Chegada do 5G pode melhorar desempenho da economia nacional

Mais do que velocidade, a nova geração de rede móvel vai permitir acelerar o desenvolvimento de cidades inteligentes e tornar os negócios mais eficientes. Em Portugal, o leilão continua por terminar.

Depois de meses a discutir a introdução do 5G em Portugal, já poucos têm dúvidas sobre o seu potencial transformador para os negócios, para as cidades e para as pessoas. No entanto, o leilão de frequências inicialmente previsto para 2020 foi sendo adiado em consequência da pandemia e, quando finalmente arrancou, voltou a ficar em banho-maria por desacordo entre a Anacom e os operadores de telecomunicações. Em causa estava o regulamento que, defenderam as empresas, não favorecia o investimento na infraestrutura e discriminavam os operadores nacionais de outros que pudessem querer entrar no mercado português. Já no fim do terceiro trimestre de 2021, o leilão ainda decorre e o país pouco avançou num processo que já devia estar concluído.

Mas qual é, afinal, a urgência na adoção do 5G? A resposta é complexa, já que os impactos da implementação da nova rede variam entre setores da economia, mas é consensual que permitirá modificar processos, impulsionar o uso de novas tecnologias e, com isso, aumentar a produtividade e rendimento das empresas. "A expectativa sobre o impacto andava em volta da automação em processos de fábrica, robótica ou capacidade de teleguiar equipamentos", exemplifica ao Dinheiro Vivo Pedro Tavares, que refere ainda o desenvolvimento das cidades inteligentes como uma das áreas que vai beneficiar da nova tecnologia. O partner da Deloitte tem acompanhado o tema não apenas em Portugal, mas no mundo e alerta: o país arrisca-se a perder competitividade se continuar a atrasar a adoção da rede. "Há países que já têm 5G há mais de três anos", sublinha.

Antes da chegada da pandemia, a consultora publicou um estudo sobre o impacto económico do 5G em Portugal com dados animadores para o tecido empresarial nacional. Uma das previsões - atualmente a ser revista devido aos efeitos da covid-19 - antecipava um ganho potencial de 17 biliões de euros para a economia, maioritariamente com origem em seis indústrias: manufatura, setor grossista, comunicação e informação, retalho, transporte e serviços. Ainda que os números antecipados pela Deloitte possam ser afetados pelos efeitos da pandemia, a nova geração móvel terá um forte impacto positivo no crescimento económico do país. Aliás, ao longo do último ano marcado pelas consequências do novo coronavírus, foi possível manter vários setores de atividade em funcionamento graças às telecomunicações e à internet. Problemas como ligações lentas e condicionamento das redes por sobrecarga serão, garante Pedro Tavares, cenários "pré-históricos" com a implementação do 5G. "Daqui a dois ou três anos a internet fraca não vai existir em comunicações como as que fazemos hoje", diz.

Portugal no fim do pelotão

Países como a Coreia do Sul, China, Austrália ou EUA têm a vantagem competitiva na utilização do 5G e lideram a corrida. "Os EUA já usam muito a nova geração móvel na automação de processos, por exemplo, na manipulação de contentores em portos", explica o consultor, acrescentando ainda o caso da indústria automóvel norte-americana em que marcas como a Ford ou a Tesla são exemplos. A Europa, porém, "está profundamente fragmentada", deixando os diferentes Estados-Membros em níveis distintos de adoção. "São já mais de vinte os países europeus que têm 5G. Em Portugal, provavelmente seremos mesmo os últimos", lamenta.

Este é, no entanto, um desígnio da Comissão Europeia (CE) para os próximos anos, no âmbito do plano europeu de digitalização. Entre outros objetivos, a CE quer que até 2030 todas as áreas povoadas da Europa tenham cobertura de 5G, mas para isso será necessário ultrapassar os principais desafios à sua expansão. A pesquisa realizada pela Deloitte antecipava o risco de o processo de disponibilização da rede em Portugal ser atrasado por burocracia e pelos custos elevados da infraestrutura, algo que se veio a verificar com a complexidade do leilão promovido pela Anacom. Outro dos obstáculos prende-se com o baixo nível sofisticação tecnológica do tecido empresarial português, essencialmente composto por micro, pequenas e médias empresas.

Pisar o acelerador para a implementação do 5G é, mais do que nunca, urgente se o país não quiser continuar a perder competitividade face aos seus congéneres europeus. Além disso, o período de recuperação pós-covid é terreno fértil para potenciar os ganhos económicos trazidos pela nova tecnologia de telecomunicações, ajudando Portugal a levar a cabo a sua estratégia nacional para a transformação digital.

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