Revolução 4.0

A crise como catalisador de mudança

Teleworking from home in Tunisia

Travagem abrupta da maior parte das economias mundiais obrigou as empresas a mudanças que podem vir a definir um novo perfil organizativo.

Tal como todas as crises da história, também a pandemia da covid-19 tem o potencial de agir como acelerador de mudança. As principais consultoras presentes em Portugal tentam analisar um futuro ainda com muitas incógnitas, mas que se adivinha mais colaborativo, com formas de liderança mais interventivas, maior aposta em modelos de produção sustentáveis e resilientes e um forte apoio na transição digital e no tratamento de dados.

“Esta crise vem colocar em causa a base de funcionamento dos modelos vigentes em matéria de economia. E, nesse sentido, não deixa de ser uma boa oportunidade para refletir sobre o que vai mudar e de como essas mudanças podem resultar num modelo mais resiliente e sustentável”, afirma Fernando Vilhena e Mascarenhas, partner da KPMG. À cabeça dessas mudanças aparece a alteração dos paradigmas de trabalho, acompanhada pela disrupção das cadeias de valor e por uma maior consciencialização sobre os problemas que impactam a humanidade.

Para o partner da KPMG a procura de modelos mais sustentáveis implica o repensar do contexto da globalização. “É preciso destacar não só o termo sustentável mas também o tema resiliência. Provavelmente uma reação imediata pós-crise será os países aumentarem as barreiras protecionistas ao comércio externo. E isso terá um impacto direto na maneira como pensamos a economia de uma forma global. Mas por outro lado, este risco de exposição a fenómenos que são transversais obrigará os gestores a pensar a forma como estruturam essas cadeias de valor e articulá-las de modo a serem mais resistentes, menos globais, mais regionais”, explica Fernando Vilhena e Mascarenhas, para quem isto implica reformular os níveis de stock e questionar os modelos de just in time.

Gabriela Teixeira, consulting lead rtner da PwC Portugal, concorda: “As empresas vão pensar em não estar tão dependentes da mesma zona geográfica, dos mesmos fornecedores e o sentimento da necessidade de incentivar as economias locais e nacionais pode levar algumas empresas a utilizar fornecedores da sua zona de proximidade”, diz.

Já Nelson Fontainhas, associate partner da Deloitte, admite que esta poderá ser uma tendência, mas apenas no curto prazo. “As empresas estão a perceber que a gestão do risco e a flexibilidade na cadeia de abastecimento são muito importantes pelo que o local volta a ter uma importância que estava a perder nos últimos tempos. Mas a globalização está para ficar”, garante.

Outro aspeto que a crise tornou evidente foi a aceleração da transição digital e o reforçar de novos modelos de trabalho e, com isto, novas formas de liderança. “Estamos já a viver alguma mudança na liderança, no sentido em que os líderes hoje têm de ter uma forte capacidade de comunicar, quer seja com os colaboradores, fornecedores ou clientes, num curto espaço de tempo. A capacidade de liderança tem de ser muito forte para motivar os colaboradores, conseguir manter os clientes e os fornecedores.

É uma forma de liderança mais interventiva, que penso que pode deixar consequências”, diz Gabriela Teixeira. “Num curto prazo, o papel da liderança passa muito pela obrigatoriedade de estar presente, próximo dos problemas e da capacidade de reação imediata não só para assegurar a proteção do negócio mas para dar uma maior confiança aos colaboradores. A médio e a longo prazo é fundamental identificar qual será o novo normal e implementar os ajustes organizacionais, mas nos dois momentos o papel ativo da liderança é fundamental”, assegura, por seu turno, Pedro Carvalhas Coutinho Ey-Parthenon da Ey.

A par com o proliferar do teletrabalho, houve também um incremento de modelos de inovação colaborativa que, adivinha-se, deverão ser mantidos. “Há duas dimensões a considerar; uma componente mais colaborativa, de open source, e outra uma componente mais aberta ligada à open innovation. A parte da partilha em open source é algo que talvez possamos encarar como específico dos dias de hoje: a partilha por uma empresa dos dados técnicos de um molde para um modelo de um ventilador é a resposta ao desafio atual. Agora, a parte de open innovation é uma tendência que poderá ser reforçada com esta pandemia, até porque a demonstração da capacidade de trabalhar remotamente tornou evidente que o espaço de operação é global”, afirma Pedro Carvalhas Coutinho.

Mas é, sem dúvida, o acelerar da transição digital nas organizações uma das principais consequências da atual crise. Isso implica não apenas recorrer cada vez mais às tecnologias 4.0 – com a análise de dados e a utilização da inteligência artificial como forma de antecipar cenários e ferramenta de apoio à decisão a ganharem cada vez maior importância – mas repensar os próprios modelos de negócio. “É muito importante que as empresas saibam reinventar-se nos seus modelos operativos e de negócio nesta nova economia digital – não olhar para a transição digital apenas como fazer o mesmo que já faziam, mas de forma mais eficiente graças à utilização de máquinas ou computadores, mas perceber como pode ser gerada mais receita ou ir mais além através das ferramentas que o digital proporciona”, diz Nelson Fontainhas.

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