Reportagem

Finlândia. Na base de um ecossistema criativo está uma educação sem igual

Estudantes com tablets Velhot Photography Oy _ Riku Isohella

A Finlândia rompeu com o ensino tradicional há 45 anos. As gerações que cresceram com as inovações estão agora a dar frutos ao país que é dos mais dinâmicos na criação de startups

Educação gratuita desde a creche ao último ano do doutoramento, um único exame até à entrada na faculdade, inexistência de trabalhos de casa ou chumbos e turmas compostas por crianças de diferentes faixas etárias e estratos sociais. O sistema educativo da Finlândia desafiou as convenções globais a partir da década de 70 e foi deixando de ser novidade para o mundo à medida que passou a integrar o pódio dos testes PISA, que avaliam e comparam a literacia dos alunos de diferentes países nas áreas da matemática, ciências e literatura.

O modelo provou a sua eficácia, mas os resultados notam-se além disso e aparecem agora no setor empresarial: num país com cerca de metade da população de Portugal nascem, a cada ano, cerca de quatro mil startups.

A Finlândia alimenta um ciclo vicioso, fazendo do ensino o propulsor de gerações mais proativas. Os números justificam os investimentos: o setor da educação representa 6,3 mil milhões de euros e é o segundo mais valioso do país (a seguir ao da alimentação). Cada nova escola não custa ao Estado menos de dez milhões de euros.

Na escola básica de Kalasatama, em Helsínquia, encontrámos o modelo finlandês em plena acção. A escola tem apenas uma sala com as mesas e cadeiras clássicas, as restantes têm pufes, sofás ou cabines onde as crianças usam tablets distribuidos no início de cada aula. É pela tecnologia que aprendem com métodos que os livros não permitem.

Entre as apps lá incluídas estão a Ligthneer e a Mightifier, duas ideias tecnológicas e lúdicas. A Ligthneer introduz os alunos de terceiro ano às bases da física, através do Big Bang Legends, um “Pokémon da física”, onde os personagens representam os diferentes elementos da tabela periódica. “Quando lhes apresentámos o jogo, deixámo-los sozinhos durante uma hora. Depois, voltaram e disseram que tinham gostado muito. Quando perguntei o que aprenderam, disseram “nada”. Mas perguntei-lhes quantos neutrões ou protões tinha um dos personagens e a maioria acertou na resposta”, conta ao Dinheiro Vivo o co-criador da Lightneer, Peter Vesterbacka. “Os professores ligavam-me a dizer que nunca tinham visto as crianças aprenderem tanto e tão depressa”, acrescenta o fazedor que integrou a equipa da Rovio responsável pela saga Angry Birds.

Estudantes com tablets Velhot Photography Oy _ Riku Isohella

Com a Mightifier, o foco não é a aprendizagem cognitiva, mas sim a social. A app combate o bullying enquanto cria uma boa atmosfera – “acompanhada em tempo real” – entre os alunos, também através de personagens, cada uma delas com qualidades comportamentais diferentes: compaixão, empatia, responsabilidade, motivação, etc. “Se tivermos crianças ansiosas e vítimas de bullying, elas perdem a esperança no futuro”, explica ao DV a representante da Mightifier, Kirsi Haapamäki.

Questionada sobre a relação entre o sistema educativo e o ecossistema empresarial, Kirsi sorri de orgulho: “Este modelo dá às nossas crianças a liberdade e as ferramentas para poderem pensar sozinhas. O sistema encoraja-as a encontrar as próprias soluções, respostas e maneiras autónomas de trabalhar. No fundo, estamos a prepará-las para dar resposta a perguntas que ainda nem temos”.

Marjaana Manninen, diretora da escola, considera que as convenções estão “fora de moda”. “Nós [finlandeses] não acreditamos que uma criança aprende melhor por estar sentada à frente de uma mesa. Falo por mim, foi horrível ter de aprender dessa forma, porque odeio estar no mesmo sítio por mais de uma hora, agora imagine durante anos. Os estudos mostram que isso não é saudável, é uma convicção fora de moda” diz.

Um modelo exportável

Entre as startups que nascem focadas no setor da educação está a Helsinki International Schools (Hei Schools), que, através de franchise, exporta o modelo educativo finlandês, dando formação a professores, aconselhamento e venda de produtos e conceitos lúdicos (apps, livros, brinquedos), e a elaboração do design arquitetónico da escola.

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Em dois anos de vida e um de laboração, a Hei Schools já instalou uma escola nórdica em Baotou, China. Para este ano está prevista a abertura de três a cinco novos espaços: no sul da China, em Sydney (Austrália) e Helsínquia. Ainda em negociação estão outros dois, na China no Golfo Pérsico. Também interessados na ideia estão empresas, públicas e privadas, de países como o Brasil, Estados Unidos, Índia, Paquistão, Indonésia, Vietname, entre outros.

“O espírito empreendedor, a cultura do ecossistema e o apoio governamental que lhe é dado têm evoluído de uma forma enorme nos últimos anos. Há muitas razões para isso, mas o nosso sistema educativo é um dos grandes pilares do sucesso, sem dúvida”, considera Milla Kokko, CEO da Hei Schools, ouvida pelo Dinheiro Vivo.

