Conversas PortoBay

Rita Blanco: “Indústria agrícola está a rebentar com o planeta”

“Neste momento adoraria fazer séries”, diz Rita Blanco. (Orlando Almeida / Global Imagens)
“Neste momento adoraria fazer séries”, diz Rita Blanco. (Orlando Almeida / Global Imagens)

A atriz está indignada com a ignorância das pessoas que não param para refletir sobre “a produção alimentar irracional do capitalismo selvagem”.

Que direito temos de fazer sofrer os animais em nome do divertimento, questionava Rita Blanco nesta semana quando foi entrevistada no âmbito do ciclo de conversas 30 Portugueses, Um País, promovido pelo grupo hoteleiro madeirense PortoBay.

Comovida, a atriz galardoada várias vezes em Portugal nos Globos de Ouro e condecorada em França, partilhou que chora muitas vezes quando pensa no sofrimento dos outros, tanto de pessoas como de animais. Irrita-se quando recorda as palavras do socialista Manuel Alegre que disse à imprensa, por ocasião do debate sobre o IVA das touradas, que quem não percebe o que há de sagrado na corrida de touros também não percebe a poesia, nem a literatura. Apesar de dizer que é contra os maus-tratos aos animais, o político e escritor defende esta tradição portuguesa que deixa Rita Blanco fora de si: “A tourada é ela própria um desrespeito pela vida.”

A atriz aderiu ao veganismo e deixou de comer e usar roupa e produtos de origem animal por motivos éticos. Indigna-se com aquilo a que chama a ignorância das pessoas que não param para refletir sobre “a produção alimentar irracional do capitalismo selvagem” e o facto de “a indústria agrícola estar a rebentar com o planeta”. E aconselhou a quem naquela tarde a ouvia no Hotel PortoBay em Lisboa o What the Health, para que vissem como os animais estão a ser tratados. Hoje, reconhece que se isola mais devido aos seus novos hábitos alimentares, mas diz que come melhor porque aprendeu a cozinhar sem carne nem peixe.

Os seus planos de futuro refletem a sua filosofia de vida: mudar-se para o Algarve rural e fazer teatro com as pessoas da aldeia. Diz que não precisa de apoios camarários, apenas deseja “fazer teatro debaixo de um telheiro”. Com o seu humor ímpar e pura espontaneidade, lança: “Gosto de pessoas, mas odeio a humanidade. Tenho a certeza de que há muito mais pessoas boas do que más. Só que as pessoas más fazem muito barulho e têm um efeito nocivo no mundo.”

“Neste momento adoraria estar a fazer séries”, afirmou Rita Blanco, muito conhecida do público pela sua participação no programa Noite da Má-Língua, na série Conta-Me como Foi e, mais recentemente, no filme A Gaiola Dourada, onde fez o papel da Maria, uma porteira portuguesa emigrante em França.
Contudo, televisão não é o que gosta mais de fazer. “Num mundo ideal, televisão não seria das coisas que mais quisesse fazer.” Mas vai acrescentando que é este meio que lhe põe comida na mesa e lhe permite realizar outro tipo de sonhos.

De que mais gosta na vida? “Gosto imenso da condição de ser pessoa, das nossas capacidades e fragilidades. Eu só sou atriz por causa das pessoas.” O papel da sua vida, diz, é o ser humano. “Eu não acredito em representar. Acredito em ser”, destacou quem na edição de 2018 dos Globos de Ouro foi premiada como Melhor Atriz pela participação no filme Fátima.

A bióloga Mónica Bettencourt Dias, diretora do Instituto Gulbenkian de Ciência, é a convidada da próxima semana deste ciclo de entrevistas públicas.

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