Sara do Ó: "As mulheres ainda não se sentam na fila da frente"

No Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, ouvimos uma mulher empresária, Sara do Ó, co-fundadora e CEO do Grupo Your.

Sara do Ó fazia auditoria numa das Big Four, quando, há 14 anos, viu um nicho de mercado por explorar e uma oportunidade para concretizar a vontade que sentia de criar o seu próprio negócio. Com duas mulheres fundadoras ao leme, Sara do Ó e Filipa Xavier de Basto, a Your cresceu e a aposta revelou-se bem sucedida.

Neste Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, Sara do Ó diz que apesar do progresso, "as mulheres ainda não se sentam na fila da frente". E aconselha aquelas que querem lançar-se num negócio, a "não ter medo de arriscar".

Faz sentido existir um dia do Empreendedorismo Feminino?

A meu ver faz todo o sentido. Olho para este dia como uma fonte de motivação para todas as mulheres que pretendem empreender, mas têm receio. Receio de serem julgadas, de não serem suficientemente boas ou acreditarem que o seu lugar é na "segunda fila".

A presença das mulheres em ambiente laboral é fundamental para todos. E, hoje em dia, existem mulheres pelo mundo fora com histórias verdadeiramente inspiradoras, que batalharam e fizeram a diferença para terem êxito nos seus projetos e criarem o seu próprio emprego. Por outro lado, gostava que este dia não fosse assinalado, e que em tempos próximos, como no das nossas filhas, fosse uma mera recordação ou marca histórica do passado, pois tal significaria que já tinha ocorrido uma viragem fundamental.

Como caracteriza a realidade portuguesa nesta altura em comparação com tempos passados no que diz respeito ao empreendedorismo feminino?

Considero que já existe uma grande evolução no papel das mulheres ao nível do empreendedorismo. É simplesmente notável a quantidade de casos de sucesso e entrega que vou tendo a sorte de ir conhecendo, até nos últimos meses. Contudo, teria logo de acrescentar, as mulheres ainda não se sentam na "fila da frente". O meu apelo é por isso o de que, nos cargos de gestão ou noutros, as mulheres não se coíbam de revelar o seu brilho e de se afirmar.

É bastante positivo que Portugal seja o 6º país do mundo com melhores oportunidades e condições de apoio a mulheres empreendedoras, num universo de 57 países de cinco regiões do mundo, ficando à frente de países como Austrália, Bélgica ou Reino Unido. No mesmo estudo de 2018, da autoria do Mastercard Index, Portugal é também o 10º país com maior número de mulheres proprietárias de negócios (28.7% do total de empresários). Não devemos parar agora.

Quais são, em sua opinião, os principais obstáculos que as mulheres enfrentam quando decidem lançar o seu próprio negócio?

A principal dificuldade, não aprofundando aqui as que advêm dos contextos históricos passados, é a de que as conquistas femininas têm de certa forma um custo. As mulheres profissionalmente determinadas podem ainda ser interpretadas como disruptivas de condutas sociais rotuladas de aceitáveis. Uma mulher ambiciosa, assertiva ou determinada infelizmente ainda não é socialmente bem vista. Não deve haver qualquer problema em reconhecer e discutir este fenómeno. Se uma mulher for competente, não parece ser suficientemente simpática. Se é simpática, é sempre mais simpática que competente. Ao longo do caminho, esta realidade evidencia-se, e temos de trabalhar a nossa capacidade de resiliência e resistência à crítica, o que também podem ser virtudes, mas não deviam ser.

Mas existe, também, o outro lado: a forma como nós próprias nos vemos. Eu aprecio a frase que reza: "Mostrem-me uma mulher sem culpa, que eu mostro-lhes um homem". Estamos sempre a sentir-nos culpadas ou que não fizemos alguma coisa. É preciso aprender a viver com este sentimento de uma forma mais saudável. Os desafios que eu enfrentei foram, principalmente, decorrentes da necessidade de lidar com a forma como os outros me olham. Todos nós queremos ter a aprovação dos que nos rodeiam, por muito que digamos que não.

Os homens têm o caminho mais facilitado (por exemplo, no acesso a financiamento), ou é mito?

Como ainda nos debatemos sobre a existência de uma desigualdade salarial entre homens e mulheres, sendo as mulheres o género mais prejudicado, isto acaba por se tornar um fator inibidor para o acesso a financiamento. Estudos indicam que quando uma mulher procura financiamento, por comparação ao homem, por norma procura aceder a créditos de valores não muito elevados. No que toca a prazos de contrato de pagamento, as mulheres têm datas mais extensas. Esta desigualdade tem por isso um efeito "bola de neve".

Que impacto prevê que venha a ter a pandemia na iniciativa empresarial das mulheres? A subida do desemprego poderá conduzir a uma nova onda de criação de autoemprego, tal como se verificou nos tempos da troika?

Prevê-se, e na verdade já conseguimos verificar que os setores mais afetados pela pandemia são os serviços, o retalho, turismo e a hotelaria, onde por norma trabalham mais mulheres que homens. Na medida em que os momentos de exceção, como as crises, podem também ser oportunidades de reinvenção, poderá ser dito que está para vir uma nova onda de empreendedorismo e criação do próprio emprego, mas não apenas de mulheres, seguramente.

O que aconselharia uma mulher que quer criar uma empresa a fazer em primeiro lugar?

O primeiro conselho teria de ser não ter medo de arriscar. Sentirmo-nos bloqueados ou inseguros no momento da decisão é algo perfeitamente natural. Mas o importante é sair do hiato da indecisão. Muitas vezes isso passa por arriscar, quer dizer, procurar descobrir se a nossa decisão leva onde desejávamos - o que só pode acontecer se essa mesma tiver lugar, por mais complexo que seja o contexto da decisão. E mesmo que as decisões não conduzam aos resultados esperados, uma ou mais vezes, isso não significa que por vezes a sensatez não seja uma forma de persistência ou de criação de métodos alternativos. É já um grande passo se tomarmos o fenómeno do fracasso como uma parte natural do caminho para o êxito. É nesse sentido, por exemplo, que podemos compreender as palavras de James Matthew Barrie - "somos todos fracassados - pelo menos os melhores de nós são".

Outra sugestão poderia ser o facto de não ser de todo necessário "inventar a roda". Muitas vezes procuramos um negócio totalmente disruptivo, mas nem sempre é necessário sair completamente dos serviços que existem. Uma boa ideia pode ser simplesmente colocar um laço, passe a expressão, e reinventar ou reformular algo que já existe.

Depois, claro, é sempre importante ter o plano de negócio, fazer a escolha certa dos sócios, estar consciente de que ser empreendedor significa ter dias bons, mas também dias menos bons ou mais difíceis.

Existem associações ou outro tipo de entidades a que as mulheres podem recorrer para obter apoio?

Sim, existem imensas associações às quais as mulheres podem recorrer para obter apoio, como por exemplo a Women WinWin, a Exchange ou a DoNa Empresa. No Grupo Your, para dar outro exemplo, nós próprios criámos uma associação, a Ilha, que procura dar apoio a todas as mulheres que querem recomeçar a sua vida profissional. Seja através do apoio na criação do plano de negócios, coaching ou até na procura de emprego.

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