Revolução 4.0

Centros de saber e empresas, uma relação em que todos ganham

José Miguel Almeida, investigador no Laboratório dos Sistemas Autónomos do INESC TEC/ISEP.

( Igor Martins / Global Imagens )
José Miguel Almeida, investigador no Laboratório dos Sistemas Autónomos do INESC TEC/ISEP. ( Igor Martins / Global Imagens )

Trabalho conjunto entre empresas e universidades permite criar valor para ambas as partes, e funciona como mecanismo de financiamento da investigação.

A parceria entre as universidades e centros de Investigação & Desenvolvimento (I&D) e o tecido empresarial revela-se uma relação win-win. Se as empresas ganham em termos de posicionamento na cadeia de valor e dos próprios resultados, do lado da academia as vantagens também se multiplicam. Esta relação não só permite uma constante atualização dos grupos de investigação como funciona como mecanismo de financiamento e garante uma maior prosperidade económica à região, garantindo-lhes um futuro mais promissor.

No caso de centros de investigação como o INESC TEC, presidido por José Manuel Mendonça ou pelo CoLab em Transformação Digital, instalado na Universidade do Minho e presidido por António Cunha, esta relação é a sua própria razão de ser. “O CoLab está instalado na universidade mas é uma instituição marcadamente liderada pelas empresas e com uma agenda de investigação consubstanciada num road map tecnológico a quatro ou cinco anos feito em sintonia com as empresas associadas”, esclarece António Cunha, para quem os desafios colocados na tentativa de resposta às necessidades das empresas vão muito para lá da componente tecnológica. “A transformação digital está a alterar o modelo de negócio das empresas o que faz com que a nossa articulação com a estratégia das empresas tenha de ser total”.

António Cunha sublinha que a estratégia de investigação e inovação está presente mesmo nas pequenas empresas. Contudo, deixa um alerta: “Só faz sentido uma empresa empenhar-se em projetos de I&D se a posição que tem nas cadeias de valor em que está envolvida lhe permitir fazê-lo. Mas é um pouco como uma ‘pescadinha de rabo na boca’: para subir na cadeia de valor é preciso ter I&D, mas se não tiver I&D não sobe. É preciso conseguir quebrar este círculo”. O que, de acordo com António Cunha, poderá ser feito quer através de constituição de parcerias, conquista de massa crítica ou da aposta em estratégias de diferenciação. “Isto pressupõe algum amadurecimento das relações entre as empresas e as instituições de I&D. As boas soluções são resultado de um trabalho conjunto que vai sendo elaborado e que demora sempre dois a três anos a dar resultado”, sublinha.

“O modelo do INESC TEC sempre foi fazer investigação aplicada, dirigida à relevância social e ao impacto económico mas também fazer transferência de tecnologia, passar para a sociedade, para as empresas, os resultados dos projetos de investigação. No fundo ter uma cadeia de valor e evitar o ‘vale da morte’ onde jazem os esqueletos dos projetos de investigação que não servem para nada. Trabalhamos de acordo com este paradigma em todas as áreas sendo a área da indústria muito forte”, explica José Manuel Mendonça, que destaca a importância das tecnologias 4.0 nos projetos ali desenvolvidos.

Neste âmbito, o INESC-TEC tem desenvolvido, entre outros, modelos de gémeos digitais – digital twin, um modelo informático que replica no computador o funcionamento de uma fábrica atuando no apoio à gestão e decisão – para empresas como a Fly London ou Ikea, ou projetos na área da cooperação homem-robô, como o desenvolvido para a Renault Europa que visa um processo colaborativo na montagem do interior de um dos modelos.
Em todos eles, independentemente da dimensão da empresa – que deve ter uma ideia muito clara do que pretende, criando antecipadamente um roteiro de investimento -, o envolvimento desta no processo é sempre necessário.

A JPM – Automação e Equipamentos Industriais, empresa de Vale de Cambra vencedora do Prémio PME Inovação COTEC-BPI, sempre viu a inovação como forma de agregar valor. A relação com os centros de saber iniciou-se assim que a empresa, criada em 1994 numa garagem, conseguiu a massa crítica suficiente para o fazer. “Foi uma decisão muito importante. A empresa nunca teve uma postura fechada e cedo percebeu isso era algo que gerava valor. A aproximação às universidades vem no seguimento deste raciocínio já que nos dava a possibilidade de nos confrontarmos com pessoas com uma forma de pensar diferente e de nos sentirmos desafiados pelos processos em que nos fomos envolvendo”, recorda Miguel Henriques, board member da empresa.

A JPM desenvolve a sua relação com universidades e centros tecnológicos segundo três perspetivas: melhorar processos organizativos internos, desenvolvimento de tecnologia que possa ser útil para a empresa ou para os seus clientes e desenvolvimento de produto.

Para Miguel Henriques é essencial que este tipo de relação seja assente no valor criado e, no caso da JPM os ganhos são evidentes. “Desde a classificação dos projetos em que estamos envolvidos, a valorização das vendas que vêm através deles, a valorização dos projetos de inovação em que participamos, tudo isso tem a inovação por base”.

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