Bisbilhotar nem sempre é inútil. Aprenda com os especialistas

"Ignorar a bisbilhotice, ou tratá-la como um disparate, sem ouvir o que está a ser dito, é uma negligência", refere uma especialista.

Todos fomos ensinados que a bisbilhotice - falar de alguém que não está presente - não só é falta de educação, como pode magoar sentimentos e prejudicar reputações. E, contudo, toda a gente a pratica.

Seria difícil encontrar um escritório em que nunca se falasse de pessoas ausentes. Qual será a melhor atitude: mantermo-nos educadamente acima disso, ou envolvermo-nos nesta partilha de informação?

O que dizem os especialistas

A bisbilhotice é uma parte importante da vida, e não só da cultura de escritório. "Aprendemos quem somos através daquilo que as pessoas nos dizem e dizem de nós", afirma Kathleen Reardon, professora de Gestão na Universidade da Califórnia do Sul.

Sendo todos nós seres sociais, queremos conectar-nos com pessoas, e falar sobre os outros é uma forma de o fazermos. E é particularmente difícil de evitar num escritório. "A bisbilhotice acontece o tempo todo, por isso vai ouvi-la", diz Linda Hill, professora de Gestão de Negócios na Harvard Business School. E há grandes possibilidades de que, por vezes, você mesmo a perpetue. "As pesquisas mostram que toda a gente participa em todos os géneros de bisbilhotice: positiva, neutra e negativa", diz Joe LaBianca, professor de Gestão na Universidade de Kentucky. Será isso sensato? Ou deve esforçar-se por se conter? Eis alguns princípios que o ajudarão a decidir quando manter-se afastado e quando envolver-se.

Conheça os benefícios

Se tem por regra manter-se fora das conversas acerca de outras pessoas, pode estar a perder alguma coisa. "Estará a desdenhar todo o género de informações que lhe podem ser úteis, assim como à sua carreira e ao seu trabalho", diz LaBianca.

Hill salienta que dar ouvidos a tagarelices de escritório é uma excelente maneira de ficar a saber o que se passa na sua empresa - que grupo conseguiu recentemente um bom negócio, por que razão o diretor financeiro esteve ausente do escritório uma semana ou quais as iniciativas que o CEO é capaz de aprovar. Trocas informais de informação podem ser tão úteis como as formais e ajudam-no a construir relações com os colegas. "Isto constrói um laço porque as pessoas pensam que confia nelas o suficiente para partilhar informação sensível", diz Hill. "A informação é poder".

Diferencie entre o que é útil e o que é negativo

Nem todas as bisbilhotices são criadas iguais, e algumas conversas têm, de facto, implicações negativas. "Quando der por si a ouvir comentários acerca da família ou da vida pessoal de alguém, já ultrapassou os limites", diz Reardon. Também é um problema se as pessoas falarem dos outros tão frequentemente que toda a gente receia ser a próxima vítima. Contudo, a bisbilhotice negativa é muito mais rara do que pensamos. "A maior parte do que chamamos bisbilhotice é, em geral, positiva ou neutra", diz LaBianca, "do género que pode ser bastante útil ouvir e transmitir a outros".

Lembre-se de que se reflete em si

Antes de contribuir com a sua parcela de informação, considere a maneira como será visto pelos outros em resultado disso. Quem o ouve talvez fique na dúvida se lhe pode confiar as suas próprias informações. A bisbilhotice negativa, sobretudo, pode afetar o que os outros pensam de si. "É melhor considerar o que está a transmitir. A pessoa que recebe essa informação vai usá-la para avaliar o seu carácter ", diz Hill.

Confie nos seus colegas de bisbilhotice

Além de poder manchar a sua própria reputação, a bisbilhotice tem outro risco: que o interessado descubra que falou dele pelas costas. Fale apenas com colegas que sabe que não vão contar a outros. Se não tem a certeza de poder confiar em alguém ou se está a tentar construir um novo relacionamento com um colega que não conhece bem, vá devagar. Comece por trocar pequenas informações inofensivas e avalie se pode confiar nele antes de passar a questões mais importantes.

Não o faça abertamente

Como é provável que os outros façam juízos de valor, tenha cuidado com a maneira como troca informação e o lugar onde o faz. LaBianca desaconselha que o faça diante do seu chefe, que pode não ver com bons olhos esse comportamento. "Coscuvilhar torna-o mais influente entre os seus colegas, mas também pode fazê-lo obter piores notas de desempenho dos chefes, caso seja visto como uma ameaça", afirma. Faça-o atrás de portas fechadas e, nunca recorra ao e-mail. "Deve partir do princípio de que qualquer e-mail pode ser tornado público", diz Hill. Se os outros estiverem a coscuvilhar num sítio que não lhe pareça indicado, não tem de participar. LaBianca destaca que pode ouvir sem, necessariamente, contribuir. Acenar com a cabeça e dar respostas simples, como "Não sabia", permite-lhe ouvir a informação sem participar ativamente.

