Conversas PortoBay

Joana Vasconcelos: “Só com a ajuda dos portugueses consegui fazer o cacilheiro”

Conversa entre Joana Vasconcelos e o jornalista Luís Osório
(João Silva/ Global Imagens )
Conversa entre Joana Vasconcelos e o jornalista Luís Osório (João Silva/ Global Imagens )

Foi a convidada desta semana do 30 Portugueses, Um País. A artista plástica vê-se como “uma artista que representa a sua tribo”.

Joana Vasconcelos teve até agora dois momentos de stress na sua carreira, confidenciou por ocasião do ciclo de entrevistas públicas 30 Portugueses, Um País, evento promovido pelo grupo hoteleiro madeirense PortoBay.

Um foi quando, em 2008, decorou a Torre de Belém com boias náuticas; o outro foi transformar em obra de arte o antigo cacilheiro Trafaria Praia para representar Portugal na Bienal de Veneza, em 2013.
No primeiro caso teve de converter os guias turísticos, que se opuseram ao projeto, à sua visão contemporânea do monumento. No caso do cacilheiro, “não tinha dinheiro”.

Depois de ter exposto o seu problema na televisão ao humorista Herman José recebeu um cheque de mil euros de uma médica que dava o que podia. Este seria o primeiro donativo particular para arrancar com o projeto. Depois, foi uma chuva de contribuições, sem a qual nunca teria chegado a bom porto com a sua embarcação revestida a azulejos da Viúva Lamego. “Só com a ajuda dos portugueses consegui fazer o cacilheiro. Quiseram que eu representasse a nação.”

Mas, afinal, quem é Joana Vasconcelos, que se assume como a artista líder da nação? Sobre a sua identidade, diz que tem raiz nos seus 15 anos quando começou a ir ao Frágil, no Bairro Alto, em Lisboa, onde trabalhava um primo mais velho. Era a discoteca da moda para uma elite da década de 80, onde quem zelava pela criteriosa seleção à entrada era Margarida Martins que estava sentada na assistência. A fundadora da Abraço, associação de apoio a doentes seropositivos, foi nesta semana a convidada especial da série Conversas PortoBay.

“Vejo-me como a miúda do Frágil, do Lux [outra discoteca junto ao Tejo na zona de Santa Apolónia] e do Karaté.” No fundo, remata, “sou uma artista que representa a sua tribo”. Traz a si a responsabilidade pela representação da identidade portuguesa porque acredita que a obra pode ser a materialidade de uma cultura.

A sua marca é recuperar aspetos da identidade nacional, aqueles ícones da tradição portuguesa que são muitas vezes recusados por estarem ligados ao período da ditadura. “Só 40 anos depois, comigo, a pergunta é feita: quem somos?”

Cria várias peças diferentes ao mesmo tempo. Num dia faz várias coisas diferentes no seu ateliê na Doca de Alcântara, que é para si um símbolo importante. “É mesmo quem eu sou”, exclama, dizendo que passa os seus dias onde o Tejo se encontra com o Atlântico. “Esta cidade desce para o Tejo. Mas há outra poética que é a do Atlântico”, acrescenta num tom, como se estivesse a recitar um poema.

Tem 47 anos, nasceu em França para onde os seus pais emigraram, mas cedo voltou para a periferia de Lisboa. Define a sua família como intelectual, multicultural, de esquerda, que discute política e que não é Católica.

Quando em 2002 fez a peça www.fatimashop preparou-se. Levou 14 horas em peregrinação de Lisboa até Fátima numa moto com cobertura para poder observar o fenómeno religioso. Consigo viajou uma equipa de pessoas que, tal como ela, não eram batizadas e que deviam vestir t-shirts com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. O projeto estava cheio de simbolismo e Joana Vasconcelos partilhou que foi um marco na sua visão do que é espiritual.

A sua formação artística foi feita na escola António Arroio e no Ar.Co e o pico do seu reconhecimento internacional deu-se com a participação na Bienal de Veneza, em 2005, com a obra A Noiva, um polémico lustre gigante feito de tampões higiénicos femininos.

A peça foi excluída da exposição que a própria fez no Palácio de Versalhes, em 2012, por ter sido considerada desadequada. “Ao longe, as pessoas dizem ‘que linda peça’, mas quando se aproximam arrepiam-se”, contou.

Parece-lhe importante que as pessoas entendam o que está por trás das suas criações, perguntou o entrevistador Luís Osório e um dos mentores desta iniciativa que dará origem a um livro em 2019. “Tentei muito explicar A Noiva. Mas por mais que o fizesse, cada pessoa interpretava-a à sua maneira.” Em geral, como reage a críticas? “Sou dos portugueses que foram nas caravelas. Os que ficam dizem sempre mal dos que foram.”

Não duvida que ser uma mulher de grandes dimensões reflete-se na sua arte. “Nunca fui magra, era forte, mas sem ser gorda – era a miúda do karaté.” Resolveu falar do tema para acabar com a ideia de que quem é gordo é feio, mole e preguiçoso. “Se faço peças grandes é para dizer que todos podemos ser como queremos.”

Os encontros com portugueses que se destacam acontecem à terça-feira, às 18.00, na Rua Rosa Araújo, em Lisboa. Dia 8 de janeiro de 2019 temos encontro marcado com a ex-procurador-geral da República Joana Marques Vidal.

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