30 portugueses

Catarina de Albuquerque: “O problema em Portugal é que não se ganha bem”

Catarina Albuquerque preside à parceria da ONU "Água e Saneamento para Todos". (Orlando Almeida / Global Imagens)
Catarina Albuquerque preside à parceria da ONU "Água e Saneamento para Todos". (Orlando Almeida / Global Imagens)

Catarina de Albuquerque, uma portuguesa na ONU, foi a convidada desta semana do ciclo de entrevistas públicas 30 Portugueses, Um País.

São as desigualdades gritantes entre ricos e pobres que existem hoje em Portugal que mais preocupam Catarina de Albuquerque, presidente da iniciativa das Nações Unidas para garantir que todas as pessoas têm acesso a água potável e a saneamento. “O problema é que em Portugal as pessoas não ganham bem.” As medidas de austeridade, que, na sua opinião, são violadoras dos direitos humanos, vieram agravar a situação.

“O Estado português tem de explicar que tentou tudo antes de aplicar medidas de austeridade.” Antes de decidir retroceder nos direitos das pessoas, a entrevistada desta semana do ciclo 30 Portugueses, Um País explicou que é possível “expandir os recursos disponíveis.” O que não devemos é cortar a quem menos tem, o que, garante, é uma violação de direitos humanos. “Em vez de proteger os desfavorecidos fizemos o contrário.”

Ainda sobre as desigualdades, a ex-relatora especial das Nações Unidas, de 48 anos, contou que gostava que em todos os países do mundo houvesse um mapa das desigualdades no acesso à água e ao saneamento. Acredita que isso pode revelar os fatores que levam à discriminação e à pobreza.

A sua ideia é de pessoa pragmática, atitude que muitos diriam típica de quem se formou na Escola Alemã de Lisboa: “Ao identificar os fatores de discriminação e desigualdade conseguimos resolver problemas.”
É sempre com o objetivo de encontrar soluções e ter impacto real que atua. Esta lisboeta, filha de mãe alentejana e pai suíço, não esconde que sente estar a contribuir para um mundo melhor. “Sou naturalmente otimista. Mas também choro.” Admite que, por vezes, fica sem ar perante problemas muito graves. Noutras situações vai buscar esperança. Se há soluções que funcionam em certas zonas do globo, é porque há uma possibilidade de as coisas mudarem para melhor, defendeu. Sabe que não pode fazer tudo, mas, insiste, “cada um de nós pode fazer qualquer coisa”.

Cita o livro Factfulness de Hans Rosling, sueco, especialista em saúde pública, dizendo: “Foi das coisas mais bonitas que li.” A obra alerta para o facto de o mundo nunca ter estado tão bem como está hoje e que há quem queira fazer crer o contrário para não darmos dinheiro à ajuda ao desenvolvimento. Contudo, não gosta de falar de números [dados globais] porque, como diz, “o sofrimento de apenas uma pessoa vale por si”.

É desconhecida da generalidade dos portugueses, mas foi ela que conseguiu que o direito à água potável e saneamento fosse declarado direito universal pelas Nações Unidas. Talvez os temas dos direitos económicos e socioculturais sejam pouco sexies, justifica. Além disso, diz, direta: “Estou ocupada a trabalhar e não me ponho em bicos de pés para me promover.”

É pelo envolvimento dos jovens na temática dos direitos que passam os seus planos de futuro.
Mafalda Ribeiro, oradora motivacional que vive com a chamada doença dos “ossos de vidro”, será a convidada da próxima semana deste ciclo de conversas.

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