Intercete bisbilhotices negativas sempre que puder

Se participar em discussões acerca de outros e ouvir algo que possa magoar os sentimentos ou a reputação de alguém, deve intervir. "É necessária coragem para dizer, 'Isso é doloroso para ela', ou 'Não me parece que precisemos de saber isso', mas é necessário", afirma Reardon. Pode ir sempre um pouco mais longe, acrescenta LaBianca, e neutralizar o que foi dito acrescentando a sua própria informação. Por exemplo, se alguém falar mal do desempenho de um colega, pode recordar uma vez em que ficou bem impressionado com o seu trabalho.

Princípios a Recordar

A fazer:

Usar as suas relações informais para obter informação acerca do que está a acontecer na sua empresa

Escolher sensatamente os seus meios - bisbilhotar através de e-mail pode ser particularmente perigoso

Pensar na forma como as suas palavras se refletirão em si

A não fazer:

Ignorar a bisbilhotice como inútil ou mesquinha - pode ser uma boa forma de se conectar com os outros

Bisbilhotar junto dos seus superiores, que podem reprovar esse comportamento

Ignorar comentários negativos acerca de um colega, especialmente se forem fundados

Caso de estudo 1: Usar a bisbilhotice para medir a temperatura

Carl Kerrigan*, diretor de operações numa grande empresa farmacêutica, vê a bisbilhotice no escritório como uma importante ferramenta de comunicação. Admite já ter ouvido e também alimentado canais de coscuvilhice". Os mais ativos nestes processos eram os guardiões da informação da empresa. É útil beneficiar dessas pessoas e contribuir para o fluxo com a sua própria informação, até mesmo acrescentando alguma perspetiva positiva sobre a empresa". Quando a sua empresa estava a negociar uma mudança de instalações para outro local, a pouco mais de cinco quilómetros, Carl mencionou a alguns dos "bisbilhoteiros" a possibilidade de relocação e de o pessoal receber um bónus se tudo corresse bem. Queria avaliar a reação. Quando ouviu feedback positivo, começou gradualmente a transmitir mais informação acerca da mudança e dos seus benefícios. "Teve bons resultados - quando anunciámos a mudança, a maior parte das pessoas acostumara-se à ideia e evitámos a necessidade de um longo processo de consulta."

Ele não tem dúvidas de que este género de informação é de importância crítica. "Ignorá-la ou tratá-la como um disparate, sem ouvir o que está a ser dito, para mim é uma negligência", afirma.

Caso de estudo 2: Ser honesto e justo

Sherry Ellner,* professora numa universidade da Ivy League, sabe como a bisbilhotice nos pode fazer sentir divididos. Há alguns anos, recebeu um telefonema de uma colega, Lauren, que queria fazer-lhe uma pergunta confidencial acerca de outro colega, Randall.

Randall e Lauren trabalhavam juntos num projeto que estava a correr mal. Randall não estava a cumprir a sua parte e não iam conseguir cumprir o prazo. Lauren queria saber se Sherry tivera o mesmo problema quando trabalhara com Randall. "Quando ouvi a história, não me pareceu tão inverosímil, por isso senti-me bastante dividida em relação às minhas lealdades", conta. Por um lado, ela respeitava Randall e não queria prejudicar a sua reputação. Também a preocupava que a sua informação fosse repetida a outros. Por outro lado, queria ajudar Lauren a compreender o que se passava, para que ela pudesse resolver o seu problema. "Quando as pessoas partilham bisbilhotices connosco, parte-se do princípio de que deve haver reciprocidade", diz ela.

Depois de pensar bem, disse a Lauren que tinha ouvido histórias de outras pessoas consistentes com o que ela descrevia, embora ela, pessoalmente, não tivesse tido esse problema. Pareceu-lhe que era uma boa solução de compromisso. "Era bisbilhotice, sim", admite, "mas eu sabia que estava a ser honesta e justa". Ao ouvir Lauren, também obteve uma nova perspetiva. "Depois daquela conversa, não voltarei a recomendar o Randall".

*nomes e outros pormenores foram alterados

HBR/Amy Gallo, especialista em recursos humanos. Siga-a no Twitter, aqui

Artigo originalmente publicado em março de 2013.

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