Revolução 4.0

Maior automação das empresas exige mais e melhor formação

REUTERS/Toru Hanai
REUTERS/Toru Hanai

A transformação do trabalho, inerente à cada vez maior digitalização e automação, cria novos desafios às empresas, nomeadamente na recapacitação da força de trabalho.

A inovação é um fator distintivo na era da indústria 4.0. Mas a transição para um universo cada vez mais digital implica uma redefinição não apenas do posto de trabalho como da própria natureza de algumas funções, o que implica investir, simultaneamente, em tecnologias, nas pessoas e nos processos.
De acordo com os dados apresentados no Fórum Económico Mundial, em 2018, o rácio entre o trabalho desempenhado por seres humanos e por máquinas vai alterar-se drasticamente: em 2018, os seres humanos desempenhavam uma média de 71% do total das horas de trabalho, cabendo às máquinas 29% do trabalho, em 2022 prevê-se que essa relação seja de 58%-42%.

“A história da tecnologia, e da própria robótica e automação tem mostrado que de cada vez que estas tecnologias se desenvolvem conseguem libertar o ser humano de trabalhos que normalmente são perigosos, repetitivos e pouco criativos e melhorar a capacidade de produção e o custo dos bens”, assegura José Santos Vítor, professor do Instituto Superior Técnico e investigador no Instituto de Sistemas e Robótica, para quem hoje a principal diferença é a maior rapidez com que a mudança está a acontecer.

“No cômputo geral, há trabalhos que vão ter tendência a desaparecer e irão surgir outro tipo de profissões e de competências que serão cada vez mais necessárias no futuro”, afirma o investigador, que recorda os resultados de um estudo recente de uma empresa de recursos humanos norte-americana, que, a partir da análise de cinco milhões de ofertas de emprego, constatava que a automação, a inteligência artificial e a robótica estavam a triplicar o número de oportunidades criadas, comparativamente com os postos de trabalho extintos.

Para José Santos Vítor, os desenvolvimentos tecnológicos têm de ser acompanhados por formação, estando a questão em saber se há tempo para fazer essa transição. “A aprendizagem ao longo da vida nunca foi tão relevante na medida em que o prazo de validade do conhecimento é cada vez mais curto. Isso vai exigir ciclos mais curtos de atualização da formação dos profissionais e vai levar a uma aproximação maior entre as universidades e as empresas.”

José Bandeira, CEO da Flupol, empresa de engenharia de superfícies, que fundou há 34 anos, desde há décadas que aposta nesta transição. “Já há 20 anos que a Flupol está a preparar o futuro. A aposta foi feita na capacidade de exportar tecnologia. Foi nessa área que desenvolvemos todo o software de gestão, de suporte e de ligação da fábrica à gestão e também a ligação entre o operador e a máquina”, explica o CEO da Flupol, para quem o robô é encarado como “o braço do trabalhador”.
“Mas há um handicap: se exigimos que a perícia manual é fundamental para o desenvolvimento de soluções, como é que vou pôr um programador, que é um especialista de software, a fazer isso? Por outro lado, também não posso recorrer ao operador porque ele não sabe nada de programação”, alerta.

Na Flupol, a solução passou pelo desenvolvimento – em conjunto com a FEUP e o INESC – de uma tecnologia que permite à máquina ver o que o operador faz e transformar essa visão em linguagem de máquina. A alteração provocou mudanças nas funções dos operadores, que ganharam novas competências. “Na Flupol tentamos transformar o trabalhador num especialista e num controlador de linha de produção.”

Rute Pacheco faz parte da equipa de transformação lean cuja task force foi criada pela Efacec para melhorar e vitalizar os processos, na passagem para uma maior automação. “O que se pretende não é acabar por completo com o trabalho manual mas tornar o fluxo de informação muito mais fluido e ter uma cadeia de valor transparente”, explica. Mas nem sempre a mudança de mentalidades tem sido fácil. “A empresa está a fazer um workshop sobre a indústria 4.0 com uma empresa externa numa tentativa de mostrar o valor que isto acrescenta à organização. E há também um esforço em mostrar que o que vai acontecer não é a extinção dos postos de trabalho, mas a sua adaptação a uma nova realidade.”

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