"País precisa de equilibrar os níveis de produção e os níveis salariais"

Dalila Pinto de Almeida, cronista do Dinheiro Vivo, lança esta terça-feira o livro Onde está o Líder?, onde reúne textos escritos no blog Telescópio (www.dpaconsultoria.pt/blog/) e no site Dinheiro Vivo. Os temas são da sua área de atividade (a autora lidera a DPA Consultoria) e abordam questões ligadas ao recrutamento, coaching, cultura de empresa e liderança. Não é o primeiro livro que lança: em 2017 publicou Era uma vez um talento e em 2011 Mudar de Vida.

Dalila Pinto de Almeida considera que se devia pagar melhores salários em Portugal - "não se paga mais porque não se produz e não se produz porque não se paga mais" - e diz que a forma como se está a recrutar, numa altura de escassez de mão-de-obra em muitos setores, como no da distribuição e logística, "deveria fazer-nos refletir acerca de como estamos a encarar os humanos".

Diz que a pandemia veio mudar a forma como se faz recrutamento. Em que sentido? Para melhor ou pior?
Mudaram os meios de fazer recrutamento e cresceu a plataforma de recrutamento, o universo disponível cresceu. Uma grande parte do processo, se não todo, como aconteceu durante os confinamentos, é realizado online, as empresas recorrem cada vez mais a aplicações sofisticadas para comunicarem com os potenciais candidatos. As fontes de recrutamento alargaram-se e o mundo é hoje uma plataforma de recrutamento para as posições que podem ser ocupadas virtualmente. Já para o exercício de funções muito operacionais, por exemplo, na área da distribuição e logística em que a escassez de mão-de-obra é preocupante, ouvi recentemente uma frase que ilustra a maneira como se está a recrutar: "se tem dois braços e duas pernas, serve". Isto deveria fazer-nos refletir acerca de como estamos a encarar os humanos.

A falta de mão-de-obra está a ser sentida em muitos setores económicos. O nível salarial é o fator determinante para isso?
Terá hoje um peso maior do que já teve, sim, sobretudo se a um baixo salário acrescer um trabalho sem significado e uma atmosfera de desumanização. Sair todos os dias de casa para ir trabalhar tem custos e sobretudo para profissões indiferenciadas, em que a precariedade é mais visível, a oferta de mais uns euros ou de melhores condições de trabalho é determinante.

Concorda com a subida do salário mínimo nacional? Portugal devia pagar melhores salários?
Pelas razões que já referi, sim. O país precisa de equilibrar os níveis de produção e os níveis salariais e isso tem sido pensado como um círculo vicioso, não se paga mais porque não se produz e não se produz porque não se paga mais. Como alguns economistas e até empreendedores têm dito - e partilho essas opiniões - isso é perigoso. As empresas com níveis salariais acima da média e com uma gestão eficaz têm bons níveis de produtividade. Pelo contrário, os baixos níveis de produção decorrem de uma gestão que não tem em conta a importância que deve ser dada às pessoas - o que obviamente inclui o nível salarial.

Portugal está a conseguir atrair muitas empresas das áreas tecnológicas e muitos profissionais dessa área, com salários acima da média de muitos outros setores. Corremos o risco de agravar o fosso salarial na sociedade portuguesa?
É um risco e penso que não exclusivo de Portugal. A digitalização do mundo do trabalho, sobretudo numa fase de transição como a que se vive, está a imprimir duas velocidades com grupos de população que estão a ficar para trás, mas em relação aos quais também não se exige que acompanhem, porque são necessários para o trabalho indiferenciado. É um contexto perverso.

O teletrabalho vai tornar-se cada vez mais comum, depois deste impulso dado pela pandemia? As novas regras, nomeadamente pagamento de despesas extra, poderão levar as empresas a evitá-lo?
Penso que ainda há muita tentativa e erro no que diz respeito ao exercício do teletrabalho. Entre os que permanecem num regime total (online ou presencial) e os que ficam num regime híbrido, há um sem número de questões que emergem. Tenho trabalhado em programas de liderança remota e sou confrontada com muitas delas. Uma das questões tem a ver com o facto de, sobretudo no primeiro confinamento, todos terem sido obrigados a ficar em casa, essa era a única opção e a decisão foi acatada. Depois as empresas começaram por avaliar cada caso individual e a permitir uma escolha da parte de cada pessoa e agora entrou-se na fase da regulação que é sempre a mais complexa, sobretudo depois de se terem adquirido hábitos que nem sempre estão sincronizados com as necessidades da empresa. Dito isto, penso que o trabalho remoto permanecerá como mais uma ferramenta que temos para trabalhar e que a sua utilização depende das características funcionais e das das próprias pessoas. Quanto ao pagamento de despesas extra, dependerá muito das empresas, haverá sempre as que tentem evitar esse custo, assim como haverá trabalhadores que apesar da opção do teletrabalho, quererão regressar.

Quais são as condições mais importantes para as empresas conseguirem reter talento? Depende das gerações?
Em primeiro lugar, definirem o que é, para si, talento. Em segundo lugar, perceberem se querem retê-lo e tomarem consciência de que há áreas onde se consegue reter talento e há outras que, pela sua natureza, têm uma rotatividade elevada. É incrível a energia que se ganha quando se percebe isto. Creio firmemente - e tento transmiti-lo - que aquilo que um talento deseja é ter um trabalho com significado, poder aprender e desenvolver-se, ser autónomo e ver a sua iniciativa reconhecida, participar nas decisões, conseguir equilibrar o trabalho com a sua vida pessoal e ter uma remuneração justa. Parece utópico? Mas não é, há muitos bons exemplos destes. E claro que depende da fase da vida em que se está aquilo que cada um valoriza, por exemplo, as gerações mais novas precisam de poder visualizar o seu futuro no imediato enquanto os mais velhos precisam de saber que se mantêm empregáveis e que a sua experiência é valorizada. Como escrevi anteriormente no livro "Era uma vez um talento", citando Jenny Biggam, cofundadora da Agência de Meios The7stars, o talento inspira-se, não se gere

Concorda com a imposição do direito a desligar?
Por princípio não concordo com imposições, prefiro a negociação. É verdade que existem abusos que passam por telefonemas, envio de mails e mensagens a horas impróprias e há que salvaguardar que quem os recebe possa estar desligado sem sofrer represálias. Este é um terreno com muitas cambiantes e é preciso perceber como se chegou a uma situação extrema. A regulação e a legislação podem ter o mérito de dissuadir esse comportamento, mas gostava de acreditar que o bom senso prevalece.

O tema do seu livro é Onde está o líder? De uma forma geral, como avalia as lideranças nas empresas portuguesas?
Na minha atividade lido cada vez mais com líderes preocupados em atingir resultados e a tomarem consciência de que precisam das pessoas para lá chegarem. E se contratam serviços da minha área, vejo-o sempre como um pedido de ajuda para construir equipas mais autónomas e responsáveis.

FICHA DO LIVRO

Título: Onde está o Líder?
Autora: Dalila Pinto de Almeida
Editora: Guerra e Paz
Nº de páginas: 167

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de