vamos ter que fazer todos um verdadeiro shutdown e um novo restart para que tudo volte a ter sentido.

Como vamos chamar ao Bloco e ao PCP no Parlamento? Oposição, ou aliados governamentais à força?

E aos socialistas? Governo com maioria parlamentar, ou amparado por partidos que o criticam?

PSD e CDS? Oposição séria, ou frente unida com fome de vingança que esquece os interesses do País?

Portugal transformou-se num verdadeiro laboratório político, social e também mediático. Com a atual reviravolta governamental, vamos ter que fazer todos um verdadeiro shutdown e um novo restart para que tudo volte a ter sentido e adaptar-nos a este novo software. Ou muito me engano ou, para entendermos o que se vai passar a partir de agora, teremos que fazer mais atualizações na nossa cabeça do que nos nossos tablets e smartphones. Vamos ver se a rapidez e o imediatismo das notícias consegue acompanhar tão intenso fluxo de mudanças.

Até agora, para quem lê e escreve notícias era fácil ver as diferenças de políticas, políticos e governantes, mas tudo mudou. Derrubado o arco da governação, temos que aprender que podemos ser liderados por um governo e por partidos que são oposição dele. Vai ser interessante ver como vão conciliar posições 4 forças políticas tão diferentes e que dentro delas têm divisões tão sérias. Ou como se aprovam medidas comuns entre defensores de determinadas políticas e apologistas do contrário delas. Já para os partidos à direita, o desafio vai ser também uma quadratura do círculo. Sempre utilizaram a bandeira do interesse do País à frente dos interesses partidários, mas agora juram a pés juntos que não vão ajudar em nada o futuro governo socialista. Como irão conseguir fazer então uma oposição para defender Portugal bloqueando todas as medidas, mesmo aquelas que sempre defenderam e pelas quais lutaram?

Após tanta contestação social é também grande a expectativa para saber como se vão comportar os sindicatos. Até aqui, um governo de direita com políticas liberais e próximas do capital privado uniu-os na luta sem tréguas e nas manifestações de rua. Cada um estava no lado oposto da barricada e desempenhava o seu papel. Agora, com os partidos aliados dos sindicalistas amarrados no poder, a situação fica bem mais estranha. Será que pela primeira vez na nossa história democrática vamos ter um País livre de greves?

Para os jornalistas vai ser seguramente um excelente desafio e para as empresas de comunicação um ano gordo. As incertezas e a dificuldade em perceber quem governa, como e para quem, vai obrigar a um rigor ainda maior. Já os consumidores de notícias irão seguramente encontrar diariamente uma espécie de palavras cruzadas, cada vez que abrirem os jornais ou ligarem a televisão.

São sinais de uma clara evolução da nossa democracia. Como todas as mudanças vai também esta deixar feridas, danos e vítimas, mas por muito confusa e estranha que seja pode ser uma oportunidade de transformação. De uma maneira ou de outra, com desfecho positivo ou negativo, o que resultar desta metamorfose política não deixará seguramente tudo na mesma.

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