Como eu poupo para a vida

João Miranda: “Não me sinto confortável com liquidez”

João Miranda, CEO da Frulact
João Miranda, CEO da Frulact

Os PPR que fez quando contraiu um crédito à habitação foram desmobilizados uma década depois. João Miranda tem aversão à liquidez e prepara o futuro fazendo crescer o negócio.

João Miranda, 53 anos – 30 dos quais à frente da Frulact – opta por seguir uma vida regrada e poupar no dia-a-dia. Aos produtos de poupança, prefere o investimento patrimonial e, sempre que a tesouraria o impõe, recorre a financiamentos. Tem sido esta a sua lógica de gestão, quer na vida pessoal como na empresarial.

O facto de se ter lançado num negócio tão jovem fez com desse mais a importância à forma como gere o dinheiro?

Sim, acho que fui condicionado por isso. Este projeto foi um bocadinho o projeto da minha vida e sempre fui obrigado a olhar para o dinheiro como um meio para alcançar um fim muito objetivo: fazer crescer a empresa. E por isso eu revejo-me no dinheiro mais em termos patrimoniais e não tanto em termos de liquidez.

Antes disso tinha mesada ou trabalhava nas férias?

Eu nasci numa mercearia por isso desde sempre tinha contacto direto com o dinheiro. Mas há um momento que ficou sempre registado que era quando, à noite, me sentava com a minha avó e fazíamos o caixa e lembro-me do prazer que isso me dava. E eu estava todo feliz a esticar as notas de 20 escudos e a coloca-las todas direitinhas e ela dava-me dois tostões. E havia outro pormenor engraçado: os meus pais davam-me muitos livros da Disney e eu falava sempre à minha avó sobre o Tio Patinhas, e ela dizia-me que ele não era um bom exemplo porque era avarento. Para ela o dinheiro não era só para aforrar, devíamos ter o dinheiro necessário para vivermos e depois tínhamos projetos que podíamos desenvolver, investimentos a fazer.

Entretanto foi constituindo poupança a pensar no futuro ou continua a seguir uma lógica mais patrimonial?

Eu sou pouco de poupança numa lógica de liquidez. Não gosto, nem me sinto confortável, com liquidez. Estes anos todos sempre os vivi com esticões e tensão na tesouraria. E isso fez com que eu olhasse sempre para o meu dia-a-dia de forma muito mais atenta e cuidada e não gastasse dinheiro com coisas fúteis: não é o bom carro, o bom telemóvel ou umas férias fantásticas que me interessam, mas sim o bom equilíbrio entre o prazer de usarmos algo e o seu custo correto. Outra das minhas opções é usar dinheiro de bolso no dia-a-dia e não dinheiro de plástico. E incentivo os meus filhos a fazer o mesmo. Porque acho que o dinheiro de plástico faz com que percamos a sensibilidade e esse cuidado que devemos ter com o que são as nossas despesas. Nos últimos 30 anos, eu e os outros acionistas da Frulact sempre nos revimos na lógica de crescimento patrimonial. Poderíamos preferir ter dividendos todos os anos, mas, ao longo deste tempo se calhar tivemos dividendos quatro vezes. E acho que foi a decisão correta porque fomos investindo tudo aquilo que criámos no projeto, fazendo-o crescer de forma quase exponencial.

Produtos de poupança como os PPR não são aliciantes para si?

No início da minha carreira, associei uns PPR a um crédito à habitação mas, passados uns dez anos, acabei por os desmobilizar. E estou contente com essa decisão. Se houver uma necessidade pontual de tesouraria, poderei aceder a um financiamento. É isso que tenho feito ao longo da minha vida, quer na empresa quer a nível particular. Gosto desses esticões para estar sempre em tensão e, dessa forma, estar mais atento às minhas despesas e garantir que o supérfluo não faça parte das minhas escolhas.

Ou seja, as suas poupanças fazem-se nas escolhas diárias?

Sim, porque as minhas poupanças são muito mais encaminhadas para os projetos e é neles que me revejo em termos patrimoniais.

Incute esse mesmo espírito nos seus filhos?

Eles já têm 25, 22 e 16 anos, mas é exatamente essa lógica da poupança no dia-a-dia que lhes tento incutir. Socialmente devemos impor-nos por aquilo que conseguimos produzir e por aquilo que conseguimos ser enquanto pessoas e profissionais, e não pelo carro que guiamos ou da roupa que vestimos. SAIBA MAIS

 

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