EIA Cascais

Alar Kolk: “Portugal tem potencial para ser um Silicon Valley europeu”

Imagem Alar Kolk6

O presidente da Academia Europeia de Inovação afirma que se nota já uma evolução no empreendedorismo português, que Portugal tem tudo para ser o futuro da Europa e diz-se disposto a estender a permanência da EIA em Cascais por mais algum tempo.

Desde que o seu percurso académico e profissional o levou a passar pela Universidade de Stanford, na Califórnia, e por Silicon Valley, a meca da tecnologia dos EUA, Alar Kolk é um homem com uma missão: trazer para a Europa a mentalidade, métodos e ferramentas de empreendedorismo que ali encontrou e fazê-lo com a ajuda dos jovens, que são os homens e mulheres do futuro. Desta sua decisão nasceu a European Innovation Academy (EIA), um programa superintensivo de empreendedorismo e criação de projetos de startups tecnológicas que preferencialmente visem dar resposta aos grandes problemas do planeta e da humanidade. O evento começou modesto, com 60 “alunos”, no seu país natal, a Estónia. Em 2016 chegou a Nice e meses depois a Turim. No ano seguinte, Nice dava lugar a Cascais, onde a EIA chegou neste ano à sua 3.ª edição, batendo todos os recordes de dimensão: 500 jovens participantes de 75 nacionalidades, cem equipas a criar startups e 90 oradores e mentores vindos das mais prestigiadas instituições e empresas do mundo inteiro. Agora, a EIA já está em Hong Kong, na China, e em Doa, no Qatar. Para ano estreia-se em Calgary, no Canadá. Uma expansão que tem por objetivo “operar a mudança” que o visionário empreendedor diz já se notar em Portugal.

Decorreram três anos desde que a EIA chegou a Portugal. Já consegue notar uma mudança relativamente ao empreendedorismo em Portugal?
Sim, é possível observar uma grande alteração no ecossistema do empreendedorismo em Portugal. No espaço de três anos, Portugal desenvolveu um forte ambiente internacional para o funcionamento de startups e empreendedores. Há cada vez mais iniciativas de empreendedorismo a emergir de Portugal, o que tem grande impacto para a sua visibilidade global como um país de startups na Europa.

O que é que ainda falta fazer ou alterar?
Há muitos fatores que é necessário serem verificados para criar um ecossistema de inovação seja em que sítio for. Talentos, investidores de risco, uma situação governativa e legal propícia no país em causa. O primeiro passo foi claramente dado em Portugal. Os novos talentos estão desejosos de aprender e criar startups. A nova geração está pronta. Mas construir um sistema inteiro implica um processo de longo prazo. É preciso um sistema legal estável, com características legais parecidas com as dos EUA, do Reino Unido ou da Irlanda, em que as startups têm o apoio necessário para crescer. Por norma, é preciso esperar 15 anos para que comece a notar-se verdadeiros resultados, como unicórnios (empresas não cotadas em bolsa, avaliadas em mil milhões de dólares ou mais). É possível que só vejamos um maior impacto na próxima geração.

Do que observou no que respeita a estudantes, académicos, mentores e empresários portugueses, Portugal tem potencial para ser sede de um Silicon Valley europeu?
Sim, Portugal tem potencial para ser um Silicon Valley europeu. Todos os fatores relevantes necessários estão aqui reunidos, ou estarão num futuro próximo. O ecossistema local e as partes interessadas – universidades, empresas, mentores e jovens empreendedores – são inovadores e estão a trabalhar no sentido de atingir esse objetivo. Está tudo aí. Pode levar algum tempo para que todos os fatores se conjuguem e para os fazer funcionar, mas, no âmbito da Europa, Portugal é o futuro.

Agora que há diversas Academias Europeias de Inovação por todo o globo, como avalia a EIA Cascais face às suas congéneres em Turim, Hong Kong e Doa?
A EIA Cascais 2019 é o maior e mais internacional evento que já tivemos. São cem equipas a trabalhar durante 15 dias com o objetivo de criar a sua própria startup. É um número recorde, não apenas para nós mas para o mundo inteiro. Nós ensinamos a mesma metodologia e programa em todos os nossos eventos globais. Alguns são mais pequenos no seu primeiro ano, mas estão a crescer para eventos maiores. Cada local onde se realiza a EIA tem um valor único e próprio. Em qualquer lugar pelo mundo fora, a EIA é verdadeiramente um ambiente sem igual.

Anunciou em Cascais o lançamento da EIA Calgary no próximo ano. Depois dessa cidade, quais são os seus planos de expansão para a EIA?
A nossa visão é ter conseguido instruir um milhão de jovens em 2025. Tendo isso em mente, é preciso expandir. Muitos países veem a EIA como uma oportunidade para desenvolver o seu ecossistema de empreendedorismo e, desse modo, temos já diversos convites de várias partes do mundo. Atualmente, estamos a trabalhar para expandir o programa até à América Latina, à África e a Singapura.

Tendo em conta o sucesso da EIA Cascais entre estudantes, professores, mentores, oradores e parceiros, tanto portugueses como estrangeiros, continua a ter a intenção de lhe pôr fim em 2021, tal como acordado?
A EIA está em Portugal para operar a mudança. Queremos produzir impacto em empreendedores por todo o mundo. É uma missão muito grande, que leva tempo. O nosso objetivo é instruir 1500 estudantes portugueses. Para alcançar este número é possível que fiquemos para lá de 2021. Mas isto não depende apenas de nós – precisamos da cooperação dos nossos parceiros para o concretizar. O futuro o dirá.

Passa muitas vezes a mensagem de que aprender é uma viagem contínua, que nunca tem fim. Aprendeu alguma coisa com a EIA portuguesa que já não soubesse antes?
Eu aprendo algo de novo todos os dias. Onde quer que vá, em cada situação da vida, há sempre algo para aprender. O que aprendi com Portugal? A comida, a música, as pessoas, toda a cultura em Portugal é especial e foi um país que me ensinou a apreciar mais a vida e a estar grato. Portugal combina o que há de melhor na Europa. A palavra saudade, aquele sentimento de perda ou a ânsia de estar perto de alguém ou de alguma coisa, uma palavra que não é possível traduzir para inglês, demonstra-me quanta emoção e paixão existe na língua portuguesa e na vida dos portugueses.

PERFIL | De perito em assuntos do espaço a presidente da EIA

Nascido na Estónia há 45 anos, Alar Kolk é um homem apaixonado pelo futuro e pela inovação, que acredita ser a chave – a par do poder de iniciativa dos jovens – para salvar o planeta. Licenciado em Engenharia Industrial de Sistemas Complexos (como os dos porta-aviões e vaivéns espaciais), Alar Kolk fez mestrado em Gestão Tecnológica, na China, Coreia e Japão, e dois doutoramentos: um na sua área de licenciatura, outro em Estudos Aeroespaciais, designadamente em Design de Sistemas de Transporte para Marte, que foi fazer ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA. No seu percurso, ainda passou pela Universidade de Stanford e por Silicon Valley, onde a inovação lhe ficou ainda mais entranhada no sangue. Em termos profissionais, ao longo dos anos, Alar Kolk foi presidente e administrador de diversas empresas, diretor da Agência de Inovação e Tecnologia, ligada ao Ministério da Economia da Estónia, e conselheiro do Ministério das Finanças do seu país. Foi vice-reitor para a Inovação e Internacionalização da Universidade de Tecnologia de Tallinn, Estónia e, a partir de 2011, lançou-se na sua missão de propagar o empreendedorismo fundando a European Innovation Academy.

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