Poupança para a Vida

Crescer em número e ganhar hábitos de poupança: dois reptos para o futuro

Conferência "Uma Poupança para a Vida" na Fundação Champalimaud em Lisboa

( Filipa Bernardo/ Global Imagens )
Conferência "Uma Poupança para a Vida" na Fundação Champalimaud em Lisboa ( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

Poupança e demografia são dois temas-chave para o futuro da sociedade e economia nacionais. Estiveram em debate na Fundação Champalimaud.

Poupança e demografia foram os principais temas em debate no passado sábado, dia 13 de outubro, na Fundação Champalimaud, em Lisboa. A conferência Uma Poupança para a Vida, uma iniciativa conjunta da Real Vida Seguros, Dinheiro Vivo, TSF e Diário de Notícias, trouxe para junto do Tejo a discussão em torno de problemáticas como o atual défice demográfico nacional, envelhecimento e longevidade – e respetivas consequências na sustentabilidade do atual sistema da Segurança Social – ou a necessidade de incentivar a poupança para garantir não apenas uma velhice segura e confortável como o próprio dinamismo da economia do país.

Eliza Filby, especialista britânica em história e comportamento geracional, deu o pontapé de saída no debate com a comunicação “O futuro do país e a sua demografia”. Partindo da análise das quatro gerações que hoje coexistem na sociedade – baby boomers, geração X, millennials e geração Z – Filby traçou as expectativas sobre a vida e o comportamento em relação às finanças e à poupança dos quatro grupos.

Antecipando cenários, Filby estimou que a população portuguesa com 80 anos ou mais pode vir a duplicar até 2060 e deixou um alerta: se o nível de poupança não aumentar – e tendo em conta os 14% do PIB atualmente canalizados para o pagamento de pensões -, é de esperar que os reformados do futuro venham a receber menos 20% do que os atuais pensionistas.

Perante esta situação – e tendo em conta os fracos hábitos de poupança das gerações X e millennial – é necessário não só fomentar a poupança como preparar os jovens de hoje para o mercado de trabalho do século XXI, no qual a educação ao longo da vida, a agilidade e a tecnologia vão desempenhar um papel cada vez mais fundamental.

No debate que se seguiu, Telmo Francisco Vieira, coordenador do Observatório da Natalidade e Envelhecimento, Jorge Malheiro, geógrafo do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia e Fernando Ribeiro Mendes, vice-presidente do think tank Cidadania Social, puseram a tónica no atual défice demográfico português – desde 1982 que os nascimentos não são suficientes para fazer a reposição de gerações -, no envelhecimento da população e nas respetivas consequências no futuro da economia e sistema de pensões público, sublinhando a necessidade de fomentar hábitos de poupança junto das famílias.

Foi também esta a tónica principal da segunda oradora da manhã, Jasmine Britles, jornalista e especialista em temáticas financeiras e de negócios. Traçando o paralelo entre as realidades portuguesa e britânica, a jornalista sublinhou a necessidade premente de incentivar a poupança nos dois países. Para Jasmine Britles, o atual modo de gestão do sistema de pensões público assemelha-se a um esquema de Ponzi, em que o dinheiro entra e sai sem que seja feito investimento. Assim, tal como nos esquemas de Ponzi, adivinha-se que mais tarde ou mais cedo o sistema se torne insustentável.

A necessidade da aposta na literacia financeira e uma atuação do Estado que fomente a poupança das famílias foram dois aspetos sublinhados por Britles, que deu ainda como exemplo o sistema que entrou em vigor no Reino Unido em 2012 dirigido aos trabalhadores por conta de outrem. No referido sistema – que poderia depois ser adaptado à realidade dos trabalhadores independentes -, a partir do momento em que é contratado, cada trabalhador passa a descontar de forma automática para um fundo de poupança. Para Jasmine Britles, é a situação mais fácil em países com uma fraca taxa de poupança, já que esta é automática e, de certa forma, impercetível.

No debate, Luís Laginha de Sousa, administrador do Banco de Portugal (BdP), Fernando Alexandre, professor associado da School of Economics and Management da Universidade do Minho, e o economista João Duque refletiram sobre as alterações dos hábitos de poupança nacionais ao longo das últimas décadas, em particular nos anos da crise. Laginha de Sousa explicou a forma como as atuais recomendações do BdP – embora criadas para assegurar uma maior estabilidade do sistema financeiro – podem ser refletidas positivamente nos hábitos de poupança individuais. João Duque alertou para as consequências da ausência de poupança na economia nacional – que, a longo prazo, se torna cada vez mais dependente do capital e investimento externos, levando a que a riqueza produzida saia do país. Por seu turno, Fernando Alexandre lembrou o facto de muitas famílias portuguesas não terem sequer o rendimento necessário para, depois de suprir as necessidades quotidianas, constituir poupança, estando o aforro concentrado numa faixa muito reduzida da população.

A conferência foi encerrada por Jorge Braga de Macedo, ex-ministro das Finanças e professor da Nova School of Business & Economics, que também sublinhou a importância da poupança das famílias para o futuro da economia nacional.

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