Revolução 4.0

Saber não ocupa lugar… e pode até potenciar lucros

Pousada de Saramagos, 17/05/2016 - Estratégia criativa de dinâmica empresarial: Reportagem com ideias de negócio que se transformaram em empresas, na incubadora Made InCUBAR nas instalações da Riopele.
Bernardino Carneiro, administrador de Empresas do Grupo Têxtil Riopele.
(Miguel Pereira/Global Imagens)
Pousada de Saramagos, 17/05/2016 - Estratégia criativa de dinâmica empresarial: Reportagem com ideias de negócio que se transformaram em empresas, na incubadora Made InCUBAR nas instalações da Riopele. Bernardino Carneiro, administrador de Empresas do Grupo Têxtil Riopele. (Miguel Pereira/Global Imagens)

A transferência de conhecimento das universidades e centros de ciência para as empresas funciona como um motor de inovação com resultados ao nível da faturação e posicionamento no mercado.

Nas últimas décadas a relação entre o tecido empresarial e os centros de saber tem vindo a crescer, com vantagens para ambas as partes. Mas há ingredientes chave para que esta relação seja frutuosa. “Há 20 anos, era a universidade que procurava as empresas, atualmente são as empresas que têm na sua rotina a procura da universidade enquanto colaborador da sua estratégia de inovação”, afirma Maria Manuela Pintado, da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica e diretora do Centro de Investigação CBQF – Centro de Biotecnologia e Química Fina. “Muitas empresas contactam o centro de investigação para que em conjunto ou associados a outros parceiros, possamos desenvolver a investigação de modo a produzir inovação competitiva que as possa demarcar do mercado”, explica

Maria Manuela Pintado, que sublinha a motivação dada pelo aumento do financiamento público.
Por regra, as grandes empresas têm núcleos de inovação bem estruturados que selecionam as áreas e temas para que procuram resposta enquanto as pequenas e médias empresas procuram os centros de ciência como forma de se prepararem para entrar em novos setores. A Universidade Católica organiza eventos anuais nos quais partilha temas de doutoramento e mestrado que podem ser relevantes para as empresas, bem como reuniões mais restritas que permitem discutir necessidades setoriais. Um maior conhecimento das necessidades das empresas permite à universidade definir a estratégia de alguns grupos de investigação, adequando-a ao mercado. Contudo, as restrições orçamentais e percentagens de financiamento por vezes limitam o acesso das universidades a projetos com uma maior ligação à indústria.

“Sem estes projetos, o nosso volume de vendas estaria reduzido a metade. A empresa tem atingido os objetivos ao longo destes sete anos, o que não acontecia antes. Parte deste sucesso deve-se às parcerias com as universidades e centros tecnológicos”, assume Bernardino Carneiro, administrador da Riopele, empresa que atua no setor têxtil industrial há 93 anos. Com uma forte aposta na exportação (cerca de 95% do volume de negócios), a Riopele conta entre os clientes com grupos como Armani, Max Mara, Hugo Boss ou Inditex, cujo nível de exigência tem de acompanhar.

Neste âmbito, em parceria com a Universidade do Porto, o CITEVE e CeNTI, a Riopele desenvolveu o projeto Nano.Smart, o qual deu origem à marca Çeramica Clean que comercializa tecidos anti-nódoa. Mais tarde, com a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, CITEVE e CeNTI, avançou para o projeto R4Textiles, com o objetivo de desenvolver tecidos a partir de resíduos da indústria têxtil e outras, surgindo daqui a marca Tenowa, reconhecida com o Prémio Produto Inovação COTEC 2018. “A vantagem, além do desenvolvimento de produtos novos, é a de conseguir incorporar nos que já eram feitos novas funcionalidades, o que vai alavancar as vendas”, explica o administrador da Riopele.

A Frulact, grupo português de produção de alimentos aposta também na inovação e, desde o ano 2000, tem vindo a trabalhar com diversas entidades do sistema científico e tecnológico. “É na nossa área de investigação em tecnologia, responsável pela criação do novo conhecimento e constituída por especialistas em áreas estratégicas para o futuro do negócio, que trabalha projetos de médio e longo prazo com um elevado grau de incerteza, que mais recorremos a estas parcerias”, explica Pedro Azevedo, Diretor of CEO Office da empresa que inclui ainda as áreas de desenvolvimento e inovação de produto e de gestão de inovação e intelligence, sendo esta última responsável pela gestão e monitorização destas unidades I&D de forma transversal.

A relação desenvolve-se quer através de parcerias ao abrigo de programas como o Portugal 2020 ou Horizons 2020 quer por projetos não financiados e programas de estágios de curta e média duração. “As universidades têm-se aproximado cada vez mais das empresas. Procuram a resolução de problemas e não tanto a produção de papers. Mas também do lado das empresas, começamos a identificar melhor a linguagem académica e os projetos começam a evoluir de forma mais rápida e eficiente”, afirma o responsável.

Para Maria Manuela Pintado, é esta adaptação do discurso, a par com a construção de uma relação de confiança baseada no cumprimento de timings e compromissos de parte a parte, um dos segredos para uma relação frutuosa para ambas as partes. A isto, Bernardino Carneiro acrescenta ainda, por parte das empresas, a escolha da universidade com a valência certa para responder às necessidades e a constituição de uma equipa interna que acompanhe, monitorize e industrialize a solução encontrada.
Por último, Pedro Azevedo destaca a importância dos interlocutores: “Hoje fala-se muito do paradigma da sociedade 5.0 em que se pretende posicionar as pessoas no centro da inovação e da transformação tecnológica. E serão as pessoas e as relações humanas os elementos diferenciadores nesta relação”.

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