Uma Web Summit de autor

É no Slush que o ecossistema atinge, todos os anos, o seu ponto mais alto. Criado em 2008 por um grupo de estudantes universitários, que na altura queriam fazer “uma startup sem fins lucrativos”, o evento assemelha-se à Web Summit, na medida em que junta empresas e investidores locais e estrangeiros.

Apesar das parecenças, quem gere o evento diz que o intuito é – “e será sempre”- servir a comunidade de startups finlandesa, que acaba por surgir do tal sistema de ensino. “Não queremos ser maiores que a Web Sumit, queremos ser mais úteis”, diz Marianne Vikkula, que em 2008 começou como voluntária e hoje lidera a organização do evento.

“Para nós [equipa], o propósito foi sempre saber como podemos ajudar a comunidade local, e essa tem de continuar a ser a nossa prioridade”, reforça a jovem em conversa com o Dinheiro Vivo.

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“Histórias da Nokia e Rovio inspiraram todo o ecossistema”

O gaming é uma das fortes apostas do país. Angry Birds ou Clash of Clans são apenas dois exemplos de sucesso.

A Nokia foi a primeira empresa a espalhar o orgulho finlandês pelo mundo, ainda no início do século, quando era difícil encontrar alguém que não tivesse um dos seus modelos nas mãos. Seguiu-se a Rovio, com o fenómeno mundial que foi a saga Angry Birds e que a levou a entrar na bolsa de Helsínquia, e depois a Supercell, que entretém milhões pelo mundo com os jogos que cria, incluindo o famoso Clash of Clans.

Estes são os três maiores exemplos de uma indústria que está a crescer como nunca: entre 2010 e 2016 nasceram, só na Finlândia, 250 empresas dedicadas ao mundo dos jogos. Há dez anos, o negócio do gaming dava emprego a 1147 pessoas; hoje em dia são quase 3000. No que toca ao volume de negócios, este era de 87 milhões em 2008, mas agora já ultrapassa os 2500 milhões de euros. Ao todo, a indústria dos videojogos representa 0,5% do PIB finlandês.

Kati Levoranta, presidente executiva da Rovio, à esquerda de um dos pássaros do Angry Birds, o jogo que transformou a produtora finlandesa. Fotografia: REUTERS/Jussi Rosendahl

Kati Levoranta, presidente executiva da Rovio, à esquerda de um dos pássaros do Angry Birds, o jogo que transformou a produtora finlandesa. Fotografia: REUTERS/Jussi Rosendahl

“Todas querem ser a próxima Nokia, Rovio ou Supercell. As histórias destas empresas inspiraram todo o ecossistema. Não é novidade que no top 10 dos jogos com mais downloads, pelo menos metade seja finlandesa”, diz Petri Järvailehto, cofundador da Seriously Digital Entertainment, autora da saga Best Fiends e uma das maiores firmas de jogos do país, que dá emprego a 65 pessoas.

À conversa com o Dinheiro Vivo, o criativo da Seriously diz que o crescimento alucinante do setor trouxe grandes desafios para empresas como a que lidera, nomeadamente ao nível do talento, o que faz que “um bom programador possa receber tanto como um banqueiro de topo” e que mais de 60% da mão-de-obra seja estrangeira.

Petri saúda ainda o governo por “remar contra a maré” face a outros países, ao investir a sério no gaming, salientando que “os jogos não servem apenas para entreter mas também para educar”, como no caso da Lightneer e Mightifier.

Governo dá o exemplo às empresas e às escolas

A Tekes, agência nacional de investimento para a inovação, “ajuda muitas startups a levantarem voo”.

No caso finlandês, é em muito graças ao governo que a sociedade se mantém empenhada em querer fazer sempre mais e melhor, visto que não faltam incentivos e apoios à inovação. Se no caso do ensino o Ministério da Educação suporta gastos com pessoal e infraestruturas, o setor empresarial conta com a Tekes, a agência nacional de financiamento para a inovação.

Das cerca de quatro mil startups que nascem a cada ano, a Tekes ajuda, em média, perto de 800. Para os novos projetos, a Tekes garante, por norma, uma bolsa de 50 mil euros, valor que aumenta consoante a diminuição do risco.

Contudo, a intervenção deste departamento governativo não se limita às novas ideias. Em 2016, o orçamento da Tekes foi de 467 milhões de euros, o que permitiu ajudar 3760 projetos de pequenas, médias e grandes empresas em diferentes fases como a internacionalização, novos mercados, expansão, marketing, etc.

“A nossa ajuda não é apenas o financiamento, pode ser a consultoria e aconselhamento”, explica ao Dinheiro Vivo a Senior Advisor da Tekes, Mari Isbom. A representante diz ainda que a Tekes não se contenta em esperar pelas candidaturas aos apoios, mas que é proativa na procura de novas ideias. Aliás, foi em Lisboa, durante a última Web Summit, que encontrou duas empresas finlandesas promissoras e que disponibilizou a ajuda da Tekes.

O orçamento da agência para a inovação em 2010 era de 560 milhões de euros, mais 63 milhões do que em 2016. Os números têm vindo a diminuir ao longo dos anos, mas por boas razões. “A razão para a diminuição do orçamento tem que ver com o aumento de dinheiros privados, private equities e business angels estrangeiros no nosso país e empresas, portanto elas não precisam tanto da nossa ajuda, o que nos liberta mais dinheiro para melhorar as nossas escolas e universidades”, explica Mari Isbom.